domingo, 13 de Setembro de 2009

11 de Setembro, Choremos, Choremos, Choremos

quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Contos.20

Finalmente
sócrates
deitou-se na Terra
Platão deitou-se com ele e
ouviu
num silêncio amante
o Testamento do Mestre:
«Um dia virão a mim
todos os corvos da terra»

Pama Inácio, Felizmente há L.U.A.R.


Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca

José Afonso

OBRIGADO CAMARADA!
FELIZMENTE HÁ L.U.A.R.

segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Contos.19

Longe de olhares profanos
juntam-se os lobos
que esperam
o brilho das lanternas
A última árvore do claustro
será o sinal
o Vento a testemunha
Volte ao Fogo o que é do Fogo

quinta-feira, 9 de Julho de 2009

Contos.18

Para Luíza

Ele tem sonhado com a Senhora-do-Lago
Ele acorda com ela
Ele imagina-lhe os olhos
Ele pega-lhe nas mãos
Ele sabe
que é a única estrela que lhe trará vida
Quando Ela lhe fala
soam mantras num esperanto ainda
não inventado Mas ele lê-a
e conhece-lhe os movimentos

Como todas as feiticeiras Ela
mergulha no espelho da floresta
As árvores dizem-lhe tudo
a Ele resta-lhe o Lago

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Contos.17

Nuvens nos olhos, semeador
Caiu chuva sobre o teu caderno
Acordes baixos
no coração
fechado numa harpa
Nivelado no céu
, do meio-dia à meia-noite,
acácias confrontam-se
Sol e Lua numa sombra

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

lâmpada de aladino



alexandra correia - design (correia.alexandra@gmail.com)

segunda-feira, 8 de Junho de 2009

A Gaivota

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Contos.16

pela sua palavra
, seu riso – preso
no verde tão claro do poço
Em voz baixa
avançou mais um pouco
Tão longo e estreito nado
Respirou e teve tempo:
«Amo o teu a-
braço»

quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Vozes na Luta - G.A.C.

quinta-feira, 21 de Maio de 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA



Se há memória do cinema em Portugal a ele o devemos.
Morreu hoje o amador de cinema João Bénard da Costa

domingo, 17 de Maio de 2009

Contos.15

mal consegue vestir o pijama
– Já não sofre por isso Em
tempos pediu aos seus amantes
que o amassem… «está uma noite gelada»
Um maio-inverno e ele mel
Em jovem
, dizem,
escreveu poemas e banhou-se em
águas quentes de perfume Já
não sofre Tem vinte e cinco anos
e um único e secreto desejo
: «esta noite, vestir, sozinho, o meu pijama lavado»

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Contos.14

Para L.

Platão rasgou o envelope e leu entre aspas
: «Do perfeito coração
os teus dedos diriam:
“voz grave, inquieta, Amo-
rosa”
Dos teus dedos o Coração pararia
e… em mim
, de pedra,
tudo se talharia: Poemas-Cantaria! –
Meu piano
,minha pele que se desprendia»

sábado, 25 de Abril de 2009

porque ainda vale a pena


Obrigada OTELO!


Poema de Dordio Guimarães para Otelo

segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Contos.13

13.
ele soube – o seu sangue soube
quando a sentiu O sangue voltou
a correr
, os olhos voltaram a brilhar
mesmo de noite
, passaram-lhe as dores do abandono
Ele soube
e
deu-lhe – um dia – pela – primeira
vez a mão
tremendo por fora Voltara a
sentir a compulsão de beijar
, beber chá, ouvir incenso,
morrer para todas as outras coisas
Agora, só, relembra
os sor
risos
, as lágrimas, e, apesar de uma distância
que lhe parece intransponível
, platão voltou a adormecer

domingo, 5 de Abril de 2009

Contos.12

No cimo do moinho – lá
onde reina a roda e a mó
, passeavam patos E ele
, assustado, curvou-se perante eles
numa vénia trémula Os patos
suspenderam a respiração e
ignorando a vénia atacaram-no
sem um grito Conseguiu fugir, sim,
conseguiu Correu pelo campo em volta
tentou esconder-se escondeu-se
finalmente repousou
Após alguns momentos de paz lembrou-se
, lembrou-se:
no moinho, lá junto à roda e à mó
, à guarda dos patos,
tinham ficado os óculos
Os seus únicos óculos

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

Contos.11

Pela primeira vez em muitos dias
, platão levantou-se com alguma energia
e com a respiração normalizada
No entanto, o peso que sentia sobre si
não
diminuira
Andou apesar de sentir frio
, um frio que já vinha de trás
e que o sol não dissolvia
Andou
ainda
envolto na angústia
Parou, por fim, quando já sem sangue
se viu obrigado a sentar-se à beira de um pinheiro

domingo, 22 de Março de 2009

Contos.10

Enquanto os espíritos o ouviam
, sócrates desenhava um redondo-redondo-redondo
círculo
,a vermelho
na parede Platão era a sua mão
e o giz
:mel e raiz
enquanto as palavras o contradiziam Os
espíritos ouviam-ouviam-ouviam
Sócrates morreu pouco depois
deitado num chão baixo
Sobre o corpo, platão tomou o seu rosto
e alto
, recto
deu-lhe a mão num imenso-imenso-imenso
desgosto

sexta-feira, 20 de Março de 2009

Contos.9

E o tempo sempre a passar sempre a horas-sestas
, os carros
, as bandeiras –
os cravos
, as cidreiras
tudo olhando o homem estacado na cadeira
, ele já é a própria madeira
.
ao longe (vê-se pela janela) correm gatos
e fardas e crânios decorados
O homem chora e chora sentado
No céu formam-se letras,
uma a uma contam-se celestes canetas

quinta-feira, 12 de Março de 2009

Train.02 - Cacém

Train.01 - Amadora

terça-feira, 3 de Março de 2009

«Uma Poeira Azul Espalha-se»




Com este livro de Frederico Mira George com um desenho de João Lemos, «Uma Poeira Azul Espalha-se», nasce uma nova chancela editorial. A chancela «Fora de Mercado - Editores» publicará exclusivamente poemas para que circulem gratuitamente de mão em mão.

