quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Contos.3

24 de Dezembro de 2008 ainda lhe suavam as mãos de subir ofegante a escada do prédio quando descobriu que um grande gato amarelo tinha, sorrateiro, entrado pela porta a cozinha Travou-se ali, então, uma longa conversa entre platão e o gato Platão , assustado, pedia ao animal que abandonasse a casa o animal pedia a platão estadia Levaram uns quinze minutos nisto até que pelo cansaço o gato desistiu e saiu , agora rapidamente, pela frincha aberta por onde tinha entrado Á tarde platão tentou dormir mas aqueles felinos olhos cinzentos assombravam-lhe as horas de descanso – afinal podia ter ficado com ele, ao menos esta noite Voltou à porta podia ser que sócrates ainda por lá estivesse mas não, nem um rasto nas escadas traseiras Voltado à cama platão sentiu um frio de remorso Acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e pôs-se a escrever contando o encontro que tinha desprezado Finalmente um ser tinha vindo ao seu encontro e ele por impulso recusou-o Porquê? Porquê Desenhou um gato no caderno e pôs-lhe cores e patas grandes Desolado , numa última linha, escreveu: «hoje, nesta minha casa encontrei-me com sócrates com medo afugentei-o Nada a fazer»

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Centro Mário Dionísio - Ano Novo Vida Nova

A Associação Casa da Achada – Centro Mário Dionísio oferece às crianças da zona em que está sediada – e a todas as outras que queiram aparecer – papéis e lápis, no dia 31 de Dezembro às 16h, para pensarem a cores no Ano Novo Vida Nova durante a tarde do último dia do ano. A sessão, que terá lugar na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, actualmente em obras, na Rua da Achada 11B, em Lisboa, será orientada por Regina Guimarães, escritora, cineasta e uma das sócias fundadoras da Associação. Os desenhos ficarão expostos no local durante a tarde do 1º dia do ano, das 16h às 19h. O Centro Mário Dionísio encontra-se ainda em fase de instalação mas entendeu que era possível fazer esta iniciativa sem esperar pela sua abertura regular ao público, em dois dias mais livres do que outros. Valerá a pena recordar o valor que Mário Dionísio – escritor, pintor, crítico de arte, professor e pedagogo – atribuía às actividades artísticas na educação – de pequenos e grandes. A propósito de uma grande exposição de arte infantil «Lisboa vista pelas suas crianças», realizada há 60 anos – tempos sombrios – afirmou: A necessidade da prática da arte como elemento fundamental da educação mostra-se aqui com uma evidência irrecusável. (…) Esta bela exposição (…) marca, creio eu, ou poderia marcar, uma data importante na história do nosso conhecimento do homem e da arte, o que quer sempre dizer: rumos de verdadeira educação, de libertação, de felicidade.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Contos.2

Platão deitava-se Insone Olhos postos no tecto pelo corpo só os indispensáveis movimentos À sua direita uma telefonia e cigarros acumulados num mínimo cinzeiro Platão ficava noites seguidas assim: a ouvir, concentrado, os ruídos da rua : homens do lixo : cães ladrando ao longe : um ou outro gato rosnando em briga Por vezes , uma vizinha gritava com o marido Não Para platão as noites nunca eram iguais simplesmente nunca tinha sido ensinado a adormecer No telheiro da janela quando uma família de pombos despertava, platão sabia que chegara o momento de se erguer apanhado na emboscada de um sol que nasce de uma lua que se deixa apagar Já levantado seguia para mais um dia Dias de coração demasiado lento preso à vontade de à noite voltar e insone se deitar

sábado, 20 de dezembro de 2008

Contos.1

quando metia a chave à porta e recebia no rosto a chuva da escuridão de um vento de espaço vazio Platão sentia uma tontura vinda dos pés até lhe tomar a cabeça (assim como na guerra o inimigo toma em prisão o amigo desconhecido) Com medo Sem coragem platão avançava Primeiro com o pé esquerdo, depois, arrastando a perna , o direito, fazendo bater os calcanhares Ficava em esquadro já dentro do apartamento Fechada a porta demorava-se uns segundos no escuro Afinal era a magia possível para os seus dias Então acendia a vela , via iluminar-se o corredor e voltava a si – só – e com cuidado pendurava o sobretudo num cabide idoso junto a um relógio de pêndulo

O Livro dos Peixes

frederico.'., dez.2008 (águarela e tinta-da-china sobre papel)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

poemas dispersos

presta atenção aos teus passos sente como as mãos te podem salvar olha uma última vez o sol no seu meridiano escolhe uma planta que te acompanhe Escreve , Escreve muito – Escreve tanto ...........quanto ................puderes e depois dorme um silêncio profundo acolhedor e maternal sentindo a terra a percorrer-te a pele quando acordares verás a lua a ocidente crescente e alva Abraça-a se o fizeres repararás como ela é pequena e carente: um corpo inanimado reflectindo a luz Uma Vez Mais Presta Atenção Aos Teus Passos observa como há tanto tempo caminhas em círculo dá agora um passo ao lado na tua marcha saído do redondo caminhar Abre a porta para outro teu encantar Nada há a perder Nada para encontrar só Luz e , talvez, por sorte, por desígnio um pássaro para te guiar

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

poemas dispersos

uma súbita face Branca no reflexo de um espelho oval – eis a minha aparência depois da invocação Proibida – : a Boca distorcida – Saliva escura : Olhos semi- ........-abertos , Mãos crispadas: um punhal! Com um único sopro cerrei três velas negras . já na Treva profunda recitei: «venite» «lux» «venite» «lux» «venite» «lux» e a Noite morreu em lua nova

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

poemas dispersos

27 de novembro de 2008 doce, Sentado sobre A pedra da cor dos goivos e dos colares de cleópatra, Romeu ouviu o Tiro As pernas tremeram como ossos desprendendo- -se da carne Sem chegar a sentir dor ou ferida aberta. asfixiado. caiu Romeu no trono

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

poemas dispersos

primeiro o sol depois devagar as flores – as aves – o canto sobre a mesa a caneta imóvel o papel sem curvas nem marcas ? o sol sim a percorrer-me os olhos e a cegá-los : ver como um cego : ouvir como um cego : tocar como um cego sobre a mesa a caneta imóvel e uma romã aberta uma seiva púrpura – o sol? sim! que fazia reflectir os frutos juntos na forma de coração único de uma romã ao fim de um tempo um fio-de-dor percorreu-me os cabelos , a testa, os polegares – aqui estou vivo-inerte a percorrer campos numa estreita ala de convento

terça-feira, 18 de novembro de 2008

luz! que desejamos para ti Irmão? luz! sob a grandiosa estrela d’alva cem anos fizeram o caminho … quantos pedreiros no centro da rosa? cruzes iluminadas brancos lenços sobre as pernas e na garganta um sinal de ordem luz! é o que desejamos para ti Irmão mas tantas vezes a treva se entrepõe . névoa que invade o ar que atravessa o templo no nevoeiro, de que serve o avental com que te revestes? é luz que queremos para ti Irmão que os três embates de malhete te relembrem que progrides aprendiz e quando levantares a espada incendiada , invocando a grande arquitectura universal, nada te espante que só tens um dever: proteger aqueles que como frágeis fios de luz preenchem as colunas

