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terça-feira, 18 de novembro de 2008

luz! que desejamos para ti Irmão? luz! sob a grandiosa estrela d’alva cem anos fizeram o caminho … quantos pedreiros no centro da rosa? cruzes iluminadas brancos lenços sobre as pernas e na garganta um sinal de ordem luz! é o que desejamos para ti Irmão mas tantas vezes a treva se entrepõe . névoa que invade o ar que atravessa o templo no nevoeiro, de que serve o avental com que te revestes? é luz que queremos para ti Irmão que os três embates de malhete te relembrem que progrides aprendiz e quando levantares a espada incendiada , invocando a grande arquitectura universal, nada te espante que só tens um dever: proteger aqueles que como frágeis fios de luz preenchem as colunas

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

poemas dispersos

a toda a largura da mesa as flores e o inverno que elas trazem . chove há em mim um zumbido ansioso que me afasta da janela . recolho-me enfrento as cores e as folhas das flores e tenho medo da largura da mesa posso não voltar a ouvir flores nem ver zumbidos só sei que chove e nesta minha cadeira nada muda – acaba o dia não mais que isso – imagino a meu lado esta tarde uma grande lareira acesa onde dormisse

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

poemas dispersos

margem esquerda vê-se o mar – torres com bandeiras nos dedos contorcem-se teclas de piano vindas de fora num desencantamento de almas: margem direita estreitos veios de navegação cega mar e rio deambulando entre as margens quando um caixão se levanta trazendo dentro corpos de pedras e à noite pescadores musicais pescam ao som desenfreado das âncoras soando guitarras no extremo das canas

sábado, 25 de outubro de 2008

poemas dispersos

ele viu o Rio e os peixes contorcendo-se em curvas estreitas de Terra Pousou os cotovelos num imaginado colo maternal : Ele mesmo um peixe atormentado de marés fluviais....ou talvez uma rocha em sólida e precisa rota

domingo, 12 de outubro de 2008

poemas dispersos

caiu aos meus pés a âncora de um mínimo navio onde marinheiros nus rogavam pela salvação da terra e imploravam na aspereza do convés a devolução ao mar às águas que tinham conhecido Marinheiros nus implorando aos meus pés : solo indiano sem história – a minha coragem nada fiz – corpo inerte – com o meu fato negro apenas deixei cair a espada

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

poemas dispersos

da terra para o fogo da sepultura para a luz da treva para o globo solar .........deus viu e viu que era boa a obra criada levantou-se a criatura e andou Nas ruas foi visto e muito amado até que voou e já sem força nos membros caiu : vasto areal de cidades ........deus viu e viu que era boa a obra A cova trabalhada

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

poemas dispersos

onde nasce a tua fonte? Cava Cava Cava um lençol de água e sobre a tua capa desliza e passa o caracol sentado que te esmaga Vê depois os rios (que também são belos) E as flores (que não são menos) imagina pastores cheios de flautas Cava Cava Cava e sobre a Terra serás asa

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

poemas dispersos

olhos vermelhos Água quente de novo aquela Água quente : mãos coladas ao cabelo (um cofre numa ilha) olhos vermelhos engolindo letras ; palavras muito usadas e a noite aberta aos sons meticulosos dos cigarros Num lago de olhos vermelhos aquela Água quente como um cofre solitário ou dedos colados ao rosto

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

poemas dispersos

e desci ouvindo vozes Comentários ferozes e janelas a abrirem-se Os meus pés enrolaram-se nas mãos e por dentro das mãos um calor externo um lâmpada Houve quem dissesse que eram o s meus gritos vindos de uma garganta ausente Ardente Na retorta de deus: évora o athanor

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

poemas dispersos

nem olhos nem boca nem fogo nem sopro nem terra nem lágrima nem ouro nem poema nem cristo nem poeta nem pele nem sal nem marés – no coração do sutra perfeito só o amor rarefeito

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

poemas dispersos

resta-nos abrir a porta festejar os obreiros do céu sentir o corpo a de- com- pôr-se como um vento árabe e olhar a derrocada dos dias como se os dias pudessem ser olhados e os olhos capazes de olhar

terça-feira, 16 de setembro de 2008

poemas dispersos

e as chuvas não lavam as flores e os frutos entre os muros da cidade na lonjura das estrelas o abrigo das vozes maternais expandindo-se sobre os filhos areias devastadoras e nelas as pegadas salientes dos santos e iluminados pregadores as chuvas não respondem aos chamados dos feiticeiros animais e num grito último fogem para a inexistente floresta os gatos de um antiquíssimo egipto