Impressos em papel de jornal, com formato de bolso, cada exemplar deve ser lido e passado a outro. Não estarão em livrarias, em supermercados... nada. Podem encontrá-los em cafés, teatros, no bolso de um amigo... enfim, em todo o lado menos nos habituais templos do mercado livreiro.

domingo, 22 de Fevereiro de 2009

Mestre Lagoa Henriques, Choremos, Choremos Choremos



Passou ao Oriente Eterno o grande poeta do desenho que foi Mestre Lagoa Henriques.
Que a sua memória e permanente inspiração nos anime neste momento de despedida.

Choremos, Choremos, Choremos!
Mas esperamos!

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

Contos.8

... tinha-se deixado aninhar entre os cobertores
chegou mesmo
a sonhar – adormeceu portanto –
quando acordou tinha os lábios húmidos
e gretados Uma das pálpebras
mexia-se nervosamente Nem uma lágrima
Levantou-se e caminhou contra
o vento
Devagar conquistou o espaço à
sua frente
era livre de se afundar naquela tempestade
Foi aí que teve a visão
: num ponto do horizonte, um cavalo
parado olhava-o com ternura

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Contos.7

numa cadeira de baloiço
sentia nas mãos o cheiro da despedida e
forças malignas, sangrentas
, a flutuarem-lhe no cérebro
Quase já sem vista
pousou nos joelhos os pesados
volumes árabes à procura de encanto: «mil
e uma
noites» percorrendo-lhe a face quente
Um dia tinha sido dom quixote
mas agora
, sem espada – perdida num último esforço –,
procurava em xerazade uma explicação para
os dias de febre Mil e 1
histórias que o salvassem
Reclinado para trás ousou pedir socorro
Caído
estava oficialmente vivo e soterrado

domingo, 25 de Janeiro de 2009

Contos.6

tinham-se sentado numa laje
de pedra
viram
num céu escuro
as cores de um efémero arco e
receberam chuva nos cabelos
e beijaram-se e
pelo chão talvez tivessem caído
lágrimas De
seguida a escada íngreme
da despedida
Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca
a orquídea azul daquele dia
Todas as tardes olha o céu quando está escuro
Pelo chão lágrimas abraçam-se

Contos.6

tinham-se sentado numa laje
de pedra
viram
num céu escuro
as cores de um efémero arco e
receberam chuva nos cabelos
e beijaram-se e
pelo chão talvez tivessem caído
lágrimas De
seguida a escada íngreme
da despedida
Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca
a orquídea azul daquele dia
Todas as tardes olha o céu quando está escuro
Pelo chão lágrimas abraçam-se

sábado, 17 de Janeiro de 2009

fora-de-mercado - editores

morta que está a poesia vive e ressoa como acto e facto de resistência o poema Em cada caractere fluem antiquíssimos toques de sino vindos das torres mais altas lugares aonde só as aves nidificam e tudo vêem como um olho gigante no centro de um triângulo de ouro Cada face do triângulo é uma afiada lâmina de combate se o olho tudo vê cada ângulo cada vértice corta-nos as horas em finas passagens de medo e sobressalto Aí onde ninguém chega nem mesmo aqueles que sendo humanos voam esconde-se o poema e do poema nascem as águias reais que só alguns vencedores podem ver Nas noites fundas o poema ressurge como um relâmpago seco sem som mas com uma intensa e profícua vibração de odores sabores olhares tactos e paladares Dá-se então o encontro inefável com tudo o que está para além da vida dos vivos e da morte dos mortos Em cada caractere o sol brilha no seu meridiano somos então meninos doces envoltos numa tristeza que só a infância conhece Imaginam-se histórias contos romances encantados reais e proféticos O poema torna-se um sangue escuro junto à terra perto do mar sob o céu ao levar do vento De todos os ventos Uma rosa crucificada Sim o poema é o acto e facto de ainda se poder ser resistente e vitorioso Vêm-me agora à memória humanos de amor que em cadeia nos ligam a um infindável caminho in-verso hélder fiama cesariny caeiro de outras eras viegas só no seu único nome mário camões perdido num oceano alheio num poema atlântico e salomão o velho e cansado elefante que um dia um rei português decidiu oferecer a outro rei de um país frio caminhando em passos curtos de amarradas patas por correntes De outros cantos mário dionísio eduarda em antes que a noite venha álvaro lapa de pinturas escritas post-mortem carlos de oliveira sophia al berto variações de antónio Lá nas torres sineiras as águias nidificam os poemas que hão-de entregar quando o dia nascer Godard de vivre sa vie visconti de uma morte de cal em veneza Antes da palavra final estaremos vivos Caídos por terra sim mas vivos resistindo e vencendo Todos nós que viemos de longe Que vamos para longe aí onde nos vamos encontrar.

segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Palavras, Sinais, Gestos e Toques


Desenho de João Lemos (link à direita)

Há quem se reconheça por palavras, sinais, gestos e toques.

