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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Satã



















#15

Se me falam de reis e das suas gestas;
da pátria e dos brasões que a reconhecem
, fico imóvel como um mocho observando o infindo.
Fico hirto, porque sobre reis e pátrias não há nada.
Nada que no meu coração e corpo mereça movimento.
Os mochos, quando fitam o além, fitam o além
para terem repouso daquilo que os tira do essencial.
Os reis e a pátria são um enfado e significam o peso
de me saber nascido numa colónia do mundo, onde tudo
o que advém é acaso e ocaso, e o que não acontece
é um desperdiçado caos dourado que
numa orbe frátria seria pedra cúbica.

Frederico Mira George

«QUARENTA ROMANCES DE CAVALARIA E OUTROS POEMAS»

Publicações Dom Quixote

sábado, 21 de agosto de 2010

Satã

















#14



Como génios invocados por aqueles
que invocam almas, invoco as manhãs
e assim eles se sentam à minha esquerda
, absorvem o meu dia, planeiam o tempo que me resta.
As manhãs, como as almas invocadas, são
frias e entorpecidas, e falam aos olhos
numa espécie de esperanto do cosmo
, das luas muitíssimas, dos anjos adormecidos.
Como manhãs invocadas, invoco alentos
e deixo-os sentar à minha direita, levando-me.

Frederico Mira George

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Satã



















# 13


70º Aniversário do Assassinato


de Leon Trotsky



Olhar as estrelas e ver constelações
e grupos astrológicos de sóis
e poeiras em forma de cometa
e outras alucinações, é tão bruto
e cego que nem as palavras reconhecem letras
para justificar tanta lucidez. Não há nada
nem no Céu nem na Terra que o homem possa ver
olhando as estrelas que não seja olhar as estrelas.
E só por isso tudo deveria ser perfeito e justo e nada
...........seria preciso inventar para além de ser capaz de ver
e no escuro obedecer ao espanto inexplicável de o poder fazer.

Frederico Mira George

Satã

#12



Como quem faz que é atento, não sendo atento, ouço
com dor as notícias do mundo: Lisboa, Paris
, Roma, São Petersburgo, Guernica… cidades visíveis que as criaturas
invadem e que o criador abandonou. Morre em mim
a felicidade de desejar reconhecer o mundo. Mesmo
que
num navio a vapor pelo oceano oculto das novas
descobertas. São novos estes adamastores e tantas as
tormentas. Basta-me este quarto e a janela para a rua.
Contorno em mim o Cabo ferido de uma Boa-Esperança.

 Frederico Mira George

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Satã



















#11


Como não há Sol nos meus olhos
, procuro na névoa branca que os cobre
um máximo de luz que me permita ler.
Lendo, os meus olhos ficam tão claros
que mesmo aqueles que me julgam de olhar
sépia, vêem em mim azul nascente a fitá-los.
Mas, o que eu leio, não são livros ou jornais,
nem tão pouco versos ou linhas amorosas.
Frente aos meus olhos desfilam caracteres que
nem os deuses sabem ordenar. Por isso o meu olhar
brilha e brilhante é a luz que vejo espelhar.

Frederico Mira George

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Satã

















#10
Se estivesse doente sentiria o meu corpo a sentir-se doente.
Como não estou doente, há em mim uma dormência
, um desfazer de impressões que me torna
uma laje viva mas sem poder cheirar ou ouvir
, sem poder saborear ou tactear e muito menos ver.
Quando se está doente e a febre sobe,
assim como quem está ao Sol na praia e se deixa trespassar pela luz
, as sensações do corpo são belas e amantes.
Estar doente é saber a vida pelos dedos.

Frederico Mira George

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Satã



















#9


A infelicidade não é uma coisa abstracta. Escrevo
e enquanto imprimo olho a fotografia de Gorki na
parede frente à secretária. Se a infelicidade
fosse uma abstracção, eu diria – observando o rosto na fotografia – que
Gorki foi infeliz. Mas Gorki não foi infeliz porque viveu
no metafísico escorrer dos dias e morreu sabendo que
cada linha da sua «Mãe» seria lida pelos filhos. Nós,
os filhos de Gorki. No concreto, prova-se pelo rosto na fotografia,
que Gorki foi um «não-feliz». Mas, a infelicidade concreta, essa,
ficou reservada aos filhos.