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

poemas dispersos

a toda a largura da mesa as flores e o inverno que elas trazem . chove há em mim um zumbido ansioso que me afasta da janela . recolho-me enfrento as cores e as folhas das flores e tenho medo da largura da mesa posso não voltar a ouvir flores nem ver zumbidos só sei que chove e nesta minha cadeira nada muda – acaba o dia não mais que isso – imagino a meu lado esta tarde uma grande lareira acesa onde dormisse

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

poemas dispersos

margem esquerda vê-se o mar – torres com bandeiras nos dedos contorcem-se teclas de piano vindas de fora num desencantamento de almas: margem direita estreitos veios de navegação cega mar e rio deambulando entre as margens quando um caixão se levanta trazendo dentro corpos de pedras e à noite pescadores musicais pescam ao som desenfreado das âncoras soando guitarras no extremo das canas

sábado, 25 de outubro de 2008

poemas dispersos

ele viu o Rio e os peixes contorcendo-se em curvas estreitas de Terra Pousou os cotovelos num imaginado colo maternal : Ele mesmo um peixe atormentado de marés fluviais....ou talvez uma rocha em sólida e precisa rota

domingo, 12 de outubro de 2008

poemas dispersos

caiu aos meus pés a âncora de um mínimo navio onde marinheiros nus rogavam pela salvação da terra e imploravam na aspereza do convés a devolução ao mar às águas que tinham conhecido Marinheiros nus implorando aos meus pés : solo indiano sem história – a minha coragem nada fiz – corpo inerte – com o meu fato negro apenas deixei cair a espada

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

poemas dispersos

da terra para o fogo da sepultura para a luz da treva para o globo solar .........deus viu e viu que era boa a obra criada levantou-se a criatura e andou Nas ruas foi visto e muito amado até que voou e já sem força nos membros caiu : vasto areal de cidades ........deus viu e viu que era boa a obra A cova trabalhada

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

poemas dispersos

onde nasce a tua fonte? Cava Cava Cava um lençol de água e sobre a tua capa desliza e passa o caracol sentado que te esmaga Vê depois os rios (que também são belos) E as flores (que não são menos) imagina pastores cheios de flautas Cava Cava Cava e sobre a Terra serás asa

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

poemas dispersos

olhos vermelhos Água quente de novo aquela Água quente : mãos coladas ao cabelo (um cofre numa ilha) olhos vermelhos engolindo letras ; palavras muito usadas e a noite aberta aos sons meticulosos dos cigarros Num lago de olhos vermelhos aquela Água quente como um cofre solitário ou dedos colados ao rosto

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

poemas dispersos

e desci ouvindo vozes Comentários ferozes e janelas a abrirem-se Os meus pés enrolaram-se nas mãos e por dentro das mãos um calor externo um lâmpada Houve quem dissesse que eram o s meus gritos vindos de uma garganta ausente Ardente Na retorta de deus: évora o athanor

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

poemas dispersos

nem olhos nem boca nem fogo nem sopro nem terra nem lágrima nem ouro nem poema nem cristo nem poeta nem pele nem sal nem marés – no coração do sutra perfeito só o amor rarefeito

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

poemas dispersos

resta-nos abrir a porta festejar os obreiros do céu sentir o corpo a de- com- pôr-se como um vento árabe e olhar a derrocada dos dias como se os dias pudessem ser olhados e os olhos capazes de olhar

terça-feira, 16 de setembro de 2008

poemas dispersos

e as chuvas não lavam as flores e os frutos entre os muros da cidade na lonjura das estrelas o abrigo das vozes maternais expandindo-se sobre os filhos areias devastadoras e nelas as pegadas salientes dos santos e iluminados pregadores as chuvas não respondem aos chamados dos feiticeiros animais e num grito último fogem para a inexistente floresta os gatos de um antiquíssimo egipto

domingo, 7 de setembro de 2008

poemas dispersos

talvez fosse uma gaivota… … era uma gaivota fazendo movimentos de gato por cima da cama num sono curto o mar a recordação dos comboios acendida a luz nada – paredes lisas si – lêncio sem sono pela janela um grito felino de gaivota

domingo, 17 de agosto de 2008

poemas dispersos

curvado a esta luz oiço e sinto gotas de relento caindo lá longe Nas cavernas dos suplícios Sei do que são feitas essas gotas mas calo não caberia a mim – profeta cego para o divino – levantar-me e correr e salvar do sacrifício aqueles que pelo choro da escrita nessa torre se encontram a Correntados estou frio miraculosamente, velho de menos andar é para mim um esforço maior do que cair Com a graça de deus (depois destas linhas terminadas e apoiado numa cana) acenarei em cruz ao arcanjo s. miguel lerei o jornal – isto já no café – e toda a memória do que ainda há momentos tinha invocado se dissipará em leite e pão praia das maçãs, agosto de 2008

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

poemas dispersos

ainda trago um fio de sangue na roupa , limões num saco Ligeiro corte na podagem Acreditei que a luz do sol me ajudaria a enxergar os veios dos ramos o local certo da incisão Ao contrário ofuscou-me o grito do astro e caí com letra no papel já no chão vi um gato no céu em forma de nuvem e na terra muitos espinhos de rosa que apesar de cravados não me magoaram Conseguia levantar-me estava bem mas desejei estar melhor e ali fiquei caído ferido mas deslumbrado com um céu imenso escarlate de nuvens azuis e limões espalhados ao redor da cabeça – amarelos um amarelo definitivo só Agora me ergui e depois de ter recolhido os limões regresso a casa vejo-me ao espelho estou mais leve a cara cortada de chicote fez-me despertar os olhos o sangue caligrafou um olho na camisa tudo está certo e maravilhosamente perfeito praia das maças, agosto de 2008-09-14

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

poemas dispersos

dE noite ainda se ouvia o mar ou talvez fossem os pinheiros na memória ossoS :um crânio com um esplêndido orifício durante o sono surgiram imagens de areia e sapatos junto Às flores a infante sepultura do teu nome praia das maçãs, agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

poemas dispersos

depois de uma palavra um gesto subtil de uma suposta carícia nem rosas se revelaram na noite de chuva nada de verdadeiro já na rua procuro a tabacaria o tabaco desfazendo-se em fumo acalma as cores agressivas à volta tudo falso – salva-se o silêncio: o cansaço das horas seguintes ouvindo poemas – na noite sonho confuso com um barco sem tripulação implacável navegando

sábado, 26 de julho de 2008

poemas dispersos

quase agosto um dia de chuva bastou : dois corvos pousaram tranquilos sobre as torres da fábrica dois-grandes-corvos-quase-violeta os operários saíram num ensejo sonhador de os ver – ¿há quantas décadas os corvos não se aproximavam da cidade? quase meio-dia… à hora certa as sirenes gritaram marcando a pausa para o almoço mas a fábrica já estava vazia no terreiro do estacionamento três centenas de operários tinham antecipado a pausa para saudarem dois corvos quase violeta

