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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Rosas

Natália Correia: «Credo»: «[...] Creio no incrível Nas coisas assombrosas Na invasão do mundo pelas Rosas[...]» Em recordação de uma noite de canto (20-2-2010) -

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Walden

«Não falaria tanto de mim mesmo se houvesse outra pessoa que eu conhecesse tão bem» H. D. Thoreau

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Corvo

# 4 O corvo observou. Sentiu-se sereno por ser mal dito. Voava! Na cidade os que caminhavam em afazeres i nadiáveis, seriam capazes de o matar com olhares , mas seria ele, negro-solitário, o que depois da última respiração tinha tentado ver além das próprias asas.   # 5 Sentado no café enquanto o dono lavava o chão ladrilhado de azul e vermelho , H pensou em escrever um poema. Desenhou caracteres no papel como um mecânico ajusta a direcção de um automóvel. Terminou 20 minutos depois. Nada do que tinha escrito parecia dele. Como o carro onde o mecânico opera não é dele. Saiu e guiou o «seu» poema. Pela primeira vez sentiu as faces do rosto corar de orgulho e coragem. O automóvel… o seu gigante poema.   # 6 Um rei e uma rainha, exaustos de dormir em tantos diversos quartos Reais, de tantos diversos palácios Reais : sentaram-se, por fim, observando abelhas à espera do vento.   # 7 Manuel Teixeira Gomes Curvou-se perante ................a estátua do poema. Os pescadores rumavam a Ocidente. Ajoelhado depôs flores : Portimão.   # 8 À frente, lá estava o muro. Era ali que tinham morrido os voos, o vento ; ali tinha parado a respiração. Sentia que tinha de nascer e nascer, nasceu, por fim, um ovo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Corvo

#3 Ulisses – o gato. Preto , branco. Quase azul, quase alto, dorme aos pés da cama de L. E e um lago de mármore onde , entronado, buda está sentado. L e o gato vêem estrelas no telhado. Movem-se cansados , como no céu os supremos astros.

Corvo

#2 O monge-cego veste-se. [enquanto] Peixes voadores bebem na fonte do claustro, o monge procura dentro de si : alfinetes ; botões ; asas-de-anjo para o colarinho. Já na igreja – o templo efémero – 1 sinfonia de luzes espera-O. Ele, cego, entrega-se ao concerto das velas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lhasa de Sela deixou-nos aos 37 anos

Partiu a Poeta da solidão, da tristeza transmutada em emoção e música: «Obrigado à vida que me deste tanto/Obrigado à vida que me deste o canto» (Mercedes Sousa).

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Corvo #1

#1 d’Inverno, os corvos. O homem caminha sob a chuva ouve os Corvos – o Inverno e desliza na alvura da Neve imaginada onde ,onde pegadas de sombras a-rriscam voos oblíquos. Corvos e homem sentem [finalmente] o Inverno dentro da pele. Não há morte – Não há noite : só neve, luz intensa, céu intenso.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Contos.20

Finalmente sócrates deitou-se na Terra Platão deitou-se com ele e ouviu num silêncio amante o Testamento do Mestre: «Um dia virão a mim todos os corvos da terra»

Pama Inácio, Felizmente há L.U.A.R.

Somos filhos da madrugada Pelas praias do mar nos vamos À procura de quem nos traga Verde oliva de flor nos ramos Navegamos de vaga em vaga Não soubemos de dor nem mágoa Pelas praia do mar nos vamos À procura da manhã clara Lá do cimo de uma montanha Acendemos uma fogueira Para não se apagar a chama Que dá vida na noite inteira Mensageira pomba chamada Mensageira da madrugada Quando a noite vier que venha Lá do cimo de uma montanha Onde o vento cortou amarras Largaremos p'la noite fora Onde há sempre uma boa estrela Noite e dia ao romper da aurora Vira a proa minha galera Que a vitória já não espera Fresca, brisa, moira encantada Vira a proa da minha barca José Afonso OBRIGADO CAMARADA! FELIZMENTE HÁ L.U.A.R.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Contos.19

Longe de olhares profanos juntam-se os lobos que esperam o brilho das lanternas A última árvore do claustro será o sinal o Vento a testemunha Volte ao Fogo o que é do Fogo

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Contos.18

Para Luíza Ele tem sonhado com a Senhora-do-Lago Ele acorda com ela Ele imagina-lhe os olhos Ele pega-lhe nas mãos Ele sabe que é a única estrela que lhe trará vida Quando Ela lhe fala soam mantras num esperanto ainda não inventado Mas ele lê-a e conhece-lhe os movimentos Como todas as feiticeiras Ela mergulha no espelho da floresta As árvores dizem-lhe tudo a Ele resta-lhe o Lago

terça-feira, 30 de junho de 2009

Contos.17

Nuvens nos olhos, semeador Caiu chuva sobre o teu caderno Acordes baixos no coração fechado numa harpa Nivelado no céu , do meio-dia à meia-noite, acácias confrontam-se Sol e Lua numa sombra

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Contos.16

pela sua palavra , seu riso – preso no verde tão claro do poço Em voz baixa avançou mais um pouco Tão longo e estreito nado Respirou e teve tempo: «Amo o teu a- braço»

quinta-feira, 21 de maio de 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA

Se há memória do cinema em Portugal a ele o devemos. Morreu hoje o amador de cinema João Bénard da Costa

domingo, 17 de maio de 2009

Contos.15

mal consegue vestir o pijama – Já não sofre por isso Em tempos pediu aos seus amantes que o amassem… «está uma noite gelada» Um maio-inverno e ele mel Em jovem , dizem, escreveu poemas e banhou-se em águas quentes de perfume Já não sofre Tem vinte e cinco anos e um único e secreto desejo : «esta noite, vestir, sozinho, o meu pijama lavado»

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Contos.14

Para L. Platão rasgou o envelope e leu entre aspas : «Do perfeito coração os teus dedos diriam: “voz grave, inquieta, Amo- rosa” Dos teus dedos o Coração pararia e… em mim , de pedra, tudo se talharia: Poemas-Cantaria! – Meu piano ,minha pele que se desprendia»

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Contos.13

13. ele soube – o seu sangue soube quando a sentiu O sangue voltou a correr , os olhos voltaram a brilhar mesmo de noite , passaram-lhe as dores do abandono Ele soube e deu-lhe – um dia – pela – primeira vez a mão tremendo por fora Voltara a sentir a compulsão de beijar , beber chá, ouvir incenso, morrer para todas as outras coisas Agora, só, relembra os sor risos , as lágrimas, e, apesar de uma distância que lhe parece intransponível , platão voltou a adormecer

domingo, 5 de abril de 2009

Contos.12

No cimo do moinho – lá onde reina a roda e a mó , passeavam patos E ele , assustado, curvou-se perante eles numa vénia trémula Os patos suspenderam a respiração e ignorando a vénia atacaram-no sem um grito Conseguiu fugir, sim, conseguiu Correu pelo campo em volta tentou esconder-se escondeu-se finalmente repousou Após alguns momentos de paz lembrou-se , lembrou-se: no moinho, lá junto à roda e à mó , à guarda dos patos, tinham ficado os óculos Os seus únicos óculos

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Contos.11

Pela primeira vez em muitos dias , platão levantou-se com alguma energia e com a respiração normalizada No entanto, o peso que sentia sobre si não diminuira Andou apesar de sentir frio , um frio que já vinha de trás e que o sol não dissolvia Andou ainda envolto na angústia Parou, por fim, quando já sem sangue se viu obrigado a sentar-se à beira de um pinheiro

domingo, 22 de março de 2009

Contos.10

Enquanto os espíritos o ouviam , sócrates desenhava um redondo-redondo-redondo círculo ,a vermelho na parede Platão era a sua mão e o giz :mel e raiz enquanto as palavras o contradiziam Os espíritos ouviam-ouviam-ouviam Sócrates morreu pouco depois deitado num chão baixo Sobre o corpo, platão tomou o seu rosto e alto , recto deu-lhe a mão num imenso-imenso-imenso desgosto

sexta-feira, 20 de março de 2009

Contos.9

E o tempo sempre a passar sempre a horas-sestas , os carros , as bandeiras – os cravos , as cidreiras tudo olhando o homem estacado na cadeira , ele já é a própria madeira . ao longe (vê-se pela janela) correm gatos e fardas e crânios decorados O homem chora e chora sentado No céu formam-se letras, uma a uma contam-se celestes canetas

terça-feira, 3 de março de 2009

«Uma Poeira Azul Espalha-se»

Com este livro de Frederico Mira George com um desenho de João Lemos, «Uma Poeira Azul Espalha-se», nasce uma nova chancela editorial. A chancela «Fora de Mercado - Editores» publicará exclusivamente poemas para que circulem gratuitamente de mão em mão. Impressos em papel de jornal, com formato de bolso, cada exemplar deve ser lido e passado a outro. Não estarão em livrarias, em supermercados... nada. Podem encontrá-los em cafés, teatros, no bolso de um amigo... enfim, em todo o lado menos nos habituais templos do mercado livreiro.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Mestre Lagoa Henriques, Choremos, Choremos Choremos

Passou ao Oriente Eterno o grande poeta do desenho que foi Mestre Lagoa Henriques. Que a sua memória e permanente inspiração nos anime neste momento de despedida. Choremos, Choremos, Choremos! Mas esperamos!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Contos.8

... tinha-se deixado aninhar entre os cobertores chegou mesmo a sonhar – adormeceu portanto – quando acordou tinha os lábios húmidos e gretados Uma das pálpebras mexia-se nervosamente Nem uma lágrima Levantou-se e caminhou contra o vento Devagar conquistou o espaço à sua frente era livre de se afundar naquela tempestade Foi aí que teve a visão : num ponto do horizonte, um cavalo parado olhava-o com ternura

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Contos.7

numa cadeira de baloiço sentia nas mãos o cheiro da despedida e forças malignas, sangrentas , a flutuarem-lhe no cérebro Quase já sem vista pousou nos joelhos os pesados volumes árabes à procura de encanto: «mil e uma noites» percorrendo-lhe a face quente Um dia tinha sido dom quixote mas agora , sem espada – perdida num último esforço –, procurava em xerazade uma explicação para os dias de febre Mil e 1 histórias que o salvassem Reclinado para trás ousou pedir socorro Caído estava oficialmente vivo e soterrado

domingo, 25 de janeiro de 2009

Contos.6

tinham-se sentado numa laje de pedra viram num céu escuro as cores de um efémero arco e receberam chuva nos cabelos e beijaram-se e pelo chão talvez tivessem caído lágrimas De seguida a escada íngreme da despedida Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca a orquídea azul daquele dia Todas as tardes olha o céu quando está escuro Pelo chão lágrimas abraçam-se