Contos.5

longe longe longe
muito longe
: o frio – platão de sobre
tudo
trancado à cama dormiu
longa longa longa
mente
Platão dormiu e a meio do sonho mais duro
uma gaivota do tejo
, aproximada aos vidros da janela,
batia com o bico nos vidros
enquanto uivava – frio frio frio
platão não acordava
e ainda assim a gaivota uivava
Só de noite –
mal despertou –
platão reparou que na transparência
da janela um fio de sangue secara
A gaivota?
Sócrates?

domingo, 4 de Janeiro de 2009

Contos.4

dançaram
leves e de olhos postos
em pequenos objectos do palácio
Foram subindo escadas
numa conversa secreta e
de vez
em
quando
dando as mão sustendo a vontade
de dançar mais alto:
lá, no tecto esculpido, onde espíritos
dormem Sim
, naquele palácio são os espíritos que
guiam Espíritos com vozes claríssimas
E
, no centro da dança,
na sala do toucador real
lá estava Ela a Rainha enlouquecida
de que ninguém cuidou Foi
quando pararam de dançar
, se juntaram de ombro a ombro
e a felicidade daquele momento
ficou guardada no relicário dourado
onde já ninguém
entra

quarta-feira, 24 de Dezembro de 2008

Contos.3

24 de Dezembro de 2008

ainda lhe suavam
as mãos de subir ofegante a escada do prédio
quando descobriu que um grande gato amarelo
tinha, sorrateiro, entrado pela porta a cozinha
Travou-se ali,
então,
uma longa conversa entre
platão e o gato Platão
, assustado, pedia ao animal
que abandonasse a casa
o animal pedia a platão estadia
Levaram uns quinze minutos nisto
até que pelo cansaço o gato desistiu
e saiu
, agora rapidamente,
pela frincha aberta por onde tinha entrado
Á tarde
platão tentou dormir
mas aqueles felinos olhos cinzentos assombravam-lhe
as horas de descanso – afinal podia ter ficado
com ele, ao menos esta noite
Voltou à porta
podia ser que sócrates ainda por lá estivesse
mas não, nem um rasto nas escadas traseiras
Voltado à cama
platão sentiu um frio de remorso
Acendeu a luz da mesa-de-cabeceira
e pôs-se a escrever
contando o encontro que tinha desprezado
Finalmente um ser tinha vindo ao seu encontro
e ele por impulso recusou-o
Porquê?
Porquê
Desenhou um gato no caderno
e pôs-lhe cores e patas grandes
Desolado
, numa última linha,
escreveu:
«hoje, nesta minha casa encontrei-me com sócrates
com medo afugentei-o Nada a fazer»

terça-feira, 23 de Dezembro de 2008

Centro Mário Dionísio - Ano Novo Vida Nova



A Associação Casa da Achada – Centro Mário Dionísio oferece às crianças da zona em que está sediada – e a todas as outras que queiram aparecer – papéis e lápis, no dia 31 de Dezembro às 16h, para pensarem a cores no Ano Novo Vida Nova durante a tarde do último dia do ano.

A sessão, que terá lugar na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, actualmente em obras, na Rua da Achada 11B, em Lisboa, será orientada por Regina Guimarães, escritora, cineasta e uma das sócias fundadoras da Associação. Os desenhos ficarão expostos no local durante a tarde do 1º dia do ano, das 16h às 19h.

O Centro Mário Dionísio encontra-se ainda em fase de instalação mas entendeu que era possível fazer esta iniciativa sem esperar pela sua abertura regular ao público, em dois dias mais livres do que outros.

Valerá a pena recordar o valor que Mário Dionísio – escritor, pintor, crítico de arte, professor e pedagogo – atribuía às actividades artísticas na educação – de pequenos e grandes. A propósito de uma grande exposição de arte infantil «Lisboa vista pelas suas crianças», realizada há 60 anos – tempos sombrios – afirmou:

A necessidade da prática da arte como elemento fundamental da educação mostra-se aqui com uma evidência irrecusável. (…) Esta bela exposição (…) marca, creio eu, ou poderia marcar, uma data importante na história do nosso conhecimento do homem e da arte, o que quer sempre dizer: rumos de verdadeira educação, de libertação, de felicidade.

domingo, 21 de Dezembro de 2008

Contos.2

Platão deitava-se
Insone
Olhos postos no tecto
pelo corpo só os indispensáveis movimentos À
sua direita uma telefonia
e cigarros acumulados num mínimo cinzeiro
Platão ficava noites seguidas assim:
a ouvir, concentrado, os ruídos da rua
: homens do lixo
: cães ladrando ao longe
: um ou outro gato rosnando em briga
Por vezes
, uma vizinha gritava com o marido
Não
Para platão as noites nunca eram iguais
simplesmente nunca tinha sido ensinado a adormecer
No telheiro da janela
quando uma família de pombos
despertava, platão sabia
que chegara o momento de se erguer
apanhado na emboscada de um sol que nasce
de uma lua que se deixa apagar
Já levantado seguia para mais um dia
Dias de coração demasiado lento
preso à vontade de à noite voltar
e
insone
se deitar

sábado, 20 de Dezembro de 2008

Contos.1

quando metia a chave à porta
e recebia no rosto a
chuva
da escuridão de um vento de espaço vazio
Platão sentia uma tontura
vinda dos pés até lhe tomar a cabeça
(assim como na guerra o inimigo toma em prisão
o amigo desconhecido)
Com medo
Sem coragem
platão avançava Primeiro
com o pé esquerdo, depois,
arrastando a perna
, o direito, fazendo bater
os
calcanhares Ficava em esquadro já dentro do apartamento
Fechada a porta demorava-se
uns
segundos no escuro Afinal era a magia
possível para os seus dias
Então acendia a vela
, via iluminar-se o corredor
e voltava a si – só –
e com cuidado pendurava o sobretudo
num cabide idoso junto a um relógio de pêndulo