sexta-feira, 18 de julho de 2008

poemas dispersos

lia romances – extensos romances lia lia romances – extensos romances em fundo azul letras verticais e oblíquas frases em erupção depois dormia deixando acesa uma suave luz amarela e um gato a cobrir-lhe os pés nos sonhos lia relembrava os romances transformando-os em versos delicados momentos de voo no centro da noite lia lia romances – extensos romances

domingo, 6 de julho de 2008

poemas dispersos

viu-se de relâmpago e era negra e como se uma chave fosse uma chave foi abrindo a porta do grande palácio das buganvílias e dos loendros lá dentro sobre um pavimento de mosaicos brancos e negros duas colunas suportavam sem esforço um globo celeste e outro terrestre duas esferas romãs abertas e expostas à sua multitude era uma espada de ferro quente ondulada : flamejante – a invocadora de todos os sortilégios entre colunas – onde reinava o silêncio ,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui não haverá espaço para a defesa porque não haverá espaço para o ataque» nisto uma bicéfala águia branca pousou sobre a coroa do trono e no tecto do palácio se escreveu num ouro muito azul: «ordo ab chao»

poemas dispersos

pelas ruas caminham ainda Gaivotas e outros animais de nome desconhecidos: ¿gente perdida? – numa montra um vestido Branco perfeito – luminoso pelas ruas caminham ainda Flores silvestres odores ignorados jardins sem rosto lagos sem rosto paisagens distorcidas pelas ruas caminha ainda um vestido Branco perfeito – luminoso

poemas dispersos

um dia – se me tornar mesmo peregrino – encontrarei as tuas pegadas junto ao rio que escolheste e aí ficarei a contemplá-las parado ouvindo as águas respirando o oxigénio das ár vores gigantes :os corvos

domingo, 22 de junho de 2008

poemas dispersos

procurem nas montanhas as pegadas dos cavalos brancos e humanos do grande apocalipse procurem no deserto as águas frescas dos oceanos que ascenderam aos céus procurem as pedras preciosas ocultas no centro da terra – e quando estiverem deslumbrados sintam-se perdidos e desiludidos pois tudo o que encontraram mais não foi que desgosto e iludida alegria

terça-feira, 10 de junho de 2008

poemas dispersos

mar e príncipes-perfeitos a falésia – pináculo de catedral ouvem-se as vozes do coro Requiem para sempre um Requiem de ondas e cardos :a leve brisa a que chamam primavera quando É primavera ou outono quando É outono mar e princesas descalças no pinhal do outeiro muda-se a roupa ergue-se a voz a mesma que ainda agora se ouvia lá atrás no coro da igreja nua e a toda a volta a cauda de uma Sereia

sábado, 7 de junho de 2008

poemas dispersos

vinham e falavam crioulo manchavam a terra e sabiam enterrado o esposo havia crianças e laços na cabeça prematuras esperanças e pelo meio um louco deitavam cartas e olhos verdes gritavam um hino vermelho vomitando a gaguez e de cada vez é de vez vêm às dúzias num comboio há crianças uma a uma de-cada-vez deitam cartas e olhos verdes vomitando a palidez na carruagem cantam um hino vermelho para dentro de um aparelho português

quinta-feira, 5 de junho de 2008

poemas dispersos

numa minúscula árvore brotou um fonema :o tema e por extenso o fruto nos ramos viram-se pássaros e uivos caíram plumas e a çu-ce-nas – primeiro acto pacto o peixe o ovo e qualquer coisa de lácteo numa minúscula árvore acesa derramaram-se os versos do último poema verteram-se as marés as areias :o pólo norte desfigurado por antenas

terça-feira, 27 de maio de 2008

poemas dispersos

encontrei-me contigo num jardim de verão onde chovia vi-te primeiro estavas leve abençoada e clara viste-me a seguir cor-de-rosa como uma flor japonesa de antiquíssima lembrança rezámos junto ao lago concentrados nos peixes e nas folhas rezámos a tudo a quanto um ser pode rezar até que um de nós já não me lembro qual tirou o revólver e disparou sobre o outro caímos de semblante sereno sobre a terra deixando que os pássaros nos cantassem é bom lembrar a nossa morte sobretudo porque nesse dia estávamos lá os dois e aquele tiro nos eternizou foi a primeira vez que sorrimos com a calma e a tranquilidade dos grandes poetas

segunda-feira, 26 de maio de 2008

poemas dispersos

fechou-se o palco com um actor lá dentro fecharam-se as cadeiras as luzes os alfabéticos-pirilampos baixou o lustre com os grandes e os pequenos cristais de quartzo correu a cortina de ferro fechou-se o palco com um actor lá dentro nesta casca de ovo o actor respirou enfim por fim até ao fim e silenciou-se numa espécie de chão e madeira lembro assim o actor que foste e as horas que passo sem ti hoje dia em que também estou fechado no ovo respiro o fumo que deixaste do último cigarro e é de um corpo triste e derrotado que faço a minha vitória

domingo, 25 de maio de 2008

poemas dispersos

na mansarda em frente ao café há rosas-de-santa-teresinha no campo aqui mesmo ao lado os pastos ficam vermelhos de flores e outros pequenos milagres ver a beleza destes dias é ver simplesmente é tornar os olhos mais lentos arrastar as palavras descobrir na retorta do alquimista o sucesso que elevará o chumbo a ouro amanhã choverá outra vez até talvez já esta noite e a beleza solsticial esconder-se-á como numa concha se escondem anéis e sem palavras os pastos voltarão a ficar verdes só os alquimistas continuarão o labor no seio do athanor, as rosas

sábado, 24 de maio de 2008

poemas dispersos

a chuva que cai não é chuva que cai há mastros que se inclinam e escotilhas e abelhas a toda a roda a vegetação adensa-se aqui e ali e os poetas que cantam isto também não são poetas porque se fossem poetas só olhariam a chuva que cai os mastros que se inclinam e as escotilhas por onde as abelhas querem passar da mesma maneira estes dias mais longos de uma primavera húmida e sem vento não são os dias longos de uma primavera húmida e sem vento nem o amor que se sente é amor se fosse amor era só amor e não um amor que se sente tudo é uma réplica da verdadeira condição de se ser natural e poeta no veio longo e lúcido – estranhamente lúcido – de uma rocha que uma vez escalada nos abriria a porta das cavernas douradas onde na realidade nunca fomos