Contos.6

tinham-se sentado numa laje de pedra viram num céu escuro as cores de um efémero arco e receberam chuva nos cabelos e beijaram-se e pelo chão talvez tivessem caído lágrimas De seguida a escada íngreme da despedida Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca a orquídea azul daquele dia Todas as tardes olha o céu quando está escuro Pelo chão lágrimas abraçam-se

sábado, 17 de janeiro de 2009

fora-de-mercado - editores

morta que está a poesia vive e ressoa como acto e facto de resistência o poema Em cada caractere fluem antiquíssimos toques de sino vindos das torres mais altas lugares aonde só as aves nidificam e tudo vêem como um olho gigante no centro de um triângulo de ouro Cada face do triângulo é uma afiada lâmina de combate se o olho tudo vê cada ângulo cada vértice corta-nos as horas em finas passagens de medo e sobressalto Aí onde ninguém chega nem mesmo aqueles que sendo humanos voam esconde-se o poema e do poema nascem as águias reais que só alguns vencedores podem ver Nas noites fundas o poema ressurge como um relâmpago seco sem som mas com uma intensa e profícua vibração de odores sabores olhares tactos e paladares Dá-se então o encontro inefável com tudo o que está para além da vida dos vivos e da morte dos mortos Em cada caractere o sol brilha no seu meridiano somos então meninos doces envoltos numa tristeza que só a infância conhece Imaginam-se histórias contos romances encantados reais e proféticos O poema torna-se um sangue escuro junto à terra perto do mar sob o céu ao levar do vento De todos os ventos Uma rosa crucificada Sim o poema é o acto e facto de ainda se poder ser resistente e vitorioso Vêm-me agora à memória humanos de amor que em cadeia nos ligam a um infindável caminho in-verso hélder fiama cesariny caeiro de outras eras viegas só no seu único nome mário camões perdido num oceano alheio num poema atlântico e salomão o velho e cansado elefante que um dia um rei português decidiu oferecer a outro rei de um país frio caminhando em passos curtos de amarradas patas por correntes De outros cantos mário dionísio eduarda em antes que a noite venha álvaro lapa de pinturas escritas post-mortem carlos de oliveira sophia al berto variações de antónio Lá nas torres sineiras as águias nidificam os poemas que hão-de entregar quando o dia nascer Godard de vivre sa vie visconti de uma morte de cal em veneza Antes da palavra final estaremos vivos Caídos por terra sim mas vivos resistindo e vencendo Todos nós que viemos de longe Que vamos para longe aí onde nos vamos encontrar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Palavras, Sinais, Gestos e Toques

Desenho de João Lemos (link à direita) Há quem se reconheça por palavras, sinais, gestos e toques.

Contos.5

longe longe longe muito longe : o frio – platão de sobre tudo trancado à cama dormiu longa longa longa mente Platão dormiu e a meio do sonho mais duro uma gaivota do tejo , aproximada aos vidros da janela, batia com o bico nos vidros enquanto uivava – frio frio frio platão não acordava e ainda assim a gaivota uivava Só de noite – mal despertou – platão reparou que na transparência da janela um fio de sangue secara A gaivota? Sócrates?

domingo, 4 de janeiro de 2009

Contos.4

dançaram leves e de olhos postos em pequenos objectos do palácio Foram subindo escadas numa conversa secreta e de vez em quando dando as mão sustendo a vontade de dançar mais alto: lá, no tecto esculpido, onde espíritos dormem Sim , naquele palácio são os espíritos que guiam Espíritos com vozes claríssimas E , no centro da dança, na sala do toucador real lá estava Ela a Rainha enlouquecida de que ninguém cuidou Foi quando pararam de dançar , se juntaram de ombro a ombro e a felicidade daquele momento ficou guardada no relicário dourado onde já ninguém entra

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Contos.3

24 de Dezembro de 2008 ainda lhe suavam as mãos de subir ofegante a escada do prédio quando descobriu que um grande gato amarelo tinha, sorrateiro, entrado pela porta a cozinha Travou-se ali, então, uma longa conversa entre platão e o gato Platão , assustado, pedia ao animal que abandonasse a casa o animal pedia a platão estadia Levaram uns quinze minutos nisto até que pelo cansaço o gato desistiu e saiu , agora rapidamente, pela frincha aberta por onde tinha entrado Á tarde platão tentou dormir mas aqueles felinos olhos cinzentos assombravam-lhe as horas de descanso – afinal podia ter ficado com ele, ao menos esta noite Voltou à porta podia ser que sócrates ainda por lá estivesse mas não, nem um rasto nas escadas traseiras Voltado à cama platão sentiu um frio de remorso Acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e pôs-se a escrever contando o encontro que tinha desprezado Finalmente um ser tinha vindo ao seu encontro e ele por impulso recusou-o Porquê? Porquê Desenhou um gato no caderno e pôs-lhe cores e patas grandes Desolado , numa última linha, escreveu: «hoje, nesta minha casa encontrei-me com sócrates com medo afugentei-o Nada a fazer»

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Centro Mário Dionísio - Ano Novo Vida Nova