domingo, 7 de setembro de 2008

poemas dispersos

talvez fosse uma gaivota… … era uma gaivota fazendo movimentos de gato por cima da cama num sono curto o mar a recordação dos comboios acendida a luz nada – paredes lisas si – lêncio sem sono pela janela um grito felino de gaivota

domingo, 17 de agosto de 2008

poemas dispersos

curvado a esta luz oiço e sinto gotas de relento caindo lá longe Nas cavernas dos suplícios Sei do que são feitas essas gotas mas calo não caberia a mim – profeta cego para o divino – levantar-me e correr e salvar do sacrifício aqueles que pelo choro da escrita nessa torre se encontram a Correntados estou frio miraculosamente, velho de menos andar é para mim um esforço maior do que cair Com a graça de deus (depois destas linhas terminadas e apoiado numa cana) acenarei em cruz ao arcanjo s. miguel lerei o jornal – isto já no café – e toda a memória do que ainda há momentos tinha invocado se dissipará em leite e pão praia das maçãs, agosto de 2008

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

poemas dispersos

ainda trago um fio de sangue na roupa , limões num saco Ligeiro corte na podagem Acreditei que a luz do sol me ajudaria a enxergar os veios dos ramos o local certo da incisão Ao contrário ofuscou-me o grito do astro e caí com letra no papel já no chão vi um gato no céu em forma de nuvem e na terra muitos espinhos de rosa que apesar de cravados não me magoaram Conseguia levantar-me estava bem mas desejei estar melhor e ali fiquei caído ferido mas deslumbrado com um céu imenso escarlate de nuvens azuis e limões espalhados ao redor da cabeça – amarelos um amarelo definitivo só Agora me ergui e depois de ter recolhido os limões regresso a casa vejo-me ao espelho estou mais leve a cara cortada de chicote fez-me despertar os olhos o sangue caligrafou um olho na camisa tudo está certo e maravilhosamente perfeito praia das maças, agosto de 2008-09-14

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

poemas dispersos

dE noite ainda se ouvia o mar ou talvez fossem os pinheiros na memória ossoS :um crânio com um esplêndido orifício durante o sono surgiram imagens de areia e sapatos junto Às flores a infante sepultura do teu nome praia das maçãs, agosto de 2008

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

poemas dispersos

depois de uma palavra um gesto subtil de uma suposta carícia nem rosas se revelaram na noite de chuva nada de verdadeiro já na rua procuro a tabacaria o tabaco desfazendo-se em fumo acalma as cores agressivas à volta tudo falso – salva-se o silêncio: o cansaço das horas seguintes ouvindo poemas – na noite sonho confuso com um barco sem tripulação implacável navegando

sábado, 26 de julho de 2008

poemas dispersos

quase agosto um dia de chuva bastou : dois corvos pousaram tranquilos sobre as torres da fábrica dois-grandes-corvos-quase-violeta os operários saíram num ensejo sonhador de os ver – ¿há quantas décadas os corvos não se aproximavam da cidade? quase meio-dia… à hora certa as sirenes gritaram marcando a pausa para o almoço mas a fábrica já estava vazia no terreiro do estacionamento três centenas de operários tinham antecipado a pausa para saudarem dois corvos quase violeta

sexta-feira, 18 de julho de 2008

poemas dispersos

lia romances – extensos romances lia lia romances – extensos romances em fundo azul letras verticais e oblíquas frases em erupção depois dormia deixando acesa uma suave luz amarela e um gato a cobrir-lhe os pés nos sonhos lia relembrava os romances transformando-os em versos delicados momentos de voo no centro da noite lia lia romances – extensos romances

domingo, 6 de julho de 2008

poemas dispersos

viu-se de relâmpago e era negra e como se uma chave fosse uma chave foi abrindo a porta do grande palácio das buganvílias e dos loendros lá dentro sobre um pavimento de mosaicos brancos e negros duas colunas suportavam sem esforço um globo celeste e outro terrestre duas esferas romãs abertas e expostas à sua multitude era uma espada de ferro quente ondulada : flamejante – a invocadora de todos os sortilégios entre colunas – onde reinava o silêncio ,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui não haverá espaço para a defesa porque não haverá espaço para o ataque» nisto uma bicéfala águia branca pousou sobre a coroa do trono e no tecto do palácio se escreveu num ouro muito azul: «ordo ab chao»

poemas dispersos

pelas ruas caminham ainda Gaivotas e outros animais de nome desconhecidos: ¿gente perdida? – numa montra um vestido Branco perfeito – luminoso pelas ruas caminham ainda Flores silvestres odores ignorados jardins sem rosto lagos sem rosto paisagens distorcidas pelas ruas caminha ainda um vestido Branco perfeito – luminoso