quarta-feira, 21 de maio de 2008

poemas dispersos

o vulcão sopra mesmo ali junto à fonte é um vulcão simples de asas justas e cauda de noiva quando estremece toda a terra vibra e ao vibrar encontra mais uma pedra oculta dos antigos magos depois há os petroleiros e as suas grossas amarras os frutos secos da pastelaria a mulher gorda de outrora que os engolia em habilidades de circo e de poema a fonte essa não se mexe é demasiado humana para se dar a tais luxos deita água quando é preciso e no repuxo máximo até o vulcão parece pequeno de santa-apolónia partem os trens para frança e para espanha e os gritos das aves parece tão mais vivo quanto mais alto o voo e a vontade de pescar o vulcão não é nada neste bairro porque o estremecimento que provoca com as suas erupções não corrompem o andar de ninguém nem ninguém se preocupa com pedras ocultas tudo ali é o que parece menos o vulcão que sendo um vulcão nem se consegue fazer comparar à descarga de um navio ou à chuva dos dias negros

segunda-feira, 19 de maio de 2008

poemas dispersos

roma paris berlim trieste moscovo toda a ásia desertos de areia desertos de gente céus encobertos – rios encobertos nevoeiros rasteiros cães nadando nas enxurradas d’água «cães de barcelona» - o meu anel de lis no fundo de um lago os sinos e os monges roma paris trieste moscovo comboios de gente – lisboa nove e quarenta e cinco da manhã passa pesado o metropolitano rua do arsenal – tejo rua do arsenal – armas pela república num dia rua do arsenal – armas por abril noutro são dez horas da manhã o sol fez-se redondo e chuvoso são dez e três – centro da cidade – birmânia

domingo, 18 de maio de 2008

poemas dispersos

procurei que as coisas acontecessem procurei no céu olhares misteriosos e na terra o sabor sereno dos diospiros plantei algumas árvores e desenhei e escrevi e pintei terá sido em vão porque não se procura nada nos céus nem na terra porque de nada vale o sabor de um fruto ou um desenho um vocábulo uma cor ainda assim quando não esperava encontrei uma pequena esfera no chão desconheço o seu uso mas trago-a na mão

sábado, 17 de maio de 2008

poemas dispersos

é um outro jogo : uma poeira azul espalha-se por toda a parte entranha-se na pele e nos ossos basta um movimento errado basta um movimento basta não se estar a dormir as regras são precisas infalíveis – dolorosas um pensamento a mais e fecha-se o mar contrai-se o rio e os navios morrem na sua embaixada

sexta-feira, 16 de maio de 2008

poemas dispersos

aqui tão preso à criatura que os meus olhos cegos vêem fico incapaz de qualquer movimento criador sou – também eu – só criatura Nisto o cavalo salta branco como as pedras do deserto Estremeço , reparo-me cansado demais para o acompanhar.........;o desejo adormece e a bela criatura depois do salto corre em direcção às folhas dos canteiros hei-nos no coração da Metrópole

quinta-feira, 15 de maio de 2008

poemas dispersos

confundem-se árvores cai água desamparada mente sobre os troncos as folhas rebentam nas copas «chove» está-se sozinho num bosque transfigurado em plena cidade – sem uma palavra alguém – uma mão – é num café que acendo só mais um cigarro

poemas dispersos

confundem-se árvores cai água desamparada mente sobre os troncos as folhas rebentam nas copas «chove» está-se sozinho num bosque transfigurado em plena cidade – sem uma palavra alguém – uma mão – é num café que acendo só mais um cigarro

quarta-feira, 14 de maio de 2008

poemas dispersos

sei que existo – sinto pernas e olhos: os dedos mexem … mas, à minha volta , tudo está corajosamente congelado menos os Pássaros que também existem e devem sentir as pernas e as penas e os olhos, a rodarem nas órbitas – por isso os procuro – mas não , não encontro Pássaros ao olhar ouço-Os, mas não os vejo quando encaro o alto diante de mim só vejo um lastro quente de sangue negro

terça-feira, 13 de maio de 2008

poemas dispersos

13 de maio de 2008 – dia da mãe do mundo na ternura perdida das mães reside a dureza real dos filhos que como sereias encantam marinheiros e soldados chamando-os para uma revolução sem princípio nem fim sem mares onde naveguem corvetas da guerra dos anjos e das rosas imaculadas mães que justas na produção dos filhos os envolvem numa placenta de veneno e sol e lhes dão vida para que morram depois os filhos santificam essas mães procurando ser o os seus amantes distantes e gritantes filhos mortos de mães mortas e a vida a florescer em naves de água pura e em frechas de rocha onde alguns se escondem mães cruéis na criação dos filhos mães sem olhar sem cheiro sem terra a que pertençam quando sepultadas, filhos translúcidos num colectivo enforcamento de sonhos

segunda-feira, 12 de maio de 2008

poemas dispersos

os antigos guerreiros traziam nas suas armaduras cruzes de prata pintadas de escarlate e erguiam sobre as cabeças elmos em chama cavalgavam sobre campos d esconhecidos: bosques, desertos ,gigantescos lagos e ainda assim nada os detinha – nenhum vento apagava a tocha que lhes indicava a senda – um dia perderam o tesouro que os mantinha vivos uma arca de vitral onde guardavam as relíquias sagradas da deusa a deusa de todos os deuses as armaduras caíram por terra os elmos fizeram-se água mas as cruzes escarlate continuam enterradas nas campas brilhando sempre que o sol se põe tentando salvar os poucos peregrinos que ainda p ro curam a rainha-santa

poemas dispersos

os poemas já não chegam nem as palavras – nem os pequenos vocábulos antes cheios de sonho falta tudo :fadas, elfos, os grandes sábios faltam os doces olhares dos dragões a plenitude das mães até o desespero dos dias antigos e não são coisas que se possam procurar … dantes os navios passavam junto à minha rua e era ao som desses sinos de catedral que sonhava começar um dia bebendo do rio o frio e a vontade de chorar nesses dias choviam cartas – «o espanto» de que falavam o s livros de ponty – ¿para que os terá escrito ele? sabendo de antemão que da caverna primeira nenhum sinal chegaria, nem eco, nem amor – os poemas já não chegam a quimera partiu e com ela as anões, os gigantes, os ogres, afinal todos os deuses de um astral amoroso e natural. ei-nos sós neste pedaço enquadrado de cores brancas cores perdidas em telas perdidas e o homem anda, soluça conta tostões sobre a mesa esperando que por debaixo dela uma fada de olhos claros se aventurasse a pegar-lhe na mão e elevando os olhos o fizesse adejar … mas os poemas morreram com os poetas (vem-me agora à cabeça a música dos versos de herberto) … nesta noite, subitamente (enquanto escrevo) ouço na rua um animal uma besta que se esfrega para encontrar comida antes isso – digo em voz alta – que andar rastejando debaixo de uma mesa numa procura cega por um espírito da natureza que sei, com certeza, ausente invisível. mesmo morto. antes a besta que a lira de herberto ;os navios do rio ;os espantos nos sinais de ponty não. os poemas já não chegam estamos abençoadamente próximos do fim

sábado, 10 de maio de 2008

poemas dispersos

são páginas de calendário só páginas de calendário centenas de milhar números pequenas notas nomes de gente de um dia – iniciais – pequenos recortes mal colados … deve haver mais alguma coisa tem de haver qualquer coisa brilhante sonora: um corcel