Frederico Mira George

domingo, 15 de agosto de 2010

Satã






#8


Praia das Maçãs

Os meus poemas são curvas no pensamento.
São ramais de tudo o que sou e
negam com toda a realidade a força do que pareço.
Os meus poemas são o húmus das coisas feias
e frágeis que habitam a natureza –, E digo isto porque
os meus poemas nunca são naturais. São
extensões de uma feridade que me subjuga a pele como
uma febre fúnebre poderia toldar os sentidos subtis dos olhos.
O meu pensamento é a linha paralela dos meus poemas.

Frederico Mira George

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Satã














#7


Praia das Maçãs


Se envés de poeta fosse poema haveria no centro
das minhas mãos uma espécie de círculo
, uma marca oculta de espantos e lentes convexas.
Mas eu não sou poema. Nada em mim é poema.
Sou o que as pessoas vêem: o poeta, o que não sendo
poema junta linhas paralelas de promessas
para depois as ouvir como quem ouve o som do mar
no ilusionismo de um búzio.

Frederico Mira George

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Satã


#6
Praia das Maçãs

Não posso chamar sonhos aos meus sonhos
pois tudo o que da minha mente transborda durante
o sono não é melhor nem maior do que aquilo
que da minha mente extravasa nos momentos aflitos
e mortificados
da vigília.
Os meus sonhos são o espelho horizontal da eterna angústia.
Êxtases de quem acorda sem saber que acorda nem o que é acordar.

Frederico Mira George

domingo, 8 de agosto de 2010

Satã


Desenho de João Lemos
#5

Se ouço a música das coisas naturais
é porque há em mim a engenharia dos homens
e as arquitecturas da mente.
A natureza não seria possível
se o homem não fosse possível
e sendo possível, o homem projecta
, desenha, edifica;: a visão das estrelas
,os sons graves do mar e o silêncio das rochas.
O som natural que eu oiço, quando
ao domingo a cidade pára e tudo é musical
e silencioso, são pontes rigorosas, engenhos
arquitectónicos de mentes humanas.

Frederico Mira George

sábado, 7 de agosto de 2010

Satã



#4

Quando incendeio o tabaco na fornalha do cachimbo
, o fumo, o fogo, o calor;
elevam-me a um céu de coisas inocentes e brancas
que retiram de mim toda a morte do corpo
e me fazem pensar na beleza extrema do pensamento que
não é pensamento mas a que chamamos pensamento
porque pensar é a única forma de não pensar.
Na fornalha do meu cachimbo mora toda a paz dos
profetas, toda a dor dos poemas; e eu sinto-te livre
como o anjo que cai para trazer a luz que cega.

Frederico Mira George

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Satã




#3


Aquilo que eu vejo da minha janela
não é belo, nem fresco, nem solar.
Tudo aquilo que eu posso ver da minha janela
é quotidiano, e transeunte, e efémero.
É tão profundamente efémero
,que,
a eternidade
,daquilo que eu vejo da minha janela,
me dá a sensação plena de ser eu para sempre e
,depois de morrer, não ter de voltar.

Frederico Mira George

domingo, 1 de agosto de 2010

Satã



#2

Sinto a passagem dos dias como quem sente
a passagem do sangue pelas veias
quando o sangue passa pelas veias.
Há horas em que a tensão baixa e baixa tanto
que o coração bate deslocado no peito.
Mas, porque sinto os dias como quem sente
a passagem do sangue pelas veias
, os meus dias fluem e cavam sulcos
, abrem afluentes no meu pensamento,
ainda que não tenha pensamento.
Os meus dias são linhas de sangue.

Frederico Mira George

sábado, 31 de julho de 2010

Satã



Dizem que os meus poemas são tristes.
Mas os meus poemas não são tristes.
Os meus poemas trazem dentro
toda
a alegria da Terra
.........,e dos altos-astros
.........,e das pequenas poeiras que andam a crescer
..........fazendo-se estrelas no espaço-vácuo do Universo.
Não são os meus poemas que são tristes.
Nem sequer há tristeza que possa ser contada num poema.
O que há, e isso eu tenho a certeza que há,
é um abismo de desespero em quem os lê.

Frederico Mira George

domingo, 25 de abril de 2010

Abril começa hoje!