O Livro dos Peixes



frederico.'., dez.2008
(águarela e tinta-da-china sobre papel)

quinta-feira, 18 de Dezembro de 2008

margarida guia na internet

segunda-feira, 15 de Dezembro de 2008

1908 - 2008

terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

poemas dispersos

presta atenção aos teus passos
sente como as mãos te podem salvar
olha uma última vez o sol no seu meridiano
escolhe uma planta que te acompanhe
Escreve
, Escreve muito
– Escreve tanto
...........quanto
................puderes
e depois dorme um silêncio profundo
acolhedor e maternal
sentindo a terra a percorrer-te a pele
quando acordares verás a lua a ocidente
crescente e alva Abraça-a
se o fizeres repararás como ela é pequena
e carente: um corpo inanimado reflectindo a luz
Uma Vez Mais Presta Atenção Aos Teus Passos
observa como há tanto tempo caminhas em círculo
dá agora um passo ao lado na tua marcha
saído do redondo caminhar Abre a porta
para outro teu encantar
Nada há a perder Nada para encontrar
só Luz e
, talvez, por sorte, por desígnio
um pássaro para te guiar

sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

poemas dispersos

uma súbita face
Branca
no reflexo de um espelho oval
– eis a minha aparência
depois
da invocação Proibida –
: a Boca distorcida – Saliva escura
: Olhos semi-
........-abertos
, Mãos crispadas: um punhal!
Com um único sopro cerrei
três velas negras
. já na Treva profunda recitei:
«venite»
«lux»
«venite»
«lux»
«venite»
«lux»
e a Noite morreu em lua nova

quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

poemas dispersos

27 de novembro de 2008

doce, Sentado
sobre A pedra
da cor dos goivos
e dos colares de cleópatra, Romeu
ouviu o Tiro As pernas
tremeram
como ossos desprendendo-
-se da carne
Sem chegar a sentir dor ou ferida
aberta. asfixiado. caiu
Romeu
no trono

quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

poemas dispersos

primeiro o sol depois
devagar
as flores – as aves – o canto
sobre a mesa a caneta imóvel
o papel sem curvas nem marcas
? o sol
sim
a percorrer-me os olhos e a cegá-los
: ver como um cego
: ouvir como um cego
: tocar como um cego
sobre a mesa a caneta imóvel e
uma romã aberta
uma seiva púrpura – o sol?
sim! que fazia reflectir os frutos
juntos na forma de coração
único de uma romã
ao fim de um tempo um fio-de-dor
percorreu-me os cabelos
, a testa, os polegares –
aqui estou vivo-inerte a percorrer campos
numa estreita ala de convento

terça-feira, 18 de Novembro de 2008

luz!
que desejamos para ti
Irmão?
luz!

sob a grandiosa estrela d’alva
cem anos fizeram o caminho
… quantos pedreiros no centro da rosa?
cruzes iluminadas
brancos lenços sobre as pernas
e na garganta um sinal de ordem
luz!
é o que desejamos para ti
Irmão
mas tantas vezes a treva se entrepõe
. névoa que invade o ar que atravessa o templo
no nevoeiro,
de que serve
o avental com que te revestes?

é luz
que queremos para ti
Irmão

que os três embates de malhete
te relembrem que progrides aprendiz
e quando levantares a espada incendiada
, invocando a grande arquitectura universal,
nada te espante que só tens um dever:
proteger
aqueles que como frágeis fios de luz
preenchem as colunas

quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

poemas dispersos

a toda a largura da mesa
as flores e o inverno que elas trazem
. chove
há em mim um zumbido ansioso
que me afasta da janela
. recolho-me
enfrento as cores e as folhas das flores
e tenho medo
da largura da mesa
posso não voltar a ouvir flores
nem ver zumbidos
só sei que chove
e nesta minha cadeira nada muda
– acaba o dia não mais que isso –
imagino a meu lado esta tarde
uma grande lareira acesa onde dormisse

quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

poemas dispersos

margem esquerda
vê-se o mar – torres com bandeiras
nos dedos contorcem-se teclas de piano
vindas de fora num desencantamento
de almas: margem direita
estreitos veios de navegação cega
mar e rio deambulando entre
as margens quando um caixão se levanta
trazendo dentro corpos de pedras
e à noite
pescadores musicais pescam ao som
desenfreado das âncoras soando
guitarras no extremo das canas

segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

A Luz

sábado, 25 de Outubro de 2008

poemas dispersos

ele viu o Rio e
os peixes
contorcendo-se em curvas
estreitas de Terra
Pousou os cotovelos num
imaginado colo maternal
: Ele mesmo um peixe atormentado
de marés fluviais....ou
talvez
uma rocha em sólida e precisa rota

domingo, 12 de Outubro de 2008

poemas dispersos

caiu aos meus pés
a
âncora de um mínimo
navio onde marinheiros nus
rogavam pela salvação
da terra e
imploravam
na aspereza do convés
a devolução ao mar
às águas que tinham conhecido
Marinheiros nus implorando
aos meus pés
: solo indiano sem história –
a minha coragem
nada fiz – corpo inerte –
com o meu fato negro
apenas deixei cair a espada

sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

poemas dispersos

da terra para o fogo
da sepultura para a luz
da treva para o globo solar
.........deus viu
e viu que era boa
a obra criada
levantou-se a criatura
e andou Nas
ruas foi visto e muito amado
até que voou e já sem
força nos membros caiu
: vasto areal de cidades
........deus viu
e viu que era boa
a obra A cova trabalhada

terça-feira, 7 de Outubro de 2008

5 de Outubro de 2008

sexta-feira, 3 de Outubro de 2008

poemas dispersos

onde nasce a tua fonte?
Cava Cava Cava
um lençol de água
e sobre a tua capa
desliza e passa
o caracol sentado
que te esmaga
Vê depois os rios (que também são belos)
E as flores (que não são menos)
imagina pastores cheios de flautas
Cava Cava Cava
e sobre a Terra serás asa

quinta-feira, 2 de Outubro de 2008

poemas dispersos

olhos vermelhos Água
quente
de novo aquela Água
quente
: mãos coladas ao cabelo
(um cofre numa ilha)
olhos vermelhos engolindo letras
; palavras muito usadas
e a noite aberta aos
sons meticulosos dos cigarros
Num lago de olhos vermelhos
aquela Água quente
como um cofre solitário
ou dedos colados ao rosto

segunda-feira, 22 de Setembro de 2008

poemas dispersos

e desci
ouvindo vozes Comentários ferozes
e janelas a abrirem-se
Os meus pés enrolaram-se
nas mãos
e por dentro das mãos
um calor externo
um lâmpada Houve
quem dissesse que eram
o
s
meus gritos
vindos
de uma garganta
ausente Ardente
Na retorta de deus: évora o athanor