poemas dispersos

um dia – se me tornar mesmo peregrino – encontrarei as tuas pegadas junto ao rio que escolheste e aí ficarei a contemplá-las parado ouvindo as águas respirando o oxigénio das ár vores gigantes :os corvos

domingo, 22 de junho de 2008

poemas dispersos

procurem nas montanhas as pegadas dos cavalos brancos e humanos do grande apocalipse procurem no deserto as águas frescas dos oceanos que ascenderam aos céus procurem as pedras preciosas ocultas no centro da terra – e quando estiverem deslumbrados sintam-se perdidos e desiludidos pois tudo o que encontraram mais não foi que desgosto e iludida alegria

terça-feira, 10 de junho de 2008

poemas dispersos

mar e príncipes-perfeitos a falésia – pináculo de catedral ouvem-se as vozes do coro Requiem para sempre um Requiem de ondas e cardos :a leve brisa a que chamam primavera quando É primavera ou outono quando É outono mar e princesas descalças no pinhal do outeiro muda-se a roupa ergue-se a voz a mesma que ainda agora se ouvia lá atrás no coro da igreja nua e a toda a volta a cauda de uma Sereia

sábado, 7 de junho de 2008

poemas dispersos

vinham e falavam crioulo manchavam a terra e sabiam enterrado o esposo havia crianças e laços na cabeça prematuras esperanças e pelo meio um louco deitavam cartas e olhos verdes gritavam um hino vermelho vomitando a gaguez e de cada vez é de vez vêm às dúzias num comboio há crianças uma a uma de-cada-vez deitam cartas e olhos verdes vomitando a palidez na carruagem cantam um hino vermelho para dentro de um aparelho português

quinta-feira, 5 de junho de 2008

poemas dispersos

numa minúscula árvore brotou um fonema :o tema e por extenso o fruto nos ramos viram-se pássaros e uivos caíram plumas e a çu-ce-nas – primeiro acto pacto o peixe o ovo e qualquer coisa de lácteo numa minúscula árvore acesa derramaram-se os versos do último poema verteram-se as marés as areias :o pólo norte desfigurado por antenas

terça-feira, 27 de maio de 2008

poemas dispersos

encontrei-me contigo num jardim de verão onde chovia vi-te primeiro estavas leve abençoada e clara viste-me a seguir cor-de-rosa como uma flor japonesa de antiquíssima lembrança rezámos junto ao lago concentrados nos peixes e nas folhas rezámos a tudo a quanto um ser pode rezar até que um de nós já não me lembro qual tirou o revólver e disparou sobre o outro caímos de semblante sereno sobre a terra deixando que os pássaros nos cantassem é bom lembrar a nossa morte sobretudo porque nesse dia estávamos lá os dois e aquele tiro nos eternizou foi a primeira vez que sorrimos com a calma e a tranquilidade dos grandes poetas

segunda-feira, 26 de maio de 2008

poemas dispersos

fechou-se o palco com um actor lá dentro fecharam-se as cadeiras as luzes os alfabéticos-pirilampos baixou o lustre com os grandes e os pequenos cristais de quartzo correu a cortina de ferro fechou-se o palco com um actor lá dentro nesta casca de ovo o actor respirou enfim por fim até ao fim e silenciou-se numa espécie de chão e madeira lembro assim o actor que foste e as horas que passo sem ti hoje dia em que também estou fechado no ovo respiro o fumo que deixaste do último cigarro e é de um corpo triste e derrotado que faço a minha vitória

domingo, 25 de maio de 2008

poemas dispersos

na mansarda em frente ao café há rosas-de-santa-teresinha no campo aqui mesmo ao lado os pastos ficam vermelhos de flores e outros pequenos milagres ver a beleza destes dias é ver simplesmente é tornar os olhos mais lentos arrastar as palavras descobrir na retorta do alquimista o sucesso que elevará o chumbo a ouro amanhã choverá outra vez até talvez já esta noite e a beleza solsticial esconder-se-á como numa concha se escondem anéis e sem palavras os pastos voltarão a ficar verdes só os alquimistas continuarão o labor no seio do athanor, as rosas

sábado, 24 de maio de 2008

poemas dispersos

a chuva que cai não é chuva que cai há mastros que se inclinam e escotilhas e abelhas a toda a roda a vegetação adensa-se aqui e ali e os poetas que cantam isto também não são poetas porque se fossem poetas só olhariam a chuva que cai os mastros que se inclinam e as escotilhas por onde as abelhas querem passar da mesma maneira estes dias mais longos de uma primavera húmida e sem vento não são os dias longos de uma primavera húmida e sem vento nem o amor que se sente é amor se fosse amor era só amor e não um amor que se sente tudo é uma réplica da verdadeira condição de se ser natural e poeta no veio longo e lúcido – estranhamente lúcido – de uma rocha que uma vez escalada nos abriria a porta das cavernas douradas onde na realidade nunca fomos