A Associação Casa da Achada – Centro Mário Dionísio oferece às crianças da zona em que está sediada – e a todas as outras que queiram aparecer – papéis e lápis, no dia 31 de Dezembro às 16h, para pensarem a cores no Ano Novo Vida Nova durante a tarde do último dia do ano. A sessão, que terá lugar na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, actualmente em obras, na Rua da Achada 11B, em Lisboa, será orientada por Regina Guimarães, escritora, cineasta e uma das sócias fundadoras da Associação. Os desenhos ficarão expostos no local durante a tarde do 1º dia do ano, das 16h às 19h. O Centro Mário Dionísio encontra-se ainda em fase de instalação mas entendeu que era possível fazer esta iniciativa sem esperar pela sua abertura regular ao público, em dois dias mais livres do que outros. Valerá a pena recordar o valor que Mário Dionísio – escritor, pintor, crítico de arte, professor e pedagogo – atribuía às actividades artísticas na educação – de pequenos e grandes. A propósito de uma grande exposição de arte infantil «Lisboa vista pelas suas crianças», realizada há 60 anos – tempos sombrios – afirmou: A necessidade da prática da arte como elemento fundamental da educação mostra-se aqui com uma evidência irrecusável. (…) Esta bela exposição (…) marca, creio eu, ou poderia marcar, uma data importante na história do nosso conhecimento do homem e da arte, o que quer sempre dizer: rumos de verdadeira educação, de libertação, de felicidade.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Contos.2

Platão deitava-se Insone Olhos postos no tecto pelo corpo só os indispensáveis movimentos À sua direita uma telefonia e cigarros acumulados num mínimo cinzeiro Platão ficava noites seguidas assim: a ouvir, concentrado, os ruídos da rua : homens do lixo : cães ladrando ao longe : um ou outro gato rosnando em briga Por vezes , uma vizinha gritava com o marido Não Para platão as noites nunca eram iguais simplesmente nunca tinha sido ensinado a adormecer No telheiro da janela quando uma família de pombos despertava, platão sabia que chegara o momento de se erguer apanhado na emboscada de um sol que nasce de uma lua que se deixa apagar Já levantado seguia para mais um dia Dias de coração demasiado lento preso à vontade de à noite voltar e insone se deitar

sábado, 20 de dezembro de 2008

Contos.1

quando metia a chave à porta e recebia no rosto a chuva da escuridão de um vento de espaço vazio Platão sentia uma tontura vinda dos pés até lhe tomar a cabeça (assim como na guerra o inimigo toma em prisão o amigo desconhecido) Com medo Sem coragem platão avançava Primeiro com o pé esquerdo, depois, arrastando a perna , o direito, fazendo bater os calcanhares Ficava em esquadro já dentro do apartamento Fechada a porta demorava-se uns segundos no escuro Afinal era a magia possível para os seus dias Então acendia a vela , via iluminar-se o corredor e voltava a si – só – e com cuidado pendurava o sobretudo num cabide idoso junto a um relógio de pêndulo

O Livro dos Peixes

frederico.'., dez.2008 (águarela e tinta-da-china sobre papel)

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

poemas dispersos

presta atenção aos teus passos sente como as mãos te podem salvar olha uma última vez o sol no seu meridiano escolhe uma planta que te acompanhe Escreve , Escreve muito – Escreve tanto ...........quanto ................puderes e depois dorme um silêncio profundo acolhedor e maternal sentindo a terra a percorrer-te a pele quando acordares verás a lua a ocidente crescente e alva Abraça-a se o fizeres repararás como ela é pequena e carente: um corpo inanimado reflectindo a luz Uma Vez Mais Presta Atenção Aos Teus Passos observa como há tanto tempo caminhas em círculo dá agora um passo ao lado na tua marcha saído do redondo caminhar Abre a porta para outro teu encantar Nada há a perder Nada para encontrar só Luz e , talvez, por sorte, por desígnio um pássaro para te guiar

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

poemas dispersos

uma súbita face Branca no reflexo de um espelho oval – eis a minha aparência depois da invocação Proibida – : a Boca distorcida – Saliva escura : Olhos semi- ........-abertos , Mãos crispadas: um punhal! Com um único sopro cerrei três velas negras . já na Treva profunda recitei: «venite» «lux» «venite» «lux» «venite» «lux» e a Noite morreu em lua nova

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

poemas dispersos

27 de novembro de 2008 doce, Sentado sobre A pedra da cor dos goivos e dos colares de cleópatra, Romeu ouviu o Tiro As pernas tremeram como ossos desprendendo- -se da carne Sem chegar a sentir dor ou ferida aberta. asfixiado. caiu Romeu no trono

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

poemas dispersos

primeiro o sol depois devagar as flores – as aves – o canto sobre a mesa a caneta imóvel o papel sem curvas nem marcas ? o sol sim a percorrer-me os olhos e a cegá-los : ver como um cego : ouvir como um cego : tocar como um cego sobre a mesa a caneta imóvel e uma romã aberta uma seiva púrpura – o sol? sim! que fazia reflectir os frutos juntos na forma de coração único de uma romã ao fim de um tempo um fio-de-dor percorreu-me os cabelos , a testa, os polegares – aqui estou vivo-inerte a percorrer campos numa estreita ala de convento

terça-feira, 18 de novembro de 2008

luz! que desejamos para ti Irmão? luz! sob a grandiosa estrela d’alva cem anos fizeram o caminho … quantos pedreiros no centro da rosa? cruzes iluminadas brancos lenços sobre as pernas e na garganta um sinal de ordem luz! é o que desejamos para ti Irmão mas tantas vezes a treva se entrepõe . névoa que invade o ar que atravessa o templo no nevoeiro, de que serve o avental com que te revestes? é luz que queremos para ti Irmão que os três embates de malhete te relembrem que progrides aprendiz e quando levantares a espada incendiada , invocando a grande arquitectura universal, nada te espante que só tens um dever: proteger aqueles que como frágeis fios de luz preenchem as colunas