quinta-feira, 18 de Setembro de 2008

poemas dispersos

nem olhos nem boca
nem fogo nem sopro
nem terra nem lágrima
nem ouro
nem poema nem cristo
nem poeta nem pele
nem sal nem marés –
no coração do sutra perfeito
só o amor rarefeito

quarta-feira, 17 de Setembro de 2008

poemas dispersos

resta-nos abrir a porta
festejar os obreiros do céu
sentir o corpo
a
de-
com-
pôr-se
como um vento árabe
e olhar a derrocada dos dias
como se os dias pudessem ser olhados
e os olhos capazes
de olhar

terça-feira, 16 de Setembro de 2008

poemas dispersos

e as chuvas não lavam
as flores e os frutos entre os
muros
da cidade
na lonjura das estrelas
o abrigo das vozes
maternais
expandindo-se sobre os filhos
areias devastadoras e nelas as
pegadas salientes
dos santos e iluminados
pregadores
as chuvas não respondem
aos chamados dos feiticeiros animais
e num grito último
fogem para a inexistente floresta
os gatos de um antiquíssimo egipto

domingo, 7 de Setembro de 2008

poemas dispersos

talvez fosse uma gaivota…
… era uma gaivota fazendo
movimentos de gato por cima
da
cama
num sono curto o mar
a recordação dos comboios
acendida a luz
nada – paredes lisas si –
lêncio
sem sono
pela janela
um grito felino de gaivota

domingo, 17 de Agosto de 2008

poemas dispersos

curvado a esta luz
oiço e sinto
gotas de relento caindo
lá longe Nas cavernas
dos suplícios Sei
do que são feitas essas gotas
mas calo
não caberia a mim
– profeta cego para o divino –
levantar-me e correr e salvar do sacrifício
aqueles que pelo choro
da escrita nessa torre se encontram
a Correntados

estou frio
miraculosamente, velho de menos
andar é para mim um esforço maior do que cair
Com a graça de deus
(depois destas linhas terminadas e
apoiado numa cana)
acenarei em cruz ao arcanjo s. miguel
lerei o jornal – isto já no café –
e toda a memória do que ainda há momentos tinha
invocado se dissipará em leite e pão


praia das maçãs, agosto de 2008

quinta-feira, 14 de Agosto de 2008

poemas dispersos

ainda trago um fio de sangue na roupa
, limões num saco Ligeiro corte
na podagem Acreditei que a luz do sol
me ajudaria a enxergar os veios dos ramos
o local certo da incisão
Ao contrário
ofuscou-me o grito do astro
e caí com letra no papel
já no chão vi um gato no céu
em forma de nuvem
e na terra muitos espinhos de rosa que
apesar de cravados
não me magoaram Conseguia levantar-me
estava bem
mas desejei estar melhor e ali fiquei
caído
ferido
mas deslumbrado com um céu imenso
escarlate de nuvens azuis e limões espalhados
ao redor da cabeça – amarelos
um amarelo definitivo

só Agora me ergui e depois de ter
recolhido os limões regresso a casa
vejo-me ao espelho estou mais leve
a cara cortada de chicote
fez-me despertar os olhos
o sangue caligrafou um olho na camisa
tudo está certo e maravilhosamente perfeito

praia das maças, agosto de 2008-09-14

segunda-feira, 4 de Agosto de 2008

poemas dispersos

dE noite ainda se ouvia o mar
ou talvez fossem os pinheiros
na memória
ossoS
:um crânio com um esplêndido orifício

durante o sono surgiram imagens
de areia e sapatos
junto Às flores a infante sepultura
do teu nome

praia das maçãs, agosto de 2008

sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

poemas dispersos

depois de uma palavra
um gesto subtil de uma suposta
carícia
nem rosas
se revelaram
na noite de chuva
nada de verdadeiro
já na rua procuro a tabacaria
o tabaco desfazendo-se em fumo
acalma as cores agressivas
à volta tudo falso – salva-se o silêncio:
o cansaço das horas seguintes
ouvindo poemas
– na noite sonho confuso
com um barco sem tripulação
implacável
navegando

sábado, 26 de Julho de 2008

poemas dispersos

quase agosto
um dia de chuva
bastou
: dois corvos pousaram tranquilos
sobre as torres da fábrica
dois-grandes-corvos-quase-violeta
os operários saíram num ensejo
sonhador de os ver – ¿há
quantas décadas os corvos
não se aproximavam da cidade?

quase meio-dia… à hora certa
as sirenes gritaram
marcando a pausa para o almoço
mas a fábrica já estava vazia
no terreiro do estacionamento
três centenas de operários
tinham antecipado a pausa
para saudarem dois
corvos quase violeta

sexta-feira, 18 de Julho de 2008

poemas dispersos

lia romances – extensos romances
lia
lia romances – extensos romances
em fundo azul
letras verticais e
oblíquas frases em erupção
depois dormia
deixando acesa uma suave luz amarela
e um gato a cobrir-lhe os pés
nos sonhos lia
relembrava
os romances
transformando-os em versos
delicados momentos de voo

no centro da noite
lia
lia romances – extensos romances

domingo, 6 de Julho de 2008

poemas dispersos

viu-se de relâmpago e era negra
e como se uma chave fosse
uma chave foi
abrindo a porta do grande
palácio das buganvílias e dos loendros
lá dentro
sobre um pavimento de mosaicos
brancos e negros
duas colunas
suportavam sem esforço um globo celeste
e outro terrestre
duas esferas romãs
abertas e expostas à sua multitude
era uma espada de ferro quente
ondulada
: flamejante – a invocadora de todos os sortilégios
entre colunas –
onde reinava o silêncio
,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui
não haverá espaço para a defesa porque
não haverá espaço para o ataque»