sexta-feira, 9 de maio de 2008

poemas dispersos

sentado num moinho feito trono espero um cavaleiro tenho as pernas recolhidas o torso tenso e revolto corujas circulam no telhado estarão assim toda a noite? cúmplices e raras aves há estrelas uma linha de lua sentado num moinho feito trono adormeço

quinta-feira, 8 de maio de 2008

poemas dispersos

um primeiro dia algumas cores o cavalo que corre o bispo avança no xadrez tantos rostos peões à volta do campo de batalha numa cerca verde nascem livres flores-do-deserto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

poemas dispersos

perfiladas de negro as bandeiras as nossas bandeiras e os ratos a cantar a cantar os hinos os nossos hinos – nas praças nas nossas praças e os gatos a adorar a adorar pobre bomba a rebentar poetas sem sabor num pedaço de pão carne a apodrecer e nem um tiro de canhão

domingo, 4 de maio de 2008

poemas dispersos

talvez o barco se tivesse virado ou o mar se tivesse virado qualquer coisa ficou fora da órbita de repente um aperto forte e as veias torcendo-se em choro – uma contracção no peito tremor nas pernas até que ao longe as gaivotas planaram de novo com doçura e tudo ficou calmo – o barco – e o oceano na sua transparência

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Jornal «THEOSOPHIA» nº1


Jornal «THEOSOPHIA», nº1, em papel e on-line

João Lemos - Fairy Tales



«Avengers - Fairy Tales»
Texto: C.B. Cebulsky
Desenhos: João Lemos

poemas dispersos

corre meu corvo corre se as tuas asas já não podem refugia-te no negro usa a espada que tens como bico corre para o mar lá estarás a salvo lá nem barcos nem homens nem animais te atormentarão corre meu corvo corre em direcção ao sal e ao sol de um mar alto onde tudo te protegerá

quinta-feira, 1 de maio de 2008

poemas dispersos

quando ouvia a tua voz escrita acendiam-se os olhos d’uma noite inteira marcavam-se no amplexo do céu pequenos pontos brancos que fixava como se fossem candeias angélicas ou diamantes lapidados brilhando à luz de um sol negro calo agora essa voz e adormeço cego de luzes acrescentando: para sempre

MAIO

terça-feira, 29 de abril de 2008

poemas dispersos

o anjo do apocalipse cujo os pés repousam no mar trouxe-me num vaso de pérolas uma flor das águas: o amor do grande armageddon ia enfim começar e eu salvo pelas redes do espanto fui escolhido para sangrar o cálice da nova terra

segunda-feira, 28 de abril de 2008

poemas dispersos

é uma escultura italiana um leão que chora deitado – derrotado escondendo os olhos com as garras enquanto um gigantesco arcanjo de mármore o afaga tentado a salvar o rei da morte que se aproxima uma imagem congelada da derrota : por muitos séculos assim permanecerão

sábado, 26 de abril de 2008

poemas dispersos

ficará impresso num caractere um quase invisível sinal de dedicatória saberás lê-lo? como todos os deuses e poetas os versos contêm pequenos sinais nas cores sobrevoando uma linha longa de texto ofereço-te o meu reino num hífen sobre-tintado

João Lemos - New York



sexta-feira, 25 de abril de 2008

poemas dispersos

25 de abril de 2008 para o pintor era uma questão de amarelo e de um peixe grande e aterrador com uns olhos muito verdes e barbatana s azul cobalto – o pintor insistia no amarelo para o corpo o mar em que o peixe remava – o pintor morreu e o amarelo não chegou a despertar ainda assim o peixe nadou para um longínquo cravo

obrigado camaradas

quinta-feira, 24 de abril de 2008

poemas dispersos

como um choro lento vi as flores na jarra brilhantes e vermelhas – brancas de tão profundo escarlate e sentei-me imóvel com um medo adulto de quebrar aquela lâmina espelhada de alguma felicidade

quarta-feira, 23 de abril de 2008

poemas dispersos

uma garça sobre o rio um voo plano rápido os marinheiros soltavam cordas e a luz do fim do dia ressaltava na fina superfície da água – a garça inverteu o rumo os marinheiros recolheram até que floriu um dourado imenso como se a noite ali fosse nadar

segunda-feira, 21 de abril de 2008

poemas dispersos

não quero lembrar-me nem tão pouco ser uma luz radiosa para a qual um dia desperte se esquecer o Eu imenso que sou quero – notem bem – quero apenas uma caneta de aparo suave com que possa rasgar num papel com uma tinta muito ágil as latitudes e longitudes das noites insones que me acompanham com a mesma natureza felina de um gato aos pés da cama da velha tia de alguém madrugada dentro

domingo, 20 de abril de 2008

poemas dispersos

um tiro ou uma corda onde pouse um corvo e uma bem-aventurada rosa . à beira da chuva todos os pequenos passos levam ao lugar do desastre e salvos um a um os cegos de goya levantar-se-ão em filas e voarão até ao céu onde dependurado está aquele que a todos sem pensar prometeu a salvação

PEDRO BANDEIRA FREIRE


pedro bandeira freire morreu de dor e amor.
amor por quatro salas de cinema, Quarteto de amor
e verdes anos.
morreu por ter de entregar as chaves desse amor a quarto.
hoje pode descansar? já não tem o seu amor, nem um Quarteto
de filmes que nos abraçavam noite após noite.
que fique a recordação do seu rosto dorido E a lembrança
de um bilhete, parecido com um antigo bilhete de eléctrico,
Chamado Desejo.

sábado, 19 de abril de 2008

poemas dispersos

assim entrançada na rede de ferro a trepadeira desenha perfis e corpos gente de costas gente gritante – bocas a pedir socorro e enquanto o vento lhe bate nas folhas todos aqueles semi-seres se contorcem e agitam e parecem ainda maiores e mais desfigurados lacrimejantes ousando

sexta-feira, 18 de abril de 2008

poemas dispersos

apesar do lodo da chuva oblíqua – do corpo toldado por ínfimas lágrimas vejo e vejo com tamanha clarividência que até as montanhas por de trás das nuvens me são entendíveis ao olhos tudo o resto é em vão não penso, porque pensar seria uma ilusão sem resposta não me movo porque escorregaria no lodo para sempre :apenas olho as setas de água , disparadas à terra sentindo com a mais íntima das percepções que tudo é assim está certo e é natural

terça-feira, 15 de abril de 2008

poemas dispersos

tem os olhos brancos e chama- se açores caminha depressa (sem ir a lado nenhum) de costas parece um tigre de cartão de frente é um tigre de cartão vive a cidade sem prender o olhar uma vez que seja as mãos são alvas como os olhos e seria um bom pastor ou poeta se pusesse tal hipótese conheci-o hoje e chamei-lhe açores

segunda-feira, 14 de abril de 2008

poemas dispersos

quando os anjos me visitam param os ventos e o tremor da água tudo fica perfeito e terno - até me abandonarem num humano cheiro fundido na terra asfixiado e cego como no real inferno de dante ¿para que me visitam então os anjos se é o abandono inevitável? mil vezes o permanente interior do fogo do que conhecendo o toque da rosa ter de a perder

domingo, 13 de abril de 2008

poemas dispersos

da minha cama pode ver-se tudo o que o céu tem e ainda as pessoas que ninguém sabe que existem a mim a cama ensinou-me tudo e é por isso que eu sei com toda a certeza que a estrela brilhante que ilumina a terra só existe para me saborear

sábado, 12 de abril de 2008

Comic Con



Os 4, do ido estúdio da Bica { Ricardo Venâncio, Ricardo Tércio, Nuno "Plati" Alves e João Lemos } vão estar na Artist's Alley da New York Comic Con deste ano { mesas F7 a F10 }. Com eles, estarão também Rui Lacas e Jorge Coelho, do nosso novo estúdio, bem como o realizador Paulo Prazeres, da Droid-I.D a documentar a experiência.