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

poemas dispersos

a toda a largura da mesa as flores e o inverno que elas trazem . chove há em mim um zumbido ansioso que me afasta da janela . recolho-me enfrento as cores e as folhas das flores e tenho medo da largura da mesa posso não voltar a ouvir flores nem ver zumbidos só sei que chove e nesta minha cadeira nada muda – acaba o dia não mais que isso – imagino a meu lado esta tarde uma grande lareira acesa onde dormisse

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

poemas dispersos

margem esquerda vê-se o mar – torres com bandeiras nos dedos contorcem-se teclas de piano vindas de fora num desencantamento de almas: margem direita estreitos veios de navegação cega mar e rio deambulando entre as margens quando um caixão se levanta trazendo dentro corpos de pedras e à noite pescadores musicais pescam ao som desenfreado das âncoras soando guitarras no extremo das canas

sábado, 25 de outubro de 2008

poemas dispersos

ele viu o Rio e os peixes contorcendo-se em curvas estreitas de Terra Pousou os cotovelos num imaginado colo maternal : Ele mesmo um peixe atormentado de marés fluviais....ou talvez uma rocha em sólida e precisa rota

domingo, 12 de outubro de 2008

poemas dispersos

caiu aos meus pés a âncora de um mínimo navio onde marinheiros nus rogavam pela salvação da terra e imploravam na aspereza do convés a devolução ao mar às águas que tinham conhecido Marinheiros nus implorando aos meus pés : solo indiano sem história – a minha coragem nada fiz – corpo inerte – com o meu fato negro apenas deixei cair a espada

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

poemas dispersos

da terra para o fogo da sepultura para a luz da treva para o globo solar .........deus viu e viu que era boa a obra criada levantou-se a criatura e andou Nas ruas foi visto e muito amado até que voou e já sem força nos membros caiu : vasto areal de cidades ........deus viu e viu que era boa a obra A cova trabalhada

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

poemas dispersos

onde nasce a tua fonte? Cava Cava Cava um lençol de água e sobre a tua capa desliza e passa o caracol sentado que te esmaga Vê depois os rios (que também são belos) E as flores (que não são menos) imagina pastores cheios de flautas Cava Cava Cava e sobre a Terra serás asa

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

poemas dispersos

olhos vermelhos Água quente de novo aquela Água quente : mãos coladas ao cabelo (um cofre numa ilha) olhos vermelhos engolindo letras ; palavras muito usadas e a noite aberta aos sons meticulosos dos cigarros Num lago de olhos vermelhos aquela Água quente como um cofre solitário ou dedos colados ao rosto

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

poemas dispersos

e desci ouvindo vozes Comentários ferozes e janelas a abrirem-se Os meus pés enrolaram-se nas mãos e por dentro das mãos um calor externo um lâmpada Houve quem dissesse que eram o s meus gritos vindos de uma garganta ausente Ardente Na retorta de deus: évora o athanor

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

poemas dispersos

nem olhos nem boca nem fogo nem sopro nem terra nem lágrima nem ouro nem poema nem cristo nem poeta nem pele nem sal nem marés – no coração do sutra perfeito só o amor rarefeito

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

poemas dispersos

resta-nos abrir a porta festejar os obreiros do céu sentir o corpo a de- com- pôr-se como um vento árabe e olhar a derrocada dos dias como se os dias pudessem ser olhados e os olhos capazes de olhar

terça-feira, 16 de setembro de 2008

poemas dispersos

e as chuvas não lavam as flores e os frutos entre os muros da cidade na lonjura das estrelas o abrigo das vozes maternais expandindo-se sobre os filhos areias devastadoras e nelas as pegadas salientes dos santos e iluminados pregadores as chuvas não respondem aos chamados dos feiticeiros animais e num grito último fogem para a inexistente floresta os gatos de um antiquíssimo egipto

domingo, 7 de setembro de 2008

poemas dispersos

talvez fosse uma gaivota… … era uma gaivota fazendo movimentos de gato por cima da cama num sono curto o mar a recordação dos comboios acendida a luz nada – paredes lisas si – lêncio sem sono pela janela um grito felino de gaivota

domingo, 17 de agosto de 2008

poemas dispersos

curvado a esta luz oiço e sinto gotas de relento caindo lá longe Nas cavernas dos suplícios Sei do que são feitas essas gotas mas calo não caberia a mim – profeta cego para o divino – levantar-me e correr e salvar do sacrifício aqueles que pelo choro da escrita nessa torre se encontram a Correntados estou frio miraculosamente, velho de menos andar é para mim um esforço maior do que cair Com a graça de deus (depois destas linhas terminadas e apoiado numa cana) acenarei em cruz ao arcanjo s. miguel lerei o jornal – isto já no café – e toda a memória do que ainda há momentos tinha invocado se dissipará em leite e pão praia das maçãs, agosto de 2008

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

poemas dispersos

ainda trago um fio de sangue na roupa , limões num saco Ligeiro corte na podagem Acreditei que a luz do sol me ajudaria a enxergar os veios dos ramos o local certo da incisão Ao contrário ofuscou-me o grito do astro e caí com letra no papel já no chão vi um gato no céu em forma de nuvem e na terra muitos espinhos de rosa que apesar de cravados não me magoaram Conseguia levantar-me estava bem mas desejei estar melhor e ali fiquei caído ferido mas deslumbrado com um céu imenso escarlate de nuvens azuis e limões espalhados ao redor da cabeça – amarelos um amarelo definitivo só Agora me ergui e depois de ter recolhido os limões regresso a casa vejo-me ao espelho estou mais leve a cara cortada de chicote fez-me despertar os olhos o sangue caligrafou um olho na camisa tudo está certo e maravilhosamente perfeito praia das maças, agosto de 2008-09-14