No dia que hoje lembramos, neste dia em nos é dever dizer Obrigado, relembremos que a Liberdade jamais está garantida, que a Revolução é um processo permanente de equação sobre nós mesmos. Abril começa hoje. Obrigado Otelo, porque ainda vale a pena!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Corvo

Convento da Cartuxa # 29 Chegará o tempo em que os anjos lhe tocarão o corpo e lhe fecharão os olhos num toque misericordioso. Borboletas orientais virão. E. Ele lhes sorrirá voando cego e em despedida aos dias curtos que durante vidas abraçou.   # 30 Nem uma palavra. Disse- -lhe o mestre depois da oração. Ficou só, no templo , silencioso e concentrado nos peixes-pintados-nas-paredes. Reparou depois nas flores: o altar. Sentiu as mãos fundirem- -se uma na outra e tentou levantar-se. O corpo. Imobilizado não respondeu. As flores e os peixes-pintados-nas-paredes moviam-se. O templo movia-se! Nem uma palavra!   # 31 – Por fim – a sua pele transformou-se. Primeiro, num tom avermelhado, caracteres compondo palavras mágicas apareceram inscritos nas asas. .......Depois , 1 triângulo radioso, verde e escuro, desenhou-se na fronte. Estava pronto para levitar e ver do céu – por fim – a cidade onde morreria, um dia .......feliz.

sábado, 3 de abril de 2010

Corvo

# 27 Nenhum objecto se olvidou de cravar os dedos na criança à beira do mar. E então veio a lufada de orações , como se abrisse portas no céu, e a lua tudo penetrasse. As feridas. Os desgostos. Nenhum objecto se olvidou da criança à beira do ar quando tudo começou.   # 28 E desejaria levantar-se. Desejaria abrir as mãos tão devagar sobre as paisagens que se enchem de água que não desse por nada e que as paisagens não dessem por nada. Desejaria um milagre natural que fizesse a sua desordem presidir a um pensamento de amor interior: Fazer a melancolia chover.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Corvo

# 25 Duas cortinas azuis esboçam um movimento ligeiro, imperceptível. Durante meses via-se pela janela o correr ruidoso do Inverno. Agora, deitado na cama, ele repara de soslaio no começo violento da Primavera. O que desejam, flores, serem amantes delicadas dos dias mais longos?   # 26 Serão verdadeiramente necessárias tantas lágrimas? Serão verdad iramente necessários tantos riscos ? Não estaremos já suficientemente gastos para morrer tantas , tantas, vezes?

quinta-feira, 18 de março de 2010

Corvo

# 24 Quantas vezes, ao levantar o olhar , o pássaro, fixa a sua ira libertando toda a treva que o oprime. Do céu, o pássaro vê um homem surgir na água de um lago. Voa. Todo ele é o espaço estático.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Porteiro

Corvo

# 23 Pequena sombra de tempo , coberta com uma manta de chuva, porque me furtas a noite e me envolves a cabeça com um turbante de memórias? Coroada de rainha , não podes tu devolver o odor fresco dos morangos?

terça-feira, 16 de março de 2010

Monges de São Francisco

Corvo

# 21 Quantos oceanos, correntes aladas do passado , invadindo praias . É triste que os dentes se cerrem às marés. Mas pior seria se os pés deixassem de sentir o calor brando da areia.   # 22 Mesmo enquanto caminhamos sob um sol compassivo, estamos inclinados para a morte. Não é que a vida hostil à caminhada , simplesmente negamos a aventura e, suspenso, o corpo afunda-se na Terra.

domingo, 14 de março de 2010

Corvo

# 20 A terra devassada que flui faz o corvo pousar as asas. Recorda-te! Tudo é rápido na indiferença. Como monge desse convento de estrelas podes ao menos partir em penitência?

sábado, 13 de março de 2010

Corvo

# 19 Fizemos tudo para lhe esconder o rosto. Fizemos a memória recuar ao primeiro vocábulo da humani da de. Os anjos são agora a única testemunha. Um dia proferimos a palavra amor!

sábado, 6 de março de 2010

Corvo

# 18 É a paisagem soando a tiros, o entardecer do momento em que a Primavera amadurece. Retrato súbito onde o nosso rosto aparece como um fantasma assustado na direcção de uma outra vida.

Corvo

# 17 Uma romã púrpura entre arbustos que um céu perfeito, alinhado , recebe vigoroso. E atento. Para sempre. Tudo exalta a vida do futuro que será igual à de outrora: o redondo descanso da flor redonda.