poemas dispersos

tenho nos ouvidos um piano e uns dedos que ouvem: uma partitura talvez pelo mistério da partitura ; «goldberg – variações» ou pelo mistério de ter um piano em mim só consigo acordar em paz se ressoarem em celebração as mãos e os tempos de glenn

sexta-feira, 11 de abril de 2008

poemas dispersos

antes de fechares a porta olha- -me com alguma ternura e diz. diz o que nunca me disseste. o que nunca foste capaz de dizer. diz. e depois vai tranca bem a porta e n~ ao voltes a pronunciar o nosso nome.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

poemas dispersos

sou uma chávena de chá mas sem o odor transparente e o calor reconfortante de uma tisana sou só um líquido espesso preso num recipiente redondo

quarta-feira, 9 de abril de 2008

poemas dispersos

comecei por ver a sombra de um gato depois vi o gato cinzento quase azul quando entrou pelo quarto da pensão não saltou, voou aterrando debaixo do grande candeeiro à entrada da sala não havia nada a dizer ficámos num aparente silêncio sem tirar os olhos um do outro ao fim de umas horas ele voou de volta fechando a janela atrás de si contudo a sua sombra manteve-se projectada no te cto durante toda a noite

terça-feira, 8 de abril de 2008

poemas dispersos

quando tivemos de anunciar a tua morte, fiama caiu um véu de sóis e pinceladas negras já não há barcos na tua praia devoraste-os nos versos se dissesse: algarve, ressuscitaria os teus fonemas? as tuas letras grandes sobre papel fino? acaso foste visitada por um arcanjo a nunciador da morte dos poemas?

segunda-feira, 7 de abril de 2008

poemas dispersos

há vasos de flores que se partem e partem-se sobre longas mesas voadoras – diluem-se – hoje chove e há orquídeas carnívoras na cama como se a cama fosse ainda o berço do bebé sem sono que fui. por dentro do corpo azulam-se todas as metáforas mas não sairá um vocábulo pela boca insistente que as flores têm entre nós e os peixes, o aquário.

Foi criada a Versão On-Line do Jornal «THEOSOPHIA»

THEOSOPHIA Grupo de Estudos Teosóficos «Antero de Quental»

domingo, 6 de abril de 2008

o caderno feliz #20

#20 cheguei à torre percorri com a ponta dos dedos os caracteres do mapa lá estavam o rio o portão vermelho o estreito carreiro de terra por onde devem ter passado os cavaleiros de um tempo sem data cheguei à torre e do cimo gritei o meu nome caderno feliz/

o caderno feliz #19

#19 ouve esfinge não há filosofia ou pensamento antigo ou moderno que possa decifrar o teu divino segredo nos teus olhos abrem-se duas portas por elas só os pássaros estão permitidos mas eu olho-te e sinto-te alma gémea nós dois gigantescos vocábulos provocando tempestades/

sexta-feira, 4 de abril de 2008

o caderno feliz #18

#18 era inevitável chegar à loucura nada na loucura me assusta a loucura é bela cega-nos e a cegueira leva-nos ao mar cheguei pois e sinto a paz a ascender como uma esplendorosa força terrestre amada e amante olá guardador de rebanhos/

quinta-feira, 3 de abril de 2008

o caderno feliz #17

#17 ainda trago os espinhos na palma dos pés no início parecia uma caminhada tão simples pura e transparente mesmo com muito esforço as agulhas não saem talvez estejam definitivamente cravadas não sinto dor não sinto os pés sofro só a memória do primeiro andamento/

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O MEDO É FOGO POSTO...

DIANA E PEDRO MÚSICAS & CANTOS
no MySpace

o caderno feliz #16

#16 subo o abismo sem cair o alento está a meu favor subir as paredes de um abismo é uma escalada como qualquer outra é o que todos dizem e é por isso que aproveito este vento com naturalidade pondo sem cuidados o pé na rocha seguinte honro o meu nome sísifo/

o caderno feliz #15

#15 acordei sobre um pano de pequenas pedras aquecidas pelo sol o corpo nu imóvel mesmo ao lado um ribeiro corria contra a corrente levantado poderia ter-me deixado refrescar pelas águas mas o conforto da dor jamais o permitiria/

segunda-feira, 31 de março de 2008

o caderno feliz #14

#14 a terra parece mármore será que ouço um mocho será que ouço a terra parece mar pressinto navios ancorados e gente a nadar apetece-me mudar de nome soltar as amarras e subir pelo céu num voo longo e vertical poderia jurar que é um mocho um mocho caçador anunciando a sua primazia sobre os outros predadores caminho suavemente sobre o mármore e inscrevo como numa lápide mortuária o meu epitáfio peregrinator/

quinta-feira, 27 de março de 2008

o caderno feliz #13

#13 há sol a praia passa perto de uma linha telefónica anseio três seixos com que farei um oráculo o cão dorme no piso de cima uma cão doce de coleira verde a esta hora já os meus olhos estão vazios e o caos toma conta dos actos assim deixo-me levar pela praia pela expectativa dos seixos/

o caderno feliz #12

# 12 há nuvens japonesas no céu paisagens celebrantes e árvores de flores brancas amendoeiras as cotovias cantam para e só para nosso deleite recortado no azul um cavalo e um cavaleiro/

terça-feira, 25 de março de 2008

o caderno feliz #11

#11 com estas palavras só peço chuva inundações gigantes ondas gigantes cabelos gigantes toda a terra me denuncia e os anjos olham-me sem ouvidos/

segunda-feira, 24 de março de 2008

o caderno feliz #10

#10 é ouro grande lápis esforçando-se por desenhar é todo ouro ouro sol branco papel lápis branco e mar vejo o meu nome numa parede e basta-me para atestar a minha existência sou a prata restante o restolho de um ourives por natureza cruel jamais serei moeda lua cheia só me é dado contemplar/

domingo, 23 de março de 2008

o caderno feliz #9

#9 – domingo de ressurreição hoje os meus dedos abriram-se em flores e sangue quente durante a noite as almas visitaram-me embalando-me na tranquilidade de um sonho transparente graciosa candeia de lua rasgando o coração por onde uma mão entrou carinhosamente amante/

