quinta-feira, 7 de abril de 2011

Satã - Poemas Portugueses - Texto final


30.

7 de Abril – Satã – Poemas Portugueses - Fim

Afrontando de soslaio o corpulento envelope com os Poemas Portugueses, Satã, verificou que na realidade não tinha um nome. Ele era SATÃ, não se chamava Satã, como um PRÍNCIPE não se chama Príncipe... nem sempre
... tinha sido assim. Num análogo tempo, num local deleitoso e com o odor de ser deleitável, Alguém numa cerimónia breve, tinha-o baptizado.... ¿mas que memória pode ter um anjo do seu baptismo? Satã tinha redigido e anunciado o intacto Evangelho. Findado o ofício, e só por falta de lembrança, o Seu nome não poderia ser pronunciado.
®

Satã




29.

Antes de ler os poemas que tinha assinalado,
Satã inaugurou os olhos para Livro-a-Livro
percorrer o quadriculado de notas.
¿«Seriam poemas que se entendessem»?
Aquietou-se, pois algures neste uni-verso
o Príncipe-Caído tinha redigido um Evangelho.
®

terça-feira, 5 de abril de 2011

Satã















28.

Suponho que foi por ter passado excessivos
anos a obrigar o desenho em mim, que sequei
a força do coração e a nitidez da mente.
Desenhei sempre com o ânimo de quem está para falecer
e quem risca pensando, consome-se numa vida
imutável com as mãos-mortas. É por isso que só escrevo
quando morro e tão liberto morro para escrever.
®

segunda-feira, 4 de abril de 2011

satã


27.

¿Que anseios terão por realizar
os Santos e os Homens de riqueza flamante
? ¿Esculpir bustos de árvores ou
cristalizar ondas marinhas? ¿Experimentar o
sabor da poeira estelar? ¿Escrever romances?
(... novelas de amor perpétuo a jactos cor-de-ruborizo J)
¿Ou para um Santo nada há já para apetecer?
Só se... Talvez... voltar atrás e escolher dormir...

domingo, 3 de abril de 2011

Satã




26.

Há quem goste delas. Há quem nem no
derradeiro aspiro renuncie à expectativa
de que algo parecido exista no outro mundo.
Ao contrário, há quem, como eu, chegado
o silêncio hórrido das alvas de Domingo,
se sinta castigado por todas as pragas da alma
e em pavor corra despido de haveres
rumo às arcas-de-Noé da nossa modernidade
: as escuras, porém coloridas, igrejas de bairro.
®

Satã


Manuscrito de Teixeira de Pascoaes

25.

Os meus versos não são versos.
São as folhas-de-rosto de tudo o que os
meus sentidos comunicam e eu
não sei dizer. Se os meus versos fossem o
verso, e estivesse à ré daquilo que redijo,
seria porque tinha dado um passo em fronte
e tudo o que sei alcançara o fim da leitura.
®

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Satã


24.

Se S. João está certo –
¿e porque não havia de estar?
... foi amante do Nazareno
, testemunha do Santo-Corpo...
 –, o Apocalipse que nos anuncia,
não despacha para um destino adiado o
efectivo fim-das-contas: invasão da Terra
por esqueletos excitados em dia de juízo-final
ou o rasgar do último selo de compromisso com o divino.
Saí do metropolitano na estação de São Sebastião,
ocorreu-me as setas que lhe trespassam o torso.
Ouvi com os olhos da evidência,
a última trombeta desta era.
®