Corvo

# 16 Eis-nos diante de um fogo extinto. O tempo não levou a , dentro das nossas mãos, nascer como crianças um tesouro. Os nossos olhos estão postos em altares onde antiquíssimos frutos eram dados sorrindo, como crísticas oferendas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Corvo

# 15 É triste que os olhos se abram depois do sono. Nesse tempo de paz é brilhante um encanto feroz , um desejo secreto e sublime.

quarta-feira, 3 de março de 2010

terça-feira, 2 de março de 2010

Corvo

# 13 Como nos desenhos dos teus ramos existe tudo o que nos resta , assim na terra há caminhos distraídos e um deus pequeno ancorado a uma pedra.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Corvo

# 11 Recebeu as oferendas com um longo e terno abraço. Duas rochas javanesas. Nessa noite adormeceu segurando-as entre os dedos. Sonhos bizarros o assaltaram. Ao acordar ainda sentia o calor espesso do abraço.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Rosas

Natália Correia: «Credo»: «[...] Creio no incrível Nas coisas assombrosas Na invasão do mundo pelas Rosas[...]» Em recordação de uma noite de canto (20-2-2010) -

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Walden

«Não falaria tanto de mim mesmo se houvesse outra pessoa que eu conhecesse tão bem» H. D. Thoreau

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Corvo

# 4 O corvo observou. Sentiu-se sereno por ser mal dito. Voava! Na cidade os que caminhavam em afazeres i nadiáveis, seriam capazes de o matar com olhares , mas seria ele, negro-solitário, o que depois da última respiração tinha tentado ver além das próprias asas.   # 5 Sentado no café enquanto o dono lavava o chão ladrilhado de azul e vermelho , H pensou em escrever um poema. Desenhou caracteres no papel como um mecânico ajusta a direcção de um automóvel. Terminou 20 minutos depois. Nada do que tinha escrito parecia dele. Como o carro onde o mecânico opera não é dele. Saiu e guiou o «seu» poema. Pela primeira vez sentiu as faces do rosto corar de orgulho e coragem. O automóvel… o seu gigante poema.   # 6 Um rei e uma rainha, exaustos de dormir em tantos diversos quartos Reais, de tantos diversos palácios Reais : sentaram-se, por fim, observando abelhas à espera do vento.   # 7 Manuel Teixeira Gomes Curvou-se perante ................a estátua do poema. Os pescadores rumavam a Ocidente. Ajoelhado depôs flores : Portimão.   # 8 À frente, lá estava o muro. Era ali que tinham morrido os voos, o vento ; ali tinha parado a respiração. Sentia que tinha de nascer e nascer, nasceu, por fim, um ovo.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Corvo

#3 Ulisses – o gato. Preto , branco. Quase azul, quase alto, dorme aos pés da cama de L. E e um lago de mármore onde , entronado, buda está sentado. L e o gato vêem estrelas no telhado. Movem-se cansados , como no céu os supremos astros.

Corvo

#2 O monge-cego veste-se. [enquanto] Peixes voadores bebem na fonte do claustro, o monge procura dentro de si : alfinetes ; botões ; asas-de-anjo para o colarinho. Já na igreja – o templo efémero – 1 sinfonia de luzes espera-O. Ele, cego, entrega-se ao concerto das velas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Lhasa de Sela deixou-nos aos 37 anos

Partiu a Poeta da solidão, da tristeza transmutada em emoção e música: «Obrigado à vida que me deste tanto/Obrigado à vida que me deste o canto» (Mercedes Sousa).

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Corvo #1

#1 d’Inverno, os corvos. O homem caminha sob a chuva ouve os Corvos – o Inverno e desliza na alvura da Neve imaginada onde ,onde pegadas de sombras a-rriscam voos oblíquos. Corvos e homem sentem [finalmente] o Inverno dentro da pele. Não há morte – Não há noite : só neve, luz intensa, céu intenso.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Contos.20

Finalmente sócrates deitou-se na Terra Platão deitou-se com ele e ouviu num silêncio amante o Testamento do Mestre: «Um dia virão a mim todos os corvos da terra»

Pama Inácio, Felizmente há L.U.A.R.

