terça-feira, 31 de agosto de 2010

Satã




















#23


À noite, as vozes. Entram pela janela, alagam
o ar, misturam-se com os sonhos, entram em
partes de nós. À noite, os corpos. Dilatam nos lençóis
, estamos presos: as paredes, circundando
o sono e os exíguos cursos da respiração.
Não sabemos quem nos presencia, quem espiamos.
Sabemos que é noite e isso basta. Basta para sentir terror.
O medo infindo de acordar. Da janela vem tudo. Pela janela
, fogos-fátuos a colar-nos os dedos, a paralisar os gestos
já quase poucos das mãos que foram intactas… As vozes:
longuíssimas línguas espalhando verbos, o divino sopro.
À noite… a centelha mais ténue é ameaçada.

Frederico Mira George

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Satã




















#22


Como serão as criaturas que suplicam aos anjos?
E se os anjos descansam em algum lugar, como podem eles
escutar (e acudir), tantas súplicas, tantos rostos?
Ser anjo é já não ter de escutar a substância rude de cada ente
e cada substância rude nunca os contrafazer. Ser anjo é já não ter de voltar.
É a duração sem tempo, o clarão perpétuo, a companhia delicada do
mosteiro de organismos sem pulcros nem desengraçados, nem benignos
nem brutais. Nem homens nem humanos. Ora, mesmo sendo isto
coisa que todos deviam concluir, há criaturas que apelam aos anjos
na tentativa pueril de serem contemplados com atenção das Asas Deles.
Sei como são os anjos, mas como será a face do vivente que sabendo
da impossibilidade, conduz as orações àqueles que voam acima dos céus?

Frederico Mira George

domingo, 29 de agosto de 2010

Satã - 2ª Parte «DEMON EST DEUS INVERSE»



















#21


Temos dia e escuridões, auroras
«quartos-crescentes». Usamos telescópios. E tudo
, tudo porque a Terra germinou perto de uma estrela.
Não fosse essa estrela e a Terra não teria almas
extraviadas, nem terrenos férteis, nem mesmo
mulheres e homens enlaçados em cordas.
Em consequência do Sol, aqui estamos: os dependurados.
Sem se notar, o planeta roda, oculta faces, e há
até gente no mundo que sabe dar nomes e baptizar os momentos
de cada revolução. No céu, se é dia, a fulgência rigorosa
queima a pele dos que desfolhados se expõem ao que está no alto.
Se é noite, é a alvura da película humana que se distingue caso
encontre uma seta de lua reflectindo desejos.
Temos dia e lua.
O Sol arde mesmo na incerteza mais profunda.

Frederico Mira George

sábado, 28 de agosto de 2010

Satã




















#20


Se Deus quisesse que os seres que não têm asas
voassem, Deus teria desenhado alas para os seres que
não as têm. E
, se foi Deus que criou os seres com asas e os seres que não,
jamais desprezaria nos Seus rascunhos de presentear ansas aos que
não as têm, fosse essa a Sua paixão
. Deus quis que uns seres adejassem e outros não.
Deus quis que os entes na Terra fossem desiguais
, nos corpos e nos poderes. Por isso, os engenhos de voo que os
inteligentes criaram para chegar ao céu sem corpo para isso,
são formas obscuras, subtis, de contrariar Deus e os seus desenhos.
Obstruir os desejos do Arquitecto, mesmo que por habilidade e génio,
não significa aproximar a existência terrena da altura divina.
Simplesmente, ao cancelar o critério da criação, os seres de maquinismo
morrem para Deus e afastam-se do que é natural e dourado de proporção.
Do Alto, apenas alados cavaleiros de espada deveriam contemplar.

Frederico Mira George

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Satã




















#19


Os humanos
caminham porque desejam divisar algo
que esteja fora da sua humanidade para se
encontrarem com o que de clemente lhes haja dentro.
Enganam-se em tudo. Nas marchas; nos intentos; na esperança.
Caminhar para encarar luz dentro do corpo
, e é dentro do corpo que está o que mora dentro da mente,
é não caminhar. É nem perceber que inventar é já ter
inventado e no fora nada é diferente do que é dentro.
Os humanos
estão enganados e no seu engano reside
todo o tormento dos séculos e
pelos séculos dos séculos assim porfiará:
Não contentes por perceber que nem o caminho existe
nem a teimosia se justifica, nem há nada para encontrar
, os humanos marcharão.

Frederico Mira George

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Satã



















#18


Quando neva nos países onde neva,
chora-se pela falta do calor como um adulto chora
ao ser ralhado por ser como é e por lacrimar como se lacrimeja
quando neva nos países onde neva e se implora ardor.
Chorar quando neva é como chorar sem lágrimas.
É um frio rendo, cortante, escorrendo pelos gomos.
A neve foi feita (se é que foi feita) para dar beleza
às pinturas de Nikolai Konstantinovich Roerich.
Ou para dar fundos às fotografias de Ansel Adams, quando Adams
fotografava paisagens sem as ver mas sentindo
-as como se fosse o criador de toda a essência. Chorar
quando neva, é não saber deixar os joelhos tombar
num chão de perpétua folhagem e morrer sem saber
para tudo o que é alvo, triste e último.

