sexta-feira, 3 de outubro de 2008

poemas dispersos

onde nasce a tua fonte? Cava Cava Cava um lençol de água e sobre a tua capa desliza e passa o caracol sentado que te esmaga Vê depois os rios (que também são belos) E as flores (que não são menos) imagina pastores cheios de flautas Cava Cava Cava e sobre a Terra serás asa

1 comentário:

Hugo Calhim Cristovão disse...

Havia terra neles, e
cavavam.

Cavavam e cavavam, assim passava
o seu dia, a sua noite. E não louvavam a Deus,
que, segundo ouviam, queria tudo isto,
que, segundo ouviam, sabia tudo isto.

Cavavam e não ouviam mais nada;
não se tornavam sábios, não inventavam nenhuma canção,
não imaginavam qualquer espécie de linguagem.
Cavavam.

Veio um silêncio, veio também uma tempestade,
vieram os mares todos.
Eu cavo, tu cavas, e o verme cava também,
e aquilo que ali canta diz: eles cavam.

Oh um, oh nenhum, oh ninguém, oh tu:
para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Oh tu cavas e eu cavo, cavo-me para chegar a ti,
e no dedo acorda-nos o anel.

Paul Celan