quarta-feira, 21 de maio de 2008

poemas dispersos

o vulcão sopra mesmo ali junto à fonte é um vulcão simples de asas justas e cauda de noiva quando estremece toda a terra vibra e ao vibrar encontra mais uma pedra oculta dos antigos magos depois há os petroleiros e as suas grossas amarras os frutos secos da pastelaria a mulher gorda de outrora que os engolia em habilidades de circo e de poema a fonte essa não se mexe é demasiado humana para se dar a tais luxos deita água quando é preciso e no repuxo máximo até o vulcão parece pequeno de santa-apolónia partem os trens para frança e para espanha e os gritos das aves parece tão mais vivo quanto mais alto o voo e a vontade de pescar o vulcão não é nada neste bairro porque o estremecimento que provoca com as suas erupções não corrompem o andar de ninguém nem ninguém se preocupa com pedras ocultas tudo ali é o que parece menos o vulcão que sendo um vulcão nem se consegue fazer comparar à descarga de um navio ou à chuva dos dias negros

segunda-feira, 19 de maio de 2008

poemas dispersos

roma paris berlim trieste moscovo toda a ásia desertos de areia desertos de gente céus encobertos – rios encobertos nevoeiros rasteiros cães nadando nas enxurradas d’água «cães de barcelona» - o meu anel de lis no fundo de um lago os sinos e os monges roma paris trieste moscovo comboios de gente – lisboa nove e quarenta e cinco da manhã passa pesado o metropolitano rua do arsenal – tejo rua do arsenal – armas pela república num dia rua do arsenal – armas por abril noutro são dez horas da manhã o sol fez-se redondo e chuvoso são dez e três – centro da cidade – birmânia

domingo, 18 de maio de 2008

poemas dispersos

procurei que as coisas acontecessem procurei no céu olhares misteriosos e na terra o sabor sereno dos diospiros plantei algumas árvores e desenhei e escrevi e pintei terá sido em vão porque não se procura nada nos céus nem na terra porque de nada vale o sabor de um fruto ou um desenho um vocábulo uma cor ainda assim quando não esperava encontrei uma pequena esfera no chão desconheço o seu uso mas trago-a na mão

sábado, 17 de maio de 2008

poemas dispersos

é um outro jogo : uma poeira azul espalha-se por toda a parte entranha-se na pele e nos ossos basta um movimento errado basta um movimento basta não se estar a dormir as regras são precisas infalíveis – dolorosas um pensamento a mais e fecha-se o mar contrai-se o rio e os navios morrem na sua embaixada

sexta-feira, 16 de maio de 2008

poemas dispersos

aqui tão preso à criatura que os meus olhos cegos vêem fico incapaz de qualquer movimento criador sou – também eu – só criatura Nisto o cavalo salta branco como as pedras do deserto Estremeço , reparo-me cansado demais para o acompanhar.........;o desejo adormece e a bela criatura depois do salto corre em direcção às folhas dos canteiros hei-nos no coração da Metrópole

quinta-feira, 15 de maio de 2008

poemas dispersos

confundem-se árvores cai água desamparada mente sobre os troncos as folhas rebentam nas copas «chove» está-se sozinho num bosque transfigurado em plena cidade – sem uma palavra alguém – uma mão – é num café que acendo só mais um cigarro

poemas dispersos

confundem-se árvores cai água desamparada mente sobre os troncos as folhas rebentam nas copas «chove» está-se sozinho num bosque transfigurado em plena cidade – sem uma palavra alguém – uma mão – é num café que acendo só mais um cigarro

quarta-feira, 14 de maio de 2008

poemas dispersos

sei que existo – sinto pernas e olhos: os dedos mexem … mas, à minha volta , tudo está corajosamente congelado menos os Pássaros que também existem e devem sentir as pernas e as penas e os olhos, a rodarem nas órbitas – por isso os procuro – mas não , não encontro Pássaros ao olhar ouço-Os, mas não os vejo quando encaro o alto diante de mim só vejo um lastro quente de sangue negro