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

poemas dispersos

dE noite ainda se ouvia o mar ou talvez fossem os pinheiros na memória ossoS :um crânio com um esplêndido orifício durante o sono surgiram imagens de areia e sapatos junto Às flores a infante sepultura do teu nome praia das maçãs, agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

poemas dispersos

depois de uma palavra um gesto subtil de uma suposta carícia nem rosas se revelaram na noite de chuva nada de verdadeiro já na rua procuro a tabacaria o tabaco desfazendo-se em fumo acalma as cores agressivas à volta tudo falso – salva-se o silêncio: o cansaço das horas seguintes ouvindo poemas – na noite sonho confuso com um barco sem tripulação implacável navegando

sábado, 26 de julho de 2008

poemas dispersos

quase agosto um dia de chuva bastou : dois corvos pousaram tranquilos sobre as torres da fábrica dois-grandes-corvos-quase-violeta os operários saíram num ensejo sonhador de os ver – ¿há quantas décadas os corvos não se aproximavam da cidade? quase meio-dia… à hora certa as sirenes gritaram marcando a pausa para o almoço mas a fábrica já estava vazia no terreiro do estacionamento três centenas de operários tinham antecipado a pausa para saudarem dois corvos quase violeta

sexta-feira, 18 de julho de 2008

poemas dispersos

lia romances – extensos romances lia lia romances – extensos romances em fundo azul letras verticais e oblíquas frases em erupção depois dormia deixando acesa uma suave luz amarela e um gato a cobrir-lhe os pés nos sonhos lia relembrava os romances transformando-os em versos delicados momentos de voo no centro da noite lia lia romances – extensos romances

domingo, 6 de julho de 2008

poemas dispersos

viu-se de relâmpago e era negra e como se uma chave fosse uma chave foi abrindo a porta do grande palácio das buganvílias e dos loendros lá dentro sobre um pavimento de mosaicos brancos e negros duas colunas suportavam sem esforço um globo celeste e outro terrestre duas esferas romãs abertas e expostas à sua multitude era uma espada de ferro quente ondulada : flamejante – a invocadora de todos os sortilégios entre colunas – onde reinava o silêncio ,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui não haverá espaço para a defesa porque não haverá espaço para o ataque» nisto uma bicéfala águia branca pousou sobre a coroa do trono e no tecto do palácio se escreveu num ouro muito azul: «ordo ab chao»

poemas dispersos

pelas ruas caminham ainda Gaivotas e outros animais de nome desconhecidos: ¿gente perdida? – numa montra um vestido Branco perfeito – luminoso pelas ruas caminham ainda Flores silvestres odores ignorados jardins sem rosto lagos sem rosto paisagens distorcidas pelas ruas caminha ainda um vestido Branco perfeito – luminoso

poemas dispersos

um dia – se me tornar mesmo peregrino – encontrarei as tuas pegadas junto ao rio que escolheste e aí ficarei a contemplá-las parado ouvindo as águas respirando o oxigénio das ár vores gigantes :os corvos

domingo, 22 de junho de 2008

poemas dispersos

procurem nas montanhas as pegadas dos cavalos brancos e humanos do grande apocalipse procurem no deserto as águas frescas dos oceanos que ascenderam aos céus procurem as pedras preciosas ocultas no centro da terra – e quando estiverem deslumbrados sintam-se perdidos e desiludidos pois tudo o que encontraram mais não foi que desgosto e iludida alegria

terça-feira, 10 de junho de 2008

poemas dispersos

mar e príncipes-perfeitos a falésia – pináculo de catedral ouvem-se as vozes do coro Requiem para sempre um Requiem de ondas e cardos :a leve brisa a que chamam primavera quando É primavera ou outono quando É outono mar e princesas descalças no pinhal do outeiro muda-se a roupa ergue-se a voz a mesma que ainda agora se ouvia lá atrás no coro da igreja nua e a toda a volta a cauda de uma Sereia

sábado, 7 de junho de 2008

poemas dispersos

vinham e falavam crioulo manchavam a terra e sabiam enterrado o esposo havia crianças e laços na cabeça prematuras esperanças e pelo meio um louco deitavam cartas e olhos verdes gritavam um hino vermelho vomitando a gaguez e de cada vez é de vez vêm às dúzias num comboio há crianças uma a uma de-cada-vez deitam cartas e olhos verdes vomitando a palidez na carruagem cantam um hino vermelho para dentro de um aparelho português

quinta-feira, 5 de junho de 2008

poemas dispersos

numa minúscula árvore brotou um fonema :o tema e por extenso o fruto nos ramos viram-se pássaros e uivos caíram plumas e a çu-ce-nas – primeiro acto pacto o peixe o ovo e qualquer coisa de lácteo numa minúscula árvore acesa derramaram-se os versos do último poema verteram-se as marés as areias :o pólo norte desfigurado por antenas

terça-feira, 27 de maio de 2008

poemas dispersos

encontrei-me contigo num jardim de verão onde chovia vi-te primeiro estavas leve abençoada e clara viste-me a seguir cor-de-rosa como uma flor japonesa de antiquíssima lembrança rezámos junto ao lago concentrados nos peixes e nas folhas rezámos a tudo a quanto um ser pode rezar até que um de nós já não me lembro qual tirou o revólver e disparou sobre o outro caímos de semblante sereno sobre a terra deixando que os pássaros nos cantassem é bom lembrar a nossa morte sobretudo porque nesse dia estávamos lá os dois e aquele tiro nos eternizou foi a primeira vez que sorrimos com a calma e a tranquilidade dos grandes poetas

