terça-feira, 31 de agosto de 2010

Satã




















#23


À noite, as vozes. Entram pela janela, alagam
o ar, misturam-se com os sonhos, entram em
partes de nós. À noite, os corpos. Dilatam nos lençóis
, estamos presos: as paredes, circundando
o sono e os exíguos cursos da respiração.
Não sabemos quem nos presencia, quem espiamos.
Sabemos que é noite e isso basta. Basta para sentir terror.
O medo infindo de acordar. Da janela vem tudo. Pela janela
, fogos-fátuos a colar-nos os dedos, a paralisar os gestos
já quase poucos das mãos que foram intactas… As vozes:
longuíssimas línguas espalhando verbos, o divino sopro.
À noite… a centelha mais ténue é ameaçada.

Frederico Mira George