terça-feira, 13 de maio de 2008

poemas dispersos

13 de maio de 2008 – dia da mãe do mundo na ternura perdida das mães reside a dureza real dos filhos que como sereias encantam marinheiros e soldados chamando-os para uma revolução sem princípio nem fim sem mares onde naveguem corvetas da guerra dos anjos e das rosas imaculadas mães que justas na produção dos filhos os envolvem numa placenta de veneno e sol e lhes dão vida para que morram depois os filhos santificam essas mães procurando ser o os seus amantes distantes e gritantes filhos mortos de mães mortas e a vida a florescer em naves de água pura e em frechas de rocha onde alguns se escondem mães cruéis na criação dos filhos mães sem olhar sem cheiro sem terra a que pertençam quando sepultadas, filhos translúcidos num colectivo enforcamento de sonhos

segunda-feira, 12 de maio de 2008

poemas dispersos

os antigos guerreiros traziam nas suas armaduras cruzes de prata pintadas de escarlate e erguiam sobre as cabeças elmos em chama cavalgavam sobre campos d esconhecidos: bosques, desertos ,gigantescos lagos e ainda assim nada os detinha – nenhum vento apagava a tocha que lhes indicava a senda – um dia perderam o tesouro que os mantinha vivos uma arca de vitral onde guardavam as relíquias sagradas da deusa a deusa de todos os deuses as armaduras caíram por terra os elmos fizeram-se água mas as cruzes escarlate continuam enterradas nas campas brilhando sempre que o sol se põe tentando salvar os poucos peregrinos que ainda p ro curam a rainha-santa

poemas dispersos

os poemas já não chegam nem as palavras – nem os pequenos vocábulos antes cheios de sonho falta tudo :fadas, elfos, os grandes sábios faltam os doces olhares dos dragões a plenitude das mães até o desespero dos dias antigos e não são coisas que se possam procurar … dantes os navios passavam junto à minha rua e era ao som desses sinos de catedral que sonhava começar um dia bebendo do rio o frio e a vontade de chorar nesses dias choviam cartas – «o espanto» de que falavam o s livros de ponty – ¿para que os terá escrito ele? sabendo de antemão que da caverna primeira nenhum sinal chegaria, nem eco, nem amor – os poemas já não chegam a quimera partiu e com ela as anões, os gigantes, os ogres, afinal todos os deuses de um astral amoroso e natural. ei-nos sós neste pedaço enquadrado de cores brancas cores perdidas em telas perdidas e o homem anda, soluça conta tostões sobre a mesa esperando que por debaixo dela uma fada de olhos claros se aventurasse a pegar-lhe na mão e elevando os olhos o fizesse adejar … mas os poemas morreram com os poetas (vem-me agora à cabeça a música dos versos de herberto) … nesta noite, subitamente (enquanto escrevo) ouço na rua um animal uma besta que se esfrega para encontrar comida antes isso – digo em voz alta – que andar rastejando debaixo de uma mesa numa procura cega por um espírito da natureza que sei, com certeza, ausente invisível. mesmo morto. antes a besta que a lira de herberto ;os navios do rio ;os espantos nos sinais de ponty não. os poemas já não chegam estamos abençoadamente próximos do fim

sábado, 10 de maio de 2008

poemas dispersos

são páginas de calendário só páginas de calendário centenas de milhar números pequenas notas nomes de gente de um dia – iniciais – pequenos recortes mal colados … deve haver mais alguma coisa tem de haver qualquer coisa brilhante sonora: um corcel

sexta-feira, 9 de maio de 2008

poemas dispersos

sentado num moinho feito trono espero um cavaleiro tenho as pernas recolhidas o torso tenso e revolto corujas circulam no telhado estarão assim toda a noite? cúmplices e raras aves há estrelas uma linha de lua sentado num moinho feito trono adormeço

quinta-feira, 8 de maio de 2008

poemas dispersos

um primeiro dia algumas cores o cavalo que corre o bispo avança no xadrez tantos rostos peões à volta do campo de batalha numa cerca verde nascem livres flores-do-deserto

segunda-feira, 5 de maio de 2008

poemas dispersos

perfiladas de negro as bandeiras as nossas bandeiras e os ratos a cantar a cantar os hinos os nossos hinos – nas praças nas nossas praças e os gatos a adorar a adorar pobre bomba a rebentar poetas sem sabor num pedaço de pão carne a apodrecer e nem um tiro de canhão

domingo, 4 de maio de 2008

poemas dispersos

talvez o barco se tivesse virado ou o mar se tivesse virado qualquer coisa ficou fora da órbita de repente um aperto forte e as veias torcendo-se em choro – uma contracção no peito tremor nas pernas até que ao longe as gaivotas planaram de novo com doçura e tudo ficou calmo – o barco – e o oceano na sua transparência

sábado, 3 de maio de 2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Jornal «THEOSOPHIA» nº1