Frederico Mira George

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Satã



















#17


Não há triunfo nem derrota nem nada que
traga rendidos e vencedores, há é o vício
de considerar que se venceu ou se foi vencido.
Uma árvore não pensa que conquistou a terra
ou se perdeu uma folha. A árvore conquista
a terra e perde folhas. Isto além do sucesso e do fracasso
. O triunfo e a derrota são vícios humanos,
estéreis e doentes. Se,
num rasgo de lucidez, o Homem descortinasse
como a um penedo é neutral a conquista
do húmus que lhe cobre a pele e como não fica
triste, nem contente, nem alegre, nem feliz,
caso o enverdecimento da sua tez não aconteça,
a Humanidade seria calma e rendida à naturalidade ancestral
de todas as coisas que existiram, existem e existirão.

Frederico Mira George

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Satã



















#16


Creio nas aparições e no nevoeiro,
nas estradas curvas junto dos outeiros.
Creio num mar ao longe que não se vê,
na encruzilhada em forma de escada.
Creio na serra, nos altos, até nas espadas.
Creio na eternidade ligeira de uma escarpa,
e nas árvores que nascem inclinadas.
Creio que tudo tem asas e que o sol não esconde nada.
Creio no regresso das montanhas ao
precipício feliz do amor verdadeiro.

Frederico Mira George

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Satã



















#15

Se me falam de reis e das suas gestas;
da pátria e dos brasões que a reconhecem
, fico imóvel como um mocho observando o infindo.
Fico hirto, porque sobre reis e pátrias não há nada.
Nada que no meu coração e corpo mereça movimento.
Os mochos, quando fitam o além, fitam o além
para terem repouso daquilo que os tira do essencial.
Os reis e a pátria são um enfado e significam o peso
de me saber nascido numa colónia do mundo, onde tudo
o que advém é acaso e ocaso, e o que não acontece
é um desperdiçado caos dourado que
numa orbe frátria seria pedra cúbica.

Frederico Mira George

«QUARENTA ROMANCES DE CAVALARIA E OUTROS POEMAS»

Publicações Dom Quixote

sábado, 21 de agosto de 2010

Satã

















#14



Como génios invocados por aqueles
que invocam almas, invoco as manhãs
e assim eles se sentam à minha esquerda
, absorvem o meu dia, planeiam o tempo que me resta.
As manhãs, como as almas invocadas, são
frias e entorpecidas, e falam aos olhos
numa espécie de esperanto do cosmo
, das luas muitíssimas, dos anjos adormecidos.
Como manhãs invocadas, invoco alentos
e deixo-os sentar à minha direita, levando-me.

Frederico Mira George

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Satã



















# 13


70º Aniversário do Assassinato


de Leon Trotsky



Olhar as estrelas e ver constelações
e grupos astrológicos de sóis
e poeiras em forma de cometa
e outras alucinações, é tão bruto
e cego que nem as palavras reconhecem letras
para justificar tanta lucidez. Não há nada
nem no Céu nem na Terra que o homem possa ver
olhando as estrelas que não seja olhar as estrelas.
E só por isso tudo deveria ser perfeito e justo e nada
...........seria preciso inventar para além de ser capaz de ver
e no escuro obedecer ao espanto inexplicável de o poder fazer.

Frederico Mira George

Satã

#12



Como quem faz que é atento, não sendo atento, ouço
com dor as notícias do mundo: Lisboa, Paris
, Roma, São Petersburgo, Guernica… cidades visíveis que as criaturas
invadem e que o criador abandonou. Morre em mim
a felicidade de desejar reconhecer o mundo. Mesmo
que
num navio a vapor pelo oceano oculto das novas
descobertas. São novos estes adamastores e tantas as
tormentas. Basta-me este quarto e a janela para a rua.
Contorno em mim o Cabo ferido de uma Boa-Esperança.

 Frederico Mira George

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Satã



















#11


Como não há Sol nos meus olhos
, procuro na névoa branca que os cobre
um máximo de luz que me permita ler.
Lendo, os meus olhos ficam tão claros
que mesmo aqueles que me julgam de olhar
sépia, vêem em mim azul nascente a fitá-los.
Mas, o que eu leio, não são livros ou jornais,
nem tão pouco versos ou linhas amorosas.
Frente aos meus olhos desfilam caracteres que
nem os deuses sabem ordenar. Por isso o meu olhar
brilha e brilhante é a luz que vejo espelhar.