Somos filhos da madrugada Pelas praias do mar nos vamos À procura de quem nos traga Verde oliva de flor nos ramos Navegamos de vaga em vaga Não soubemos de dor nem mágoa Pelas praia do mar nos vamos À procura da manhã clara Lá do cimo de uma montanha Acendemos uma fogueira Para não se apagar a chama Que dá vida na noite inteira Mensageira pomba chamada Mensageira da madrugada Quando a noite vier que venha Lá do cimo de uma montanha Onde o vento cortou amarras Largaremos p'la noite fora Onde há sempre uma boa estrela Noite e dia ao romper da aurora Vira a proa minha galera Que a vitória já não espera Fresca, brisa, moira encantada Vira a proa da minha barca José Afonso OBRIGADO CAMARADA! FELIZMENTE HÁ L.U.A.R.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Contos.19

Longe de olhares profanos juntam-se os lobos que esperam o brilho das lanternas A última árvore do claustro será o sinal o Vento a testemunha Volte ao Fogo o que é do Fogo

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Contos.18

Para Luíza Ele tem sonhado com a Senhora-do-Lago Ele acorda com ela Ele imagina-lhe os olhos Ele pega-lhe nas mãos Ele sabe que é a única estrela que lhe trará vida Quando Ela lhe fala soam mantras num esperanto ainda não inventado Mas ele lê-a e conhece-lhe os movimentos Como todas as feiticeiras Ela mergulha no espelho da floresta As árvores dizem-lhe tudo a Ele resta-lhe o Lago

terça-feira, 30 de junho de 2009

Contos.17

Nuvens nos olhos, semeador Caiu chuva sobre o teu caderno Acordes baixos no coração fechado numa harpa Nivelado no céu , do meio-dia à meia-noite, acácias confrontam-se Sol e Lua numa sombra

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Contos.16

pela sua palavra , seu riso – preso no verde tão claro do poço Em voz baixa avançou mais um pouco Tão longo e estreito nado Respirou e teve tempo: «Amo o teu a- braço»

quinta-feira, 21 de maio de 2009

JOÃO BÉNARD DA COSTA

Se há memória do cinema em Portugal a ele o devemos. Morreu hoje o amador de cinema João Bénard da Costa

domingo, 17 de maio de 2009

Contos.15

mal consegue vestir o pijama – Já não sofre por isso Em tempos pediu aos seus amantes que o amassem… «está uma noite gelada» Um maio-inverno e ele mel Em jovem , dizem, escreveu poemas e banhou-se em águas quentes de perfume Já não sofre Tem vinte e cinco anos e um único e secreto desejo : «esta noite, vestir, sozinho, o meu pijama lavado»

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Contos.14

Para L. Platão rasgou o envelope e leu entre aspas : «Do perfeito coração os teus dedos diriam: “voz grave, inquieta, Amo- rosa” Dos teus dedos o Coração pararia e… em mim , de pedra, tudo se talharia: Poemas-Cantaria! – Meu piano ,minha pele que se desprendia»

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Contos.13

13. ele soube – o seu sangue soube quando a sentiu O sangue voltou a correr , os olhos voltaram a brilhar mesmo de noite , passaram-lhe as dores do abandono Ele soube e deu-lhe – um dia – pela – primeira vez a mão tremendo por fora Voltara a sentir a compulsão de beijar , beber chá, ouvir incenso, morrer para todas as outras coisas Agora, só, relembra os sor risos , as lágrimas, e, apesar de uma distância que lhe parece intransponível , platão voltou a adormecer

domingo, 5 de abril de 2009

Contos.12

No cimo do moinho – lá onde reina a roda e a mó , passeavam patos E ele , assustado, curvou-se perante eles numa vénia trémula Os patos suspenderam a respiração e ignorando a vénia atacaram-no sem um grito Conseguiu fugir, sim, conseguiu Correu pelo campo em volta tentou esconder-se escondeu-se finalmente repousou Após alguns momentos de paz lembrou-se , lembrou-se: no moinho, lá junto à roda e à mó , à guarda dos patos, tinham ficado os óculos Os seus únicos óculos