Jornal «THEOSOPHIA», nº1, em papel e on-line

João Lemos - Fairy Tales



«Avengers - Fairy Tales»
Texto: C.B. Cebulsky
Desenhos: João Lemos

poemas dispersos

corre meu corvo corre se as tuas asas já não podem refugia-te no negro usa a espada que tens como bico corre para o mar lá estarás a salvo lá nem barcos nem homens nem animais te atormentarão corre meu corvo corre em direcção ao sal e ao sol de um mar alto onde tudo te protegerá

quinta-feira, 1 de maio de 2008

poemas dispersos

quando ouvia a tua voz escrita acendiam-se os olhos d’uma noite inteira marcavam-se no amplexo do céu pequenos pontos brancos que fixava como se fossem candeias angélicas ou diamantes lapidados brilhando à luz de um sol negro calo agora essa voz e adormeço cego de luzes acrescentando: para sempre

MAIO

terça-feira, 29 de abril de 2008

poemas dispersos

o anjo do apocalipse cujo os pés repousam no mar trouxe-me num vaso de pérolas uma flor das águas: o amor do grande armageddon ia enfim começar e eu salvo pelas redes do espanto fui escolhido para sangrar o cálice da nova terra

segunda-feira, 28 de abril de 2008

poemas dispersos

é uma escultura italiana um leão que chora deitado – derrotado escondendo os olhos com as garras enquanto um gigantesco arcanjo de mármore o afaga tentado a salvar o rei da morte que se aproxima uma imagem congelada da derrota : por muitos séculos assim permanecerão

domingo, 27 de abril de 2008

poemas dispersos

vento calmo calmo cal mo brisa que mesmo não sendo brisa se sente brisa como em dias de muito inverno uma chuva perfumada nos enche o fato e os olhos de lágrimas disfarçadas

«Os Frades»


Pintura de Tânia Calinas

sábado, 26 de abril de 2008

poemas dispersos

ficará impresso num caractere um quase invisível sinal de dedicatória saberás lê-lo? como todos os deuses e poetas os versos contêm pequenos sinais nas cores sobrevoando uma linha longa de texto ofereço-te o meu reino num hífen sobre-tintado

João Lemos - New York



sexta-feira, 25 de abril de 2008

poemas dispersos

25 de abril de 2008 para o pintor era uma questão de amarelo e de um peixe grande e aterrador com uns olhos muito verdes e barbatana s azul cobalto – o pintor insistia no amarelo para o corpo o mar em que o peixe remava – o pintor morreu e o amarelo não chegou a despertar ainda assim o peixe nadou para um longínquo cravo

obrigado camaradas

quinta-feira, 24 de abril de 2008

poemas dispersos

como um choro lento vi as flores na jarra brilhantes e vermelhas – brancas de tão profundo escarlate e sentei-me imóvel com um medo adulto de quebrar aquela lâmina espelhada de alguma felicidade

quarta-feira, 23 de abril de 2008

poemas dispersos

uma garça sobre o rio um voo plano rápido os marinheiros soltavam cordas e a luz do fim do dia ressaltava na fina superfície da água – a garça inverteu o rumo os marinheiros recolheram até que floriu um dourado imenso como se a noite ali fosse nadar

segunda-feira, 21 de abril de 2008

poemas dispersos

não quero lembrar-me nem tão pouco ser uma luz radiosa para a qual um dia desperte se esquecer o Eu imenso que sou quero – notem bem – quero apenas uma caneta de aparo suave com que possa rasgar num papel com uma tinta muito ágil as latitudes e longitudes das noites insones que me acompanham com a mesma natureza felina de um gato aos pés da cama da velha tia de alguém madrugada dentro

domingo, 20 de abril de 2008

poemas dispersos

um tiro ou uma corda onde pouse um corvo e uma bem-aventurada rosa . à beira da chuva todos os pequenos passos levam ao lugar do desastre e salvos um a um os cegos de goya levantar-se-ão em filas e voarão até ao céu onde dependurado está aquele que a todos sem pensar prometeu a salvação

PEDRO BANDEIRA FREIRE


pedro bandeira freire morreu de dor e amor.
amor por quatro salas de cinema, Quarteto de amor
e verdes anos.
morreu por ter de entregar as chaves desse amor a quarto.
hoje pode descansar? já não tem o seu amor, nem um Quarteto
de filmes que nos abraçavam noite após noite.
que fique a recordação do seu rosto dorido E a lembrança
de um bilhete, parecido com um antigo bilhete de eléctrico,
Chamado Desejo.