segunda-feira, 26 de maio de 2008

poemas dispersos

fechou-se o palco com um actor lá dentro fecharam-se as cadeiras as luzes os alfabéticos-pirilampos baixou o lustre com os grandes e os pequenos cristais de quartzo correu a cortina de ferro fechou-se o palco com um actor lá dentro nesta casca de ovo o actor respirou enfim por fim até ao fim e silenciou-se numa espécie de chão e madeira lembro assim o actor que foste e as horas que passo sem ti hoje dia em que também estou fechado no ovo respiro o fumo que deixaste do último cigarro e é de um corpo triste e derrotado que faço a minha vitória

domingo, 25 de maio de 2008

poemas dispersos

na mansarda em frente ao café há rosas-de-santa-teresinha no campo aqui mesmo ao lado os pastos ficam vermelhos de flores e outros pequenos milagres ver a beleza destes dias é ver simplesmente é tornar os olhos mais lentos arrastar as palavras descobrir na retorta do alquimista o sucesso que elevará o chumbo a ouro amanhã choverá outra vez até talvez já esta noite e a beleza solsticial esconder-se-á como numa concha se escondem anéis e sem palavras os pastos voltarão a ficar verdes só os alquimistas continuarão o labor no seio do athanor, as rosas

sábado, 24 de maio de 2008

poemas dispersos

a chuva que cai não é chuva que cai há mastros que se inclinam e escotilhas e abelhas a toda a roda a vegetação adensa-se aqui e ali e os poetas que cantam isto também não são poetas porque se fossem poetas só olhariam a chuva que cai os mastros que se inclinam e as escotilhas por onde as abelhas querem passar da mesma maneira estes dias mais longos de uma primavera húmida e sem vento não são os dias longos de uma primavera húmida e sem vento nem o amor que se sente é amor se fosse amor era só amor e não um amor que se sente tudo é uma réplica da verdadeira condição de se ser natural e poeta no veio longo e lúcido – estranhamente lúcido – de uma rocha que uma vez escalada nos abriria a porta das cavernas douradas onde na realidade nunca fomos

quarta-feira, 21 de maio de 2008

poemas dispersos

o vulcão sopra mesmo ali junto à fonte é um vulcão simples de asas justas e cauda de noiva quando estremece toda a terra vibra e ao vibrar encontra mais uma pedra oculta dos antigos magos depois há os petroleiros e as suas grossas amarras os frutos secos da pastelaria a mulher gorda de outrora que os engolia em habilidades de circo e de poema a fonte essa não se mexe é demasiado humana para se dar a tais luxos deita água quando é preciso e no repuxo máximo até o vulcão parece pequeno de santa-apolónia partem os trens para frança e para espanha e os gritos das aves parece tão mais vivo quanto mais alto o voo e a vontade de pescar o vulcão não é nada neste bairro porque o estremecimento que provoca com as suas erupções não corrompem o andar de ninguém nem ninguém se preocupa com pedras ocultas tudo ali é o que parece menos o vulcão que sendo um vulcão nem se consegue fazer comparar à descarga de um navio ou à chuva dos dias negros

segunda-feira, 19 de maio de 2008

poemas dispersos

roma paris berlim trieste moscovo toda a ásia desertos de areia desertos de gente céus encobertos – rios encobertos nevoeiros rasteiros cães nadando nas enxurradas d’água «cães de barcelona» - o meu anel de lis no fundo de um lago os sinos e os monges roma paris trieste moscovo comboios de gente – lisboa nove e quarenta e cinco da manhã passa pesado o metropolitano rua do arsenal – tejo rua do arsenal – armas pela república num dia rua do arsenal – armas por abril noutro são dez horas da manhã o sol fez-se redondo e chuvoso são dez e três – centro da cidade – birmânia

domingo, 18 de maio de 2008

poemas dispersos

procurei que as coisas acontecessem procurei no céu olhares misteriosos e na terra o sabor sereno dos diospiros plantei algumas árvores e desenhei e escrevi e pintei terá sido em vão porque não se procura nada nos céus nem na terra porque de nada vale o sabor de um fruto ou um desenho um vocábulo uma cor ainda assim quando não esperava encontrei uma pequena esfera no chão desconheço o seu uso mas trago-a na mão

sábado, 17 de maio de 2008

poemas dispersos

é um outro jogo : uma poeira azul espalha-se por toda a parte entranha-se na pele e nos ossos basta um movimento errado basta um movimento basta não se estar a dormir as regras são precisas infalíveis – dolorosas um pensamento a mais e fecha-se o mar contrai-se o rio e os navios morrem na sua embaixada

sexta-feira, 16 de maio de 2008

poemas dispersos

aqui tão preso à criatura que os meus olhos cegos vêem fico incapaz de qualquer movimento criador sou – também eu – só criatura Nisto o cavalo salta branco como as pedras do deserto Estremeço , reparo-me cansado demais para o acompanhar.........;o desejo adormece e a bela criatura depois do salto corre em direcção às folhas dos canteiros hei-nos no coração da Metrópole

quinta-feira, 15 de maio de 2008

poemas dispersos

confundem-se árvores cai água desamparada mente sobre os troncos as folhas rebentam nas copas «chove» está-se sozinho num bosque transfigurado em plena cidade – sem uma palavra alguém – uma mão – é num café que acendo só mais um cigarro

