sábado, 12 de março de 2011

Satã


6.

O que eu escrevo é tudo o que suporto. Tudo
o que sei... que soube, que... nunca saberei.
Sou um escritor de actas, actas do futuro
translúcido e inculpado que não acercarei.
Porque escrevo actas, e escrevo-as
sem ter testemunhado o momento que traço, Ignoro
a tendência natural para julgar que já tive um passado
, que tenho presente (não tenho, mesmo que o supusesse
), e que o futuro não me espera. É nessa forçada ignorância
que sou alegre quando estou triste e triste quando estou alegre.
É neste trabalho quotidiano de secretário que sou feliz.
Não é motivo para tanto, bem sei... ¿Mas, se ser secretário,
traçador das actas do juízo final, me felicita as sensações,
porque não deveria viver esta ignorância infantil
e misericordiosa para depois adormecer
como se estivesse na quentura do primeiro berço?