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Contos.11

Pela primeira vez em muitos dias , platão levantou-se com alguma energia e com a respiração normalizada No entanto, o peso que sentia sobre si não diminuira Andou apesar de sentir frio , um frio que já vinha de trás e que o sol não dissolvia Andou ainda envolto na angústia Parou, por fim, quando já sem sangue se viu obrigado a sentar-se à beira de um pinheiro

domingo, 22 de março de 2009

Contos.10

Enquanto os espíritos o ouviam , sócrates desenhava um redondo-redondo-redondo círculo ,a vermelho na parede Platão era a sua mão e o giz :mel e raiz enquanto as palavras o contradiziam Os espíritos ouviam-ouviam-ouviam Sócrates morreu pouco depois deitado num chão baixo Sobre o corpo, platão tomou o seu rosto e alto , recto deu-lhe a mão num imenso-imenso-imenso desgosto

sexta-feira, 20 de março de 2009

Contos.9

E o tempo sempre a passar sempre a horas-sestas , os carros , as bandeiras – os cravos , as cidreiras tudo olhando o homem estacado na cadeira , ele já é a própria madeira . ao longe (vê-se pela janela) correm gatos e fardas e crânios decorados O homem chora e chora sentado No céu formam-se letras, uma a uma contam-se celestes canetas

terça-feira, 3 de março de 2009

«Uma Poeira Azul Espalha-se»

Com este livro de Frederico Mira George com um desenho de João Lemos, «Uma Poeira Azul Espalha-se», nasce uma nova chancela editorial. A chancela «Fora de Mercado - Editores» publicará exclusivamente poemas para que circulem gratuitamente de mão em mão. Impressos em papel de jornal, com formato de bolso, cada exemplar deve ser lido e passado a outro. Não estarão em livrarias, em supermercados... nada. Podem encontrá-los em cafés, teatros, no bolso de um amigo... enfim, em todo o lado menos nos habituais templos do mercado livreiro.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Mestre Lagoa Henriques, Choremos, Choremos Choremos

Passou ao Oriente Eterno o grande poeta do desenho que foi Mestre Lagoa Henriques. Que a sua memória e permanente inspiração nos anime neste momento de despedida. Choremos, Choremos, Choremos! Mas esperamos!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Contos.8

... tinha-se deixado aninhar entre os cobertores chegou mesmo a sonhar – adormeceu portanto – quando acordou tinha os lábios húmidos e gretados Uma das pálpebras mexia-se nervosamente Nem uma lágrima Levantou-se e caminhou contra o vento Devagar conquistou o espaço à sua frente era livre de se afundar naquela tempestade Foi aí que teve a visão : num ponto do horizonte, um cavalo parado olhava-o com ternura

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Contos.7

numa cadeira de baloiço sentia nas mãos o cheiro da despedida e forças malignas, sangrentas , a flutuarem-lhe no cérebro Quase já sem vista pousou nos joelhos os pesados volumes árabes à procura de encanto: «mil e uma noites» percorrendo-lhe a face quente Um dia tinha sido dom quixote mas agora , sem espada – perdida num último esforço –, procurava em xerazade uma explicação para os dias de febre Mil e 1 histórias que o salvassem Reclinado para trás ousou pedir socorro Caído estava oficialmente vivo e soterrado

domingo, 25 de janeiro de 2009

Contos.6

tinham-se sentado numa laje de pedra viram num céu escuro as cores de um efémero arco e receberam chuva nos cabelos e beijaram-se e pelo chão talvez tivessem caído lágrimas De seguida a escada íngreme da despedida Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca a orquídea azul daquele dia Todas as tardes olha o céu quando está escuro Pelo chão lágrimas abraçam-se

Contos.6

tinham-se sentado numa laje de pedra viram num céu escuro as cores de um efémero arco e receberam chuva nos cabelos e beijaram-se e pelo chão talvez tivessem caído lágrimas De seguida a escada íngreme da despedida Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca a orquídea azul daquele dia Todas as tardes olha o céu quando está escuro Pelo chão lágrimas abraçam-se