sábado, 22 de março de 2008

Hi5

http://fredericogeorge.hi5.com

o caderno feliz #8

#8 – sábado de aleluia são os pés que paralisam os olhos que se fecham formam uma cruz repleta de semi-deuses a travar o caminho talvez a cruz seja ilusória a verdade é que é impossível dar um passo regressar ao presente não fugir o vento tornou-se violento e os anjos resguardaram-se dos homens terá sido esta a verdade dos profetas/

sexta-feira, 21 de março de 2008

quarta-feira, 19 de março de 2008

o caderno feliz #6

#6 caem-me os cabelos os pássaros gostam eu gosto só não consigo suportar estes óculos não é que não me sirvam mas pesam-me como se em mim tivesse entrado toda a tristeza do mundo ou eu próprio fosse toda a tristeza do mundo os pássaros bicam a minha cabeça cada vez mais despida e quando olho em frente só consigo fixar a devastação das árvores já morreram quase todas caçadas por uma qualquer mente adversa à serenidade cai-me a pele os pássaros gostam eu gosto só não consigo suportar estes óculos/

sábado, 8 de março de 2008

o caderno feliz #5

#5 as noites eram o meu espaço de felicidade mas há duas semanas que um intruso penetra nas minhas propriedades oníricas revolvendo os meus sonhos a maneira certeira e lúcida com que ele o faz leva-me a crer que seja um menino morto por nunca ter adormecido a tempo de o ver ele escapa-se e sabe o que faz percebo que só quer apoderar-se dos meus sonhos tem com certeza tudo planeado e por qualquer razão desconhecida escolheu-me a mim como vítima e que posso eu fazer se é um anjo caído/

o caderno feliz #4

#4 há dias em que acontecem inexplicáveis surpresas como ontem ao principio da noite homens puseram enxofre a queimar nestes casos os gatos fogem abençoando o espaço com gritos interiores é que um gato reconhece sempre uma invocação do diabo e talvez nem se trate de uma fuga mas de uma retirada como um soldado que se atrasa no xadrez da guerra preparando-se para um combate mais feroz/

SOS Voz Amiga

Texto escrito por solicitação do SOS Voz Amiga a palavra certa frederico mira george para o fernando eis dois homens na noite da rádio um de palavras serenas suicidas e certas algures na cidade outro de palavras sedutoras curtas e certas o homem do outro lado do estúdio está confiante irredutível o homem na telefonia-sem-fios está lúcido mas com medo há quantos anos a sua vida é feita de ler vozes trinta talvez sabe que o outro homem não brinca vai matar-se e quer fazer o espectáculo da sua morte quer fazer da sua morte ao menos um minuto de glória para o homem da rádio basta-lhe um tom uma ténue vibração de voz para saber o passo seguinte é nisso que confia a determinação do homem ao telefone é verdadeira e quase impossível de vencer na régie chamam a polícia quinze minutos é o que precisam o homem da telefonia tem de ter a palavra certa para o manter no ar o homem para lá do estúdio eis um duelo de dois grandes guerreiros no xadrez da amada rádio dos sons e silêncios deles depende a morte de um ou a frustração culpada do outro não pode haver erros de parte a parte para o homem suicida nada o pode seduzir para o homem ao microfone cada palavra tem de seduzir quem os escuta no éter nem se apercebe quão gigantes estes homens são a polícia leva mais tempo que o previsto o suor cai sobre o rosto de ambos os guerreiros as palavras de passe continuam são elas que dão acesso ao nível superior do xadrez estão os dois prestes a rebentar as palavras tornam-se finais os silêncios aumentam a estação da rádio está feita uma esquadra de polícia o homem da rádio diz a primeira palavra errada o gigante do outro lado assusta-se mas não foge a polícia encontra o local perto dali afinal o éter era mais pequeno do que se imaginava talvez seja por pouco e foi pelo microfone ouvimos agora o repórter que descreve um quarto entrincheirado e preparado para a explosão de pontas de gás o telefone cai o repórter silencia-se no estúdio o homem da telefonia deita-se no chão exausto uma ideia atormenta-o não lhe sai da ideia a traição que talvez tenha feito ao homem do telefone a sedução da sua voz cativou o suicida puxou-o para a amada rádio terá isso sido legítimo terá ele salvo este homem da morte ou tê-lo-á condenado à vida eterna/

PAX


Pintura de Tânia Calinas
Acrílico sobre platex

terça-feira, 4 de março de 2008

o caderno feliz #3

#3 não chove apesar de estar um céu negro e ameaçador tenho o meu chapéu desde os dezassete anos está coçado e velho mas encaixa na minha cabeça como uma luva perfeita serviria numa mão perfeita as manhãs assim são horrivelmente roxas e demoradas desejava poder conversar conversar muito com um humano ou um animal que me acariciasse não sei se saia se ponha o meu chapéu a ausência de chuva ameaça-me talvez não talvez o que me ameace seja a presença do céu carregado sabendo que não vai chover nem trovejar são manhãs sem ninguém manhãs de frio estando calor apenas encontro conforto num casaco que encontrei na rua e que transmite ao meu corpo uma satisfação quase pura plural e afinada um pretexto para ter algo em que pensar penso pouco e quando penso é nestas coisas no chapéu no casaco na chuva retardada para um verão que há-de vir e se sente pelas costas como se de alguém se tratasse com uma pistola em punho pretextos por todos os lados para matar as horas anseio a chegada a uma outra terra a um outro lago anseio ver com outros sentidos este lado tão curto da vida/

domingo, 2 de março de 2008

o caderno feliz #2

#2 acordei e senti-me uma raiz de mandrágora com um foco de luz azul-gelado a observar-me virei a cabeça assustado em pânico e reparei na presença serena de malone está a morrer de samuel beckett em cima da mesa de cabeceira isso acalmou-me a luz fundiu-se no escuro da madrugada e o meu corpo abandonou a textura humana da mandrágora foi quando começaram os gritos miados da gata do primeiro andar num cio atrasado já não estava só do pânico total passei à tranquilidade do dia quase a despontar então senti uma humilde vontade de estar grato a tudo especialmente à gata do primeiro andar apesar de ver tudo a branco-e-negro consegui pôr mirra e funcho no turíbulo em oferenda ao dia que estava a nascer deitei-me de novo e adormeci numa paz de bach todo eu era uma dormência feliz/

o caderno feliz #1

#1 gosto de táxis como um anjo das suas asas gosto de ir e olhar para a frente e para trás e para os lados gosto da total irresponsabilidade de me deixar conduzir pelas ruas ao volante de um homem que não conheço num barco ainda mais desconhecido costumo pousar o chapéu sobre os joelhos o guarda-chuva no chão sim porque eu ando sempre de guarda-chuva às vezes suo e é aí que medito na alma na metafísica na pobre filosofia dos homens é aí que tenho pena de todas as almas e de todos os metafísicos e de todos os pobres filósofos é aí que imagino que há sol e flores e peixes em lagos algures na casa de alguém e provavelmente no mar sim é nos táxis que desobedeço a deus e me sinto numa missa de incontáveis hóstias de todas as cores/