poemas dispersos

confundem-se árvores cai água desamparada mente sobre os troncos as folhas rebentam nas copas «chove» está-se sozinho num bosque transfigurado em plena cidade – sem uma palavra alguém – uma mão – é num café que acendo só mais um cigarro

quarta-feira, 14 de maio de 2008

poemas dispersos

sei que existo – sinto pernas e olhos: os dedos mexem … mas, à minha volta , tudo está corajosamente congelado menos os Pássaros que também existem e devem sentir as pernas e as penas e os olhos, a rodarem nas órbitas – por isso os procuro – mas não , não encontro Pássaros ao olhar ouço-Os, mas não os vejo quando encaro o alto diante de mim só vejo um lastro quente de sangue negro

terça-feira, 13 de maio de 2008

poemas dispersos

13 de maio de 2008 – dia da mãe do mundo na ternura perdida das mães reside a dureza real dos filhos que como sereias encantam marinheiros e soldados chamando-os para uma revolução sem princípio nem fim sem mares onde naveguem corvetas da guerra dos anjos e das rosas imaculadas mães que justas na produção dos filhos os envolvem numa placenta de veneno e sol e lhes dão vida para que morram depois os filhos santificam essas mães procurando ser o os seus amantes distantes e gritantes filhos mortos de mães mortas e a vida a florescer em naves de água pura e em frechas de rocha onde alguns se escondem mães cruéis na criação dos filhos mães sem olhar sem cheiro sem terra a que pertençam quando sepultadas, filhos translúcidos num colectivo enforcamento de sonhos

segunda-feira, 12 de maio de 2008

poemas dispersos

os antigos guerreiros traziam nas suas armaduras cruzes de prata pintadas de escarlate e erguiam sobre as cabeças elmos em chama cavalgavam sobre campos d esconhecidos: bosques, desertos ,gigantescos lagos e ainda assim nada os detinha – nenhum vento apagava a tocha que lhes indicava a senda – um dia perderam o tesouro que os mantinha vivos uma arca de vitral onde guardavam as relíquias sagradas da deusa a deusa de todos os deuses as armaduras caíram por terra os elmos fizeram-se água mas as cruzes escarlate continuam enterradas nas campas brilhando sempre que o sol se põe tentando salvar os poucos peregrinos que ainda p ro curam a rainha-santa

poemas dispersos

os poemas já não chegam nem as palavras – nem os pequenos vocábulos antes cheios de sonho falta tudo :fadas, elfos, os grandes sábios faltam os doces olhares dos dragões a plenitude das mães até o desespero dos dias antigos e não são coisas que se possam procurar … dantes os navios passavam junto à minha rua e era ao som desses sinos de catedral que sonhava começar um dia bebendo do rio o frio e a vontade de chorar nesses dias choviam cartas – «o espanto» de que falavam o s livros de ponty – ¿para que os terá escrito ele? sabendo de antemão que da caverna primeira nenhum sinal chegaria, nem eco, nem amor – os poemas já não chegam a quimera partiu e com ela as anões, os gigantes, os ogres, afinal todos os deuses de um astral amoroso e natural. ei-nos sós neste pedaço enquadrado de cores brancas cores perdidas em telas perdidas e o homem anda, soluça conta tostões sobre a mesa esperando que por debaixo dela uma fada de olhos claros se aventurasse a pegar-lhe na mão e elevando os olhos o fizesse adejar … mas os poemas morreram com os poetas (vem-me agora à cabeça a música dos versos de herberto) … nesta noite, subitamente (enquanto escrevo) ouço na rua um animal uma besta que se esfrega para encontrar comida antes isso – digo em voz alta – que andar rastejando debaixo de uma mesa numa procura cega por um espírito da natureza que sei, com certeza, ausente invisível. mesmo morto. antes a besta que a lira de herberto ;os navios do rio ;os espantos nos sinais de ponty não. os poemas já não chegam estamos abençoadamente próximos do fim

sábado, 10 de maio de 2008

poemas dispersos

são páginas de calendário só páginas de calendário centenas de milhar números pequenas notas nomes de gente de um dia – iniciais – pequenos recortes mal colados … deve haver mais alguma coisa tem de haver qualquer coisa brilhante sonora: um corcel

sexta-feira, 9 de maio de 2008

poemas dispersos

sentado num moinho feito trono espero um cavaleiro tenho as pernas recolhidas o torso tenso e revolto corujas circulam no telhado estarão assim toda a noite? cúmplices e raras aves há estrelas uma linha de lua sentado num moinho feito trono adormeço

quinta-feira, 8 de maio de 2008

poemas dispersos

um primeiro dia algumas cores o cavalo que corre o bispo avança no xadrez tantos rostos peões à volta do campo de batalha numa cerca verde nascem livres flores-do-deserto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

poemas dispersos

perfiladas de negro as bandeiras as nossas bandeiras e os ratos a cantar a cantar os hinos os nossos hinos – nas praças nas nossas praças e os gatos a adorar a adorar pobre bomba a rebentar poetas sem sabor num pedaço de pão carne a apodrecer e nem um tiro de canhão

domingo, 4 de maio de 2008

poemas dispersos

talvez o barco se tivesse virado ou o mar se tivesse virado qualquer coisa ficou fora da órbita de repente um aperto forte e as veias torcendo-se em choro – uma contracção no peito tremor nas pernas até que ao longe as gaivotas planaram de novo com doçura e tudo ficou calmo – o barco – e o oceano na sua transparência