sábado, 19 de abril de 2008

poemas dispersos

assim entrançada na rede de ferro a trepadeira desenha perfis e corpos gente de costas gente gritante – bocas a pedir socorro e enquanto o vento lhe bate nas folhas todos aqueles semi-seres se contorcem e agitam e parecem ainda maiores e mais desfigurados lacrimejantes ousando

sexta-feira, 18 de abril de 2008

poemas dispersos

apesar do lodo da chuva oblíqua – do corpo toldado por ínfimas lágrimas vejo e vejo com tamanha clarividência que até as montanhas por de trás das nuvens me são entendíveis ao olhos tudo o resto é em vão não penso, porque pensar seria uma ilusão sem resposta não me movo porque escorregaria no lodo para sempre :apenas olho as setas de água , disparadas à terra sentindo com a mais íntima das percepções que tudo é assim está certo e é natural

quarta-feira, 16 de abril de 2008

terça-feira, 15 de abril de 2008

poemas dispersos

tem os olhos brancos e chama- se açores caminha depressa (sem ir a lado nenhum) de costas parece um tigre de cartão de frente é um tigre de cartão vive a cidade sem prender o olhar uma vez que seja as mãos são alvas como os olhos e seria um bom pastor ou poeta se pusesse tal hipótese conheci-o hoje e chamei-lhe açores

segunda-feira, 14 de abril de 2008

poemas dispersos

quando os anjos me visitam param os ventos e o tremor da água tudo fica perfeito e terno - até me abandonarem num humano cheiro fundido na terra asfixiado e cego como no real inferno de dante ¿para que me visitam então os anjos se é o abandono inevitável? mil vezes o permanente interior do fogo do que conhecendo o toque da rosa ter de a perder

domingo, 13 de abril de 2008

poemas dispersos

da minha cama pode ver-se tudo o que o céu tem e ainda as pessoas que ninguém sabe que existem a mim a cama ensinou-me tudo e é por isso que eu sei com toda a certeza que a estrela brilhante que ilumina a terra só existe para me saborear

sábado, 12 de abril de 2008

Comic Con



Os 4, do ido estúdio da Bica { Ricardo Venâncio, Ricardo Tércio, Nuno "Plati" Alves e João Lemos } vão estar na Artist's Alley da New York Comic Con deste ano { mesas F7 a F10 }. Com eles, estarão também Rui Lacas e Jorge Coelho, do nosso novo estúdio, bem como o realizador Paulo Prazeres, da Droid-I.D a documentar a experiência.

poemas dispersos

tenho nos ouvidos um piano e uns dedos que ouvem: uma partitura talvez pelo mistério da partitura ; «goldberg – variações» ou pelo mistério de ter um piano em mim só consigo acordar em paz se ressoarem em celebração as mãos e os tempos de glenn

sexta-feira, 11 de abril de 2008

poemas dispersos

antes de fechares a porta olha- -me com alguma ternura e diz. diz o que nunca me disseste. o que nunca foste capaz de dizer. diz. e depois vai tranca bem a porta e n~ ao voltes a pronunciar o nosso nome.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

poemas dispersos

sou uma chávena de chá mas sem o odor transparente e o calor reconfortante de uma tisana sou só um líquido espesso preso num recipiente redondo

quarta-feira, 9 de abril de 2008

poemas dispersos

comecei por ver a sombra de um gato depois vi o gato cinzento quase azul quando entrou pelo quarto da pensão não saltou, voou aterrando debaixo do grande candeeiro à entrada da sala não havia nada a dizer ficámos num aparente silêncio sem tirar os olhos um do outro ao fim de umas horas ele voou de volta fechando a janela atrás de si contudo a sua sombra manteve-se projectada no te cto durante toda a noite

terça-feira, 8 de abril de 2008

poemas dispersos

quando tivemos de anunciar a tua morte, fiama caiu um véu de sóis e pinceladas negras já não há barcos na tua praia devoraste-os nos versos se dissesse: algarve, ressuscitaria os teus fonemas? as tuas letras grandes sobre papel fino? acaso foste visitada por um arcanjo a nunciador da morte dos poemas?

segunda-feira, 7 de abril de 2008

poemas dispersos

há vasos de flores que se partem e partem-se sobre longas mesas voadoras – diluem-se – hoje chove e há orquídeas carnívoras na cama como se a cama fosse ainda o berço do bebé sem sono que fui. por dentro do corpo azulam-se todas as metáforas mas não sairá um vocábulo pela boca insistente que as flores têm entre nós e os peixes, o aquário.