sábado, 17 de janeiro de 2009

fora-de-mercado - editores

morta que está a poesia vive e ressoa como acto e facto de resistência o poema Em cada caractere fluem antiquíssimos toques de sino vindos das torres mais altas lugares aonde só as aves nidificam e tudo vêem como um olho gigante no centro de um triângulo de ouro Cada face do triângulo é uma afiada lâmina de combate se o olho tudo vê cada ângulo cada vértice corta-nos as horas em finas passagens de medo e sobressalto Aí onde ninguém chega nem mesmo aqueles que sendo humanos voam esconde-se o poema e do poema nascem as águias reais que só alguns vencedores podem ver Nas noites fundas o poema ressurge como um relâmpago seco sem som mas com uma intensa e profícua vibração de odores sabores olhares tactos e paladares Dá-se então o encontro inefável com tudo o que está para além da vida dos vivos e da morte dos mortos Em cada caractere o sol brilha no seu meridiano somos então meninos doces envoltos numa tristeza que só a infância conhece Imaginam-se histórias contos romances encantados reais e proféticos O poema torna-se um sangue escuro junto à terra perto do mar sob o céu ao levar do vento De todos os ventos Uma rosa crucificada Sim o poema é o acto e facto de ainda se poder ser resistente e vitorioso Vêm-me agora à memória humanos de amor que em cadeia nos ligam a um infindável caminho in-verso hélder fiama cesariny caeiro de outras eras viegas só no seu único nome mário camões perdido num oceano alheio num poema atlântico e salomão o velho e cansado elefante que um dia um rei português decidiu oferecer a outro rei de um país frio caminhando em passos curtos de amarradas patas por correntes De outros cantos mário dionísio eduarda em antes que a noite venha álvaro lapa de pinturas escritas post-mortem carlos de oliveira sophia al berto variações de antónio Lá nas torres sineiras as águias nidificam os poemas que hão-de entregar quando o dia nascer Godard de vivre sa vie visconti de uma morte de cal em veneza Antes da palavra final estaremos vivos Caídos por terra sim mas vivos resistindo e vencendo Todos nós que viemos de longe Que vamos para longe aí onde nos vamos encontrar.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Palavras, Sinais, Gestos e Toques

Desenho de João Lemos (link à direita) Há quem se reconheça por palavras, sinais, gestos e toques.

Contos.5

longe longe longe muito longe : o frio – platão de sobre tudo trancado à cama dormiu longa longa longa mente Platão dormiu e a meio do sonho mais duro uma gaivota do tejo , aproximada aos vidros da janela, batia com o bico nos vidros enquanto uivava – frio frio frio platão não acordava e ainda assim a gaivota uivava Só de noite – mal despertou – platão reparou que na transparência da janela um fio de sangue secara A gaivota? Sócrates?

domingo, 4 de janeiro de 2009

Contos.4

dançaram leves e de olhos postos em pequenos objectos do palácio Foram subindo escadas numa conversa secreta e de vez em quando dando as mão sustendo a vontade de dançar mais alto: lá, no tecto esculpido, onde espíritos dormem Sim , naquele palácio são os espíritos que guiam Espíritos com vozes claríssimas E , no centro da dança, na sala do toucador real lá estava Ela a Rainha enlouquecida de que ninguém cuidou Foi quando pararam de dançar , se juntaram de ombro a ombro e a felicidade daquele momento ficou guardada no relicário dourado onde já ninguém entra

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Contos.3

24 de Dezembro de 2008 ainda lhe suavam as mãos de subir ofegante a escada do prédio quando descobriu que um grande gato amarelo tinha, sorrateiro, entrado pela porta a cozinha Travou-se ali, então, uma longa conversa entre platão e o gato Platão , assustado, pedia ao animal que abandonasse a casa o animal pedia a platão estadia Levaram uns quinze minutos nisto até que pelo cansaço o gato desistiu e saiu , agora rapidamente, pela frincha aberta por onde tinha entrado Á tarde platão tentou dormir mas aqueles felinos olhos cinzentos assombravam-lhe as horas de descanso – afinal podia ter ficado com ele, ao menos esta noite Voltou à porta podia ser que sócrates ainda por lá estivesse mas não, nem um rasto nas escadas traseiras Voltado à cama platão sentiu um frio de remorso Acendeu a luz da mesa-de-cabeceira e pôs-se a escrever contando o encontro que tinha desprezado Finalmente um ser tinha vindo ao seu encontro e ele por impulso recusou-o Porquê? Porquê Desenhou um gato no caderno e pôs-lhe cores e patas grandes Desolado , numa última linha, escreveu: «hoje, nesta minha casa encontrei-me com sócrates com medo afugentei-o Nada a fazer»

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Centro Mário Dionísio - Ano Novo Vida Nova

A Associação Casa da Achada – Centro Mário Dionísio oferece às crianças da zona em que está sediada – e a todas as outras que queiram aparecer – papéis e lápis, no dia 31 de Dezembro às 16h, para pensarem a cores no Ano Novo Vida Nova durante a tarde do último dia do ano. A sessão, que terá lugar na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, actualmente em obras, na Rua da Achada 11B, em Lisboa, será orientada por Regina Guimarães, escritora, cineasta e uma das sócias fundadoras da Associação. Os desenhos ficarão