sexta-feira, 11 de março de 2011

Satã

5.

Mal abri os olhos... esta manhã... vi-o. Sentado, aos pés da cama,:
Corto Maltese o espectro.
Como ainda não tinha posto os óculos e
a luz era fraca, apenas consegui, encorajando os sentidos,
experimentar ao longe, o calor vermelho
...e laranja da brasa do cigarro dele. Poucas coisas há no mundo (
não este mundo, mas o maior dos mundos, esse a que sempre me refiro quando digo: mundo)–, que aqueçam mais o ânimo de alguém exausto do que a fornalha dos cigarros de Corto.

com a luz da manhã a ferir as cortinas
e com os óculos aprestados, encarei-o.
Olhou-me, num espasmo cerúleo e muito terno. Falámos.
Coisas próprias de marinheiros, dervixes, caminheiros-na-neve.
Mas eu sabia, mesmo antes do começo, que aquele ensejo,
um dia que acontecesse, seria breve, instantâneo, de cruel
na despedida.  Deixei-o ver-me. Só isso...