nisto uma bicéfala águia branca pousou
sobre a coroa do trono
e no tecto do palácio se escreveu
num ouro muito azul: «ordo ab chao»

poemas dispersos

pelas ruas caminham ainda
Gaivotas
e outros animais de nome desconhecidos:
¿gente perdida? –
numa montra um vestido Branco
perfeito – luminoso

pelas ruas caminham ainda
Flores
silvestres odores ignorados
jardins sem rosto
lagos sem rosto
paisagens distorcidas

pelas ruas caminha ainda
um vestido Branco
perfeito – luminoso

poemas dispersos

um dia – se me tornar mesmo
peregrino – encontrarei as tuas pegadas
junto ao rio que escolheste
e aí ficarei a contemplá-las
parado
ouvindo as águas
respirando o oxigénio das ár
vores gigantes
:os corvos

domingo, 22 de Junho de 2008

poemas dispersos

procurem nas montanhas as pegadas
dos cavalos brancos e humanos
do grande apocalipse
procurem no deserto as águas frescas
dos oceanos que ascenderam aos céus
procurem as pedras preciosas
ocultas no centro da terra –
e quando estiverem deslumbrados
sintam-se perdidos e desiludidos
pois tudo o que encontraram mais
não foi que desgosto e iludida alegria

terça-feira, 10 de Junho de 2008

poemas dispersos

mar e príncipes-perfeitos
a falésia – pináculo de catedral
ouvem-se as vozes do coro
Requiem
para sempre um Requiem
de ondas e cardos
:a leve brisa a que chamam primavera
quando É primavera
ou outono quando É outono
mar e princesas descalças
no pinhal do outeiro
muda-se a roupa ergue-se a voz
a mesma que ainda agora se ouvia
lá atrás
no coro da igreja nua
e a toda a volta a cauda de uma Sereia

sábado, 7 de Junho de 2008

poemas dispersos

vinham e falavam crioulo
manchavam a terra
e sabiam enterrado o esposo
havia crianças e laços na cabeça
prematuras esperanças
e pelo meio um louco
deitavam cartas e olhos verdes
gritavam um hino vermelho
vomitando a gaguez
e de cada vez é de vez
vêm
às dúzias num comboio
há crianças uma a uma
de-cada-vez
deitam cartas e olhos verdes
vomitando a palidez
na carruagem cantam um hino
vermelho para dentro de um aparelho
português

quinta-feira, 5 de Junho de 2008

poemas dispersos

numa minúscula árvore brotou
um fonema
:o tema e por extenso o fruto
nos ramos viram-se pássaros
e uivos caíram plumas e a
çu-ce-nas – primeiro acto
pacto o peixe o ovo e qualquer coisa de lácteo
numa minúscula árvore acesa
derramaram-se os versos do último poema
verteram-se as marés as areias
:o pólo
norte
desfigurado por antenas

terça-feira, 27 de Maio de 2008

poemas dispersos

encontrei-me contigo num jardim
de verão onde chovia
vi-te primeiro estavas leve
abençoada e clara
viste-me a seguir cor-de-rosa
como uma flor japonesa
de antiquíssima lembrança
rezámos junto ao lago
concentrados nos peixes e nas folhas
rezámos a tudo a quanto um ser pode rezar
até que um de nós
já não me lembro qual
tirou o revólver e disparou sobre o outro
caímos de semblante sereno sobre a terra
deixando que os pássaros nos cantassem
é bom lembrar a nossa morte
sobretudo porque nesse dia estávamos
lá os dois e aquele tiro nos eternizou
foi a primeira vez que sorrimos
com a calma e a tranquilidade
dos grandes poetas

segunda-feira, 26 de Maio de 2008

poemas dispersos

fechou-se o palco com um actor lá dentro
fecharam-se as cadeiras
as luzes
os alfabéticos-pirilampos
baixou o lustre com os grandes e os
pequenos cristais de quartzo
correu a cortina de ferro
fechou-se o palco com um actor lá dentro
nesta casca de ovo o actor
respirou
enfim
por fim
até ao fim
e silenciou-se numa espécie de chão
e madeira
lembro assim o actor que foste
e as horas que passo sem ti
hoje
dia em que também estou fechado no ovo
respiro o fumo que deixaste do último cigarro
e é de um corpo triste e derrotado
que faço a minha vitória

domingo, 25 de Maio de 2008

poemas dispersos

na mansarda em frente ao café
há rosas-de-santa-teresinha
no campo
aqui mesmo ao lado
os pastos ficam vermelhos de flores
e outros pequenos milagres
ver a beleza destes dias é ver simplesmente
é tornar os olhos mais lentos
arrastar as palavras
descobrir na retorta do alquimista
o sucesso que elevará o chumbo a ouro
amanhã choverá outra vez
até talvez já esta noite
e a beleza solsticial esconder-se-á
como numa concha se escondem anéis
e
sem palavras
os pastos voltarão a ficar verdes
só os alquimistas continuarão o labor
no seio do athanor, as rosas

sábado, 24 de Maio de 2008

poemas dispersos

a chuva que cai não é chuva que cai
há mastros que se inclinam
e escotilhas e abelhas a toda a roda
a vegetação adensa-se aqui e ali
e os poetas que cantam isto
também não são poetas porque se fossem poetas
só olhariam a chuva que cai
os mastros que se inclinam e as escotilhas
por onde as abelhas querem passar
da mesma maneira estes dias mais longos
de uma primavera húmida e sem vento
não são os dias longos de uma primavera
húmida e sem vento
nem o amor que se sente é amor
se fosse amor era só amor e não
um amor que se sente
tudo é uma réplica da verdadeira condição
de se ser natural e poeta no veio
longo e lúcido – estranhamente lúcido – de uma
rocha que uma vez escalada nos abriria
a porta das cavernas douradas
onde na realidade nunca fomos