Foi criada a Versão On-Line do Jornal «THEOSOPHIA»

THEOSOPHIA Grupo de Estudos Teosóficos «Antero de Quental»

domingo, 6 de abril de 2008

o caderno feliz #20

#20 cheguei à torre percorri com a ponta dos dedos os caracteres do mapa lá estavam o rio o portão vermelho o estreito carreiro de terra por onde devem ter passado os cavaleiros de um tempo sem data cheguei à torre e do cimo gritei o meu nome caderno feliz/

o caderno feliz #19

#19 ouve esfinge não há filosofia ou pensamento antigo ou moderno que possa decifrar o teu divino segredo nos teus olhos abrem-se duas portas por elas só os pássaros estão permitidos mas eu olho-te e sinto-te alma gémea nós dois gigantescos vocábulos provocando tempestades/

sexta-feira, 4 de abril de 2008

o caderno feliz #18

#18 era inevitável chegar à loucura nada na loucura me assusta a loucura é bela cega-nos e a cegueira leva-nos ao mar cheguei pois e sinto a paz a ascender como uma esplendorosa força terrestre amada e amante olá guardador de rebanhos/

quinta-feira, 3 de abril de 2008

o caderno feliz #17

#17 ainda trago os espinhos na palma dos pés no início parecia uma caminhada tão simples pura e transparente mesmo com muito esforço as agulhas não saem talvez estejam definitivamente cravadas não sinto dor não sinto os pés sofro só a memória do primeiro andamento/

quarta-feira, 2 de abril de 2008

O MEDO É FOGO POSTO...

DIANA E PEDRO MÚSICAS & CANTOS
no MySpace

o caderno feliz #16

#16 subo o abismo sem cair o alento está a meu favor subir as paredes de um abismo é uma escalada como qualquer outra é o que todos dizem e é por isso que aproveito este vento com naturalidade pondo sem cuidados o pé na rocha seguinte honro o meu nome sísifo/

o caderno feliz #15

#15 acordei sobre um pano de pequenas pedras aquecidas pelo sol o corpo nu imóvel mesmo ao lado um ribeiro corria contra a corrente levantado poderia ter-me deixado refrescar pelas águas mas o conforto da dor jamais o permitiria/

segunda-feira, 31 de março de 2008

o caderno feliz #14

#14 a terra parece mármore será que ouço um mocho será que ouço a terra parece mar pressinto navios ancorados e gente a nadar apetece-me mudar de nome soltar as amarras e subir pelo céu num voo longo e vertical poderia jurar que é um mocho um mocho caçador anunciando a sua primazia sobre os outros predadores caminho suavemente sobre o mármore e inscrevo como numa lápide mortuária o meu epitáfio peregrinator/

quinta-feira, 27 de março de 2008

o caderno feliz #13

#13 há sol a praia passa perto de uma linha telefónica anseio três seixos com que farei um oráculo o cão dorme no piso de cima uma cão doce de coleira verde a esta hora já os meus olhos estão vazios e o caos toma conta dos actos assim deixo-me levar pela praia pela expectativa dos seixos/

o caderno feliz #12

# 12 há nuvens japonesas no céu paisagens celebrantes e árvores de flores brancas amendoeiras as cotovias cantam para e só para nosso deleite recortado no azul um cavalo e um cavaleiro/

terça-feira, 25 de março de 2008

o caderno feliz #11

#11 com estas palavras só peço chuva inundações gigantes ondas gigantes cabelos gigantes toda a terra me denuncia e os anjos olham-me sem ouvidos/

segunda-feira, 24 de março de 2008

o caderno feliz #10

#10 é ouro grande lápis esforçando-se por desenhar é todo ouro ouro sol branco papel lápis branco e mar vejo o meu nome numa parede e basta-me para atestar a minha existência sou a prata restante o restolho de um ourives por natureza cruel jamais serei moeda lua cheia só me é dado contemplar/

domingo, 23 de março de 2008

o caderno feliz #9

#9 – domingo de ressurreição hoje os meus dedos abriram-se em flores e sangue quente durante a noite as almas visitaram-me embalando-me na tranquilidade de um sonho transparente graciosa candeia de lua rasgando o coração por onde uma mão entrou carinhosamente amante/

sábado, 22 de março de 2008

Hi5

http://fredericogeorge.hi5.com

o caderno feliz #8

#8 – sábado de aleluia são os pés que paralisam os olhos que se fecham formam uma cruz repleta de semi-deuses a travar o caminho talvez a cruz seja ilusória a verdade é que é impossível dar um passo regressar ao presente não fugir o vento tornou-se violento e os anjos resguardaram-se dos homens terá sido esta a verdade dos profetas/

sexta-feira, 21 de março de 2008