sábado, 23 de fevereiro de 2008

do fim para o princípio - SILÊNCIÁRIO

Aqui fica a introdução ao livro «SILÊNCIÁRIO» cujos poemas têm vindo a ser publicados neste blog nos últimos meses: AS PALAVRAS DA MEDITAÇÃO talvez sejam só letras/palavras. espaços entrelaçados. visões rápidas. espasmos. acelerações cardíacas. talvez isso seja tudo. tudo é muito mas ainda não é o todo. talvez não seja bem isto o que se pode dizer destas frases que vão encontrar a seguir a esta página, todas elas escritas minutos antes de uma sessão de zazen. antes de meditar somos cruzados por pensamentos – questões? – que nos colocam perante o paradoxo da nossa mente. já em meditação, esses pensamentos, ou questões, diluem-se num espaço indisível, inefável: a poesia. aí não há pensamento, nem visão, nem eu, nem tu, nem estar sentado ou em pé. aí não há o espaço, o corpo o odor. ao mesmo tempo tudo está presente: o pensamento, a visão, o eu, o tu, o sentado, o em pé, o espaço, o tempo. estão presentes mas não estão lá. tudo é paradoxal na meditação. consciente só a respiração. o acto primeiro. a orla da iluminação. mas ainda não estamos no todo. só na parte que nos poderá conduzir ao todo. zazen quer dizer meditação sentada. estar sentado é uma acção poderosa. tão poderosa como é poderoso olhar o sol quando nasce ou se põe ou observar a lua plena de um solstício. nestas palavras que habitei é possível que se consiga encontrar um fio condutor. o entrelaço de todas as agitações da mente. de todas as pausas. de todas as consequências e inconsequências. há um muro entre elas e eu como ser. a meditação reduz, ou eleva, esse muro ao estado da mais profunda transparência. em cada sessão é-nos dada a possibilidade de «ver» para o outro lado da parede que habitamos. enfim a morte. lisboa, 23 de fevereiro de 2008 de uma era comum

A EXPRESSÃO de BUDA


Para o Pedro, mano do João. Que juntos caminhem felizes pela vida

Perguntas e Respostas Encontradas

Mais uma vez o brilho que vem do AR LÍQUIDO 3 O que é a morte? É uma chave para 83 fechaduras.

A EXPRESSÃO de BUDA

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

sábado, 12 de janeiro de 2008

o sonho

Luiz Pacheco, ainda (sempre)

João Pedro George lamenta morte do escritor Luiz Pacheco A morte do escritor e crítico literário Luiz Pacheco constitui «uma perda irrecuperável», disse hoje à agência Lusa o professor universitário João Pedro George, que considerou o escritor um «tipo humano singular e irrepetível». Em declarações à agência Lusa, João Pedro George - que está a fazer a tese de doutoramento sobre a biografia do escritor e crítico literário - disse lamentar «imenso» a morte de Luiz Pacheco, que considerava um «amigo pessoal», um «tipo humano singular e irrepetível» e não «um exemplar em série como acontece normalmente». Luiz Pacheco, que chegou a ser conhecido como «um escritor maldito», fez da crítica a maneira de estar na literatura e da literatura o estar, referiu. «Sinto a morte de Luiz Pacheco de uma forma muito profunda, já que o considerava um amigo pessoal e é quase como se o conhecesse intimamente», acrescentou João Pedro George. A nível literário, João Pedro George considerou que com o desaparecimento de Luiz Pacheco «se perde um escritor como não voltará a existir outro». Sublinhou ainda que o projecto literário de Luiz Pacheco foi «indissociável» da sua vida, razão por que é difícil perceber um sem que se entenda a outra. «Era uma personalidade que poderíamos considerar excêntrica, que sempre que abria a boca nunca se sabia o que ia dizer, mas era um ser humano único», frisou. João Pedro George acrescentou que há «vários anos» que estuda a vida e obra de Luiz Pacheco, pelo que a vida do escritor tem «estado quase diariamente presente» na sua vida nos últimos anos. «O crocodilo que voa» é o título do livro de João Pedro George, que sairá ainda este mês pela Tinta da China e que reúne as últimas entrevistas dadas por Luiz Pacheco. Luiz Pacheco nasceu em Lisboa a 07 de Maio de 1925 e morreu sábado no Hospital do Montijo. Frequentou o curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, em 1945 começou a publicar textos em vários jornais e revistas e em 1950 fundou a editora Contraponto, que publicou pela primeira vez Mário Cesariny e António Maria Lisboa. Raul Leal, Natália Correia e Vergílio Ferreira foram outros dos escritores publicados pela Contraponto. «Textos de Guerrilha», «Textos do Barro», «O Teodolito», «A comunidade» e «O libertino passeia por Braga a idólatra o seu esplendor» são algumas das obras de Luiz Pacheco. Diário Digital / Lusa 06-01-2008 12:50:00

manhã inteira # 44

ao sentar-se uma palavra chinesa –

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Caetano Veloso

Eu Sei Que Vou Te Amar Caetano Veloso Composição: Vinícius de Morais/Tom Jobim Eu sei que vou te amar Por toda a minha vida Eu vou te amar A cada despedida Eu vou te amar Desesperadamente Eu sei que vou te amar.. E cada verso meu será Prá te dizer Que eu sei que vou te amar Por toda a minha vida... Eu sei que vou chorar A cada ausência tua eu vou chorar Mas cada volta tua há de apagar O que essa tua ausência me causou... Eu sei que vou sofrer A eterna desventura de viver À espera de viver ao lado teu Por toda a minha vida... Eu sei que vou te amar Por toda a minha vida Eu vou te amar A cada despedida Eu vou te amar Desesperadamente Eu sei que vou te amar... E cada verso meu será Prá te dizer Que eu sei que vou te amar Por toda a minha vida... Eu sei que vou chorar A cada ausência tua eu vou chorar Mas cada volta tua há de apagar O que essa tua ausência me causou... Eu sei que vou sofrer A eterna desventura de viver À espera de viver ao lado teu Por toda a minha vida...

ALICE



GEIRINHAS

manhã inteira # 39

para Luiz Pacheco era uma romã de rosas e de fumo –

domingo, 6 de janeiro de 2008

manhã inteira # 37

cerro os dedos. com os olhos. sigo um fio-de-prumo –

MESTRE Luiz Pacheco

Morreu esta madrugada o MESTRE Luiz Pacheco. Passou a vida na Miséria, e até na prisão, em consequência da sua radicalidade e luta pela literatura livre. Morreu na Miséria apesar de um texto seu, «COMUNIDADE», valer 800 euros nos alfarrabistas. Depois da morte de Cesariny, ficamos reduzidos a dois grandes Mestres irrepetíveis: Herberto Helder, poeta, Vitor Silva Tavares, editor. Quando o Tempo os levar podemos fechar a porta da literatura portuguesa. E ainda bem, porque não os merecemos. Sendo portugueses só a morte os pode honrar. De esmolas viveram e vivem. Na morte, ao menos, não terão de pedir dinheiro.