quarta-feira, 21 de Maio de 2008

poemas dispersos

o vulcão sopra mesmo ali junto à fonte
é um vulcão simples de asas justas
e cauda de noiva
quando estremece toda a terra vibra
e ao vibrar encontra
mais uma pedra oculta dos antigos magos
depois há os petroleiros e as suas grossas
amarras os frutos secos da pastelaria
a mulher gorda de outrora que os engolia
em habilidades de circo e de poema
a fonte essa não se mexe
é demasiado humana para se dar a tais luxos
deita água quando é preciso
e no repuxo máximo até o vulcão parece pequeno
de santa-apolónia partem os trens para frança
e para espanha e os gritos das aves parece tão
mais vivo quanto mais alto o voo
e a vontade de pescar
o vulcão não é nada neste bairro
porque o estremecimento que provoca com
as suas erupções não corrompem o andar de ninguém
nem ninguém se preocupa com pedras ocultas
tudo ali é o que parece menos o vulcão
que sendo um vulcão nem se consegue fazer comparar
à descarga de um navio ou à chuva dos dias negros

segunda-feira, 19 de Maio de 2008

poemas dispersos

roma paris berlim trieste moscovo
toda a ásia desertos de areia
desertos de gente
céus encobertos – rios encobertos
nevoeiros rasteiros cães nadando
nas enxurradas d’água
«cães de barcelona» - o meu anel de lis
no fundo de um lago
os sinos e os monges
roma paris trieste moscovo
comboios de gente – lisboa
nove e quarenta e cinco da manhã
passa pesado o metropolitano
rua do arsenal – tejo
rua do arsenal – armas pela república num dia
rua do arsenal – armas por abril noutro
são dez horas da manhã
o sol fez-se redondo e chuvoso
são dez e três – centro da cidade – birmânia

domingo, 18 de Maio de 2008

poemas dispersos

procurei que as coisas acontecessem
procurei no céu olhares misteriosos
e na terra o sabor sereno dos diospiros
plantei algumas árvores
e desenhei e escrevi e pintei
terá sido em vão porque não se procura
nada nos céus nem na terra
porque de nada vale o sabor de um fruto
ou um desenho um vocábulo uma cor
ainda assim
quando não esperava
encontrei uma pequena esfera no chão
desconheço o seu uso mas trago-a na mão

sábado, 17 de Maio de 2008

poemas dispersos

é um outro jogo
: uma poeira azul espalha-se
por toda a parte
entranha-se na pele e nos ossos
basta um movimento errado
basta um movimento
basta não se estar a dormir
as regras são precisas
infalíveis – dolorosas
um pensamento a mais e fecha-se o mar
contrai-se o rio
e os navios morrem na sua embaixada

sexta-feira, 16 de Maio de 2008

poemas dispersos

aqui tão preso à criatura que os
meus
olhos cegos vêem
fico incapaz de qualquer movimento
criador sou – também eu – só
criatura Nisto o cavalo salta
branco como as pedras do deserto
Estremeço
, reparo-me cansado demais
para o acompanhar.........;o desejo adormece
e a bela criatura depois do salto corre
em direcção às folhas dos canteiros
hei-nos no coração da Metrópole

quinta-feira, 15 de Maio de 2008

poemas dispersos

confundem-se árvores
cai água desamparada
mente sobre os troncos
as folhas rebentam nas copas
«chove»
está-se sozinho num
bosque transfigurado em
plena cidade – sem uma palavra
alguém – uma mão – é num
café que acendo só
mais um cigarro

poemas dispersos

confundem-se árvores
cai água desamparada
mente sobre os troncos
as folhas rebentam nas copas
«chove»
está-se sozinho num
bosque transfigurado em
plena cidade – sem uma palavra
alguém – uma mão – é num
café que acendo só
mais um cigarro

quarta-feira, 14 de Maio de 2008

poemas dispersos

sei que existo – sinto pernas
e olhos: os dedos mexem
… mas, à minha volta
, tudo está corajosamente congelado
menos os Pássaros que também existem
e devem sentir as pernas e as penas
e os olhos, a rodarem nas órbitas – por
isso os procuro – mas não
, não encontro Pássaros ao olhar
ouço-Os, mas não os vejo
quando encaro o alto
diante de mim
só vejo um lastro quente de sangue negro

terça-feira, 13 de Maio de 2008

poemas dispersos

13 de maio de 2008 – dia da mãe do mundo

na ternura perdida das mães
reside a dureza real dos filhos
que como sereias encantam
marinheiros e soldados
chamando-os para uma revolução
sem princípio nem fim
sem mares onde naveguem corvetas
da guerra dos anjos e das rosas
imaculadas mães
que justas na produção
dos filhos os envolvem numa placenta
de veneno e sol e lhes dão vida
para que morram depois
os filhos santificam essas mães
procurando ser o os seus amantes
distantes e gritantes
filhos mortos de mães mortas
e a vida a florescer em
naves de água pura e em frechas
de rocha onde alguns se escondem
mães cruéis na criação dos filhos
mães sem olhar
sem cheiro
sem terra a que pertençam quando
sepultadas, filhos translúcidos
num colectivo enforcamento de sonhos

segunda-feira, 12 de Maio de 2008

poemas dispersos

os antigos guerreiros
traziam nas suas armaduras
cruzes de prata
pintadas de escarlate e
erguiam sobre as cabeças
elmos em chama
cavalgavam sobre campos d
esconhecidos: bosques, desertos
,gigantescos lagos e ainda
assim
nada os detinha – nenhum vento
apagava a tocha que lhes indicava
a senda – um dia perderam
o tesouro que os mantinha vivos
uma arca de vitral
onde guardavam as relíquias
sagradas da deusa
a deusa de todos os deuses
as armaduras caíram por terra
os elmos fizeram-se água
mas as cruzes escarlate
continuam enterradas nas campas
brilhando sempre que o sol
se põe tentando salvar os
poucos peregrinos que ainda p
ro
curam
a rainha-santa