Frederico Mira George

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Satã

















#10
Se estivesse doente sentiria o meu corpo a sentir-se doente.
Como não estou doente, há em mim uma dormência
, um desfazer de impressões que me torna
uma laje viva mas sem poder cheirar ou ouvir
, sem poder saborear ou tactear e muito menos ver.
Quando se está doente e a febre sobe,
assim como quem está ao Sol na praia e se deixa trespassar pela luz
, as sensações do corpo são belas e amantes.
Estar doente é saber a vida pelos dedos.

Frederico Mira George

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Satã



















#9


A infelicidade não é uma coisa abstracta. Escrevo
e enquanto imprimo olho a fotografia de Gorki na
parede frente à secretária. Se a infelicidade
fosse uma abstracção, eu diria – observando o rosto na fotografia – que
Gorki foi infeliz. Mas Gorki não foi infeliz porque viveu
no metafísico escorrer dos dias e morreu sabendo que
cada linha da sua «Mãe» seria lida pelos filhos. Nós,
os filhos de Gorki. No concreto, prova-se pelo rosto na fotografia,
que Gorki foi um «não-feliz». Mas, a infelicidade concreta, essa,
ficou reservada aos filhos.

Frederico Mira George

domingo, 15 de agosto de 2010

Satã






#8


Praia das Maçãs

Os meus poemas são curvas no pensamento.
São ramais de tudo o que sou e
negam com toda a realidade a força do que pareço.
Os meus poemas são o húmus das coisas feias
e frágeis que habitam a natureza –, E digo isto porque
os meus poemas nunca são naturais. São
extensões de uma feridade que me subjuga a pele como
uma febre fúnebre poderia toldar os sentidos subtis dos olhos.
O meu pensamento é a linha paralela dos meus poemas.

Frederico Mira George

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Satã














#7


Praia das Maçãs


Se envés de poeta fosse poema haveria no centro
das minhas mãos uma espécie de círculo
, uma marca oculta de espantos e lentes convexas.
Mas eu não sou poema. Nada em mim é poema.
Sou o que as pessoas vêem: o poeta, o que não sendo
poema junta linhas paralelas de promessas
para depois as ouvir como quem ouve o som do mar
no ilusionismo de um búzio.

Frederico Mira George

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Satã


#6
Praia das Maçãs

Não posso chamar sonhos aos meus sonhos
pois tudo o que da minha mente transborda durante
o sono não é melhor nem maior do que aquilo
que da minha mente extravasa nos momentos aflitos
e mortificados
da vigília.
Os meus sonhos são o espelho horizontal da eterna angústia.
Êxtases de quem acorda sem saber que acorda nem o que é acordar.

Frederico Mira George

domingo, 8 de agosto de 2010

Satã


Desenho de João Lemos
#5

Se ouço a música das coisas naturais
é porque há em mim a engenharia dos homens
e as arquitecturas da mente.
A natureza não seria possível
se o homem não fosse possível
e sendo possível, o homem projecta
, desenha, edifica;: a visão das estrelas
,os sons graves do mar e o silêncio das rochas.
O som natural que eu oiço, quando
ao domingo a cidade pára e tudo é musical
e silencioso, são pontes rigorosas, engenhos
arquitectónicos de mentes humanas.

Frederico Mira George

sábado, 7 de agosto de 2010

Satã



#4

Quando incendeio o tabaco na fornalha do cachimbo
, o fumo, o fogo, o calor;
elevam-me a um céu de coisas inocentes e brancas
que retiram de mim toda a morte do corpo
e me fazem pensar na beleza extrema do pensamento que
não é pensamento mas a que chamamos pensamento
porque pensar é a única forma de não pensar.
Na fornalha do meu cachimbo mora toda a paz dos
profetas, toda a dor dos poemas; e eu sinto-te livre
como o anjo que cai para trazer a luz que cega.

Frederico Mira George

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Satã




#3


Aquilo que eu vejo da minha janela
não é belo, nem fresco, nem solar.
Tudo aquilo que eu posso ver da minha janela
é quotidiano, e transeunte, e efémero.
É tão profundamente efémero
,que,
a eternidade
,daquilo que eu vejo da minha janela,
me dá a sensação plena de ser eu para sempre e
,depois de morrer, não ter de voltar.

Frederico Mira George

domingo, 1 de agosto de 2010

Satã



#2

Sinto a passagem dos dias como quem sente
a passagem do sangue pelas veias
quando o sangue passa pelas veias.
Há horas em que a tensão baixa e baixa tanto
que o coração bate deslocado no peito.
Mas, porque sinto os dias como quem sente
a passagem do sangue pelas veias
, os meus dias fluem e cavam sulcos
, abrem afluentes no meu pensamento,
ainda que não tenha pensamento.
Os meus dias são linhas de sangue.

Frederico Mira George