poemas dispersos

os poemas já não chegam
nem as palavras – nem os pequenos
vocábulos antes cheios de sonho
falta tudo
:fadas, elfos, os grandes sábios
faltam os doces olhares dos dragões
a plenitude das mães
até o desespero dos dias antigos
e não são coisas que se possam procurar

dantes os navios passavam junto
à minha rua
e era ao som desses sinos de catedral
que sonhava começar um dia
bebendo do rio o frio e a vontade de chorar
nesses dias choviam cartas
– «o espanto» de que falavam o
s livros de ponty – ¿para que os terá escrito ele?
sabendo de antemão
que da caverna primeira nenhum sinal
chegaria, nem eco, nem amor –
os poemas já não chegam
a quimera partiu e com ela
as anões, os gigantes, os ogres, afinal
todos os deuses de um astral amoroso
e natural. ei-nos sós neste
pedaço enquadrado de cores brancas
cores perdidas em telas perdidas
e o homem anda, soluça
conta tostões sobre a mesa
esperando que por debaixo dela
uma fada de olhos claros
se aventurasse a pegar-lhe na mão
e elevando os olhos o fizesse adejar
… mas os poemas morreram com os poetas
(vem-me agora à cabeça a música
dos versos de herberto)

nesta noite, subitamente
(enquanto escrevo)
ouço na rua um animal
uma besta que se esfrega para encontrar
comida
antes isso – digo em voz alta – que andar
rastejando debaixo de uma mesa
numa procura cega
por um espírito da natureza que
sei, com certeza,
ausente
invisível.
mesmo morto.
antes a besta
que a lira de herberto
;os navios do rio
;os espantos nos sinais de ponty
não.
os poemas já não chegam
estamos abençoadamente
próximos do fim

sábado, 10 de Maio de 2008

poemas dispersos

são páginas de calendário
só páginas de calendário
centenas de milhar
números
pequenas notas
nomes
de
gente de um dia
– iniciais –
pequenos recortes mal colados

deve haver mais alguma coisa
tem de haver
qualquer coisa brilhante
sonora: um corcel

sexta-feira, 9 de Maio de 2008

poemas dispersos

sentado num moinho feito trono
espero um cavaleiro
tenho as pernas recolhidas
o torso tenso e revolto
corujas circulam no telhado
estarão assim toda a noite?
cúmplices e raras aves
há estrelas
uma linha de lua
sentado num moinho feito trono
adormeço

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

poemas dispersos

um primeiro dia algumas cores
o cavalo que corre
o bispo avança no xadrez
tantos rostos peões
à volta do campo de batalha
numa cerca verde
nascem livres flores-do-deserto

segunda-feira, 5 de Maio de 2008

poemas dispersos

perfiladas de negro
as bandeiras
as nossas bandeiras
e os ratos a cantar
a cantar os hinos
os nossos hinos – nas praças
nas nossas praças
e os gatos a adorar
a adorar pobre bomba a rebentar
poetas sem sabor
num pedaço de pão
carne a apodrecer e nem
um tiro de canhão

domingo, 4 de Maio de 2008

poemas dispersos

talvez o barco se tivesse virado
ou o mar se tivesse virado
qualquer coisa ficou fora da órbita
de repente um aperto forte
e as veias torcendo-se em choro –
uma contracção no peito
tremor nas pernas
até que ao longe as gaivotas
planaram de novo com doçura
e tudo ficou calmo – o barco –
e o oceano na sua transparência

sábado, 3 de Maio de 2008

poemas dispersos

ser pessoa
cara diferente
e vozes
mergulhando aventurosamente
na planície safirada

sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Jornal «THEOSOPHIA» nº1


Jornal «THEOSOPHIA», nº1, em papel e on-line

João Lemos - Fairy Tales



«Avengers - Fairy Tales»
Texto: C.B. Cebulsky
Desenhos: João Lemos

poemas dispersos

corre meu corvo
corre se as tuas asas já não podem
refugia-te no negro
usa a espada que tens como bico
corre para o mar lá estarás a salvo

nem barcos nem homens nem animais
te atormentarão
corre meu corvo
corre em direcção ao sal e ao sol
de um mar alto onde tudo te protegerá

quinta-feira, 1 de Maio de 2008

poemas dispersos

quando ouvia a tua voz escrita
acendiam-se os olhos
d’uma noite inteira
marcavam-se no amplexo do céu
pequenos pontos brancos
que fixava como se fossem
candeias angélicas
ou diamantes lapidados
brilhando à luz de um sol negro
calo agora essa voz
e adormeço cego de luzes
acrescentando: para sempre

MAIO

terça-feira, 29 de Abril de 2008

poemas dispersos

o anjo do apocalipse
cujo os pés repousam no mar
trouxe-me num vaso de pérolas
uma flor das águas:
o amor do grande armageddon
ia
enfim começar e eu
salvo pelas redes do espanto
fui escolhido para sangrar
o cálice da nova terra

segunda-feira, 28 de Abril de 2008

poemas dispersos

é uma escultura italiana
um leão que chora
deitado – derrotado
escondendo os olhos com as garras
enquanto
um gigantesco arcanjo de mármore
o afaga tentado a salvar o rei
da morte que se aproxima
uma imagem congelada da derrota
: por muitos séculos assim
permanecerão

domingo, 27 de Abril de 2008

poemas dispersos

vento calmo calmo cal
mo
brisa que mesmo não sendo brisa
se sente brisa como em dias
de muito inverno uma chuva
perfumada nos enche o fato
e os olhos
de lágrimas disfarçadas

«Os Frades»


Pintura de Tânia Calinas
Site Meter
  • CORREIO
  • SAUDADES DE ANTERO
  • LIVROS
  • LIVROS 2
  • LIVROS 3
  • LIVROS 4
  • JOÃO LEMOS
  • AR LÍQUIDO 3
  • POR MOTIVOS
  • THEOSOPHIA
  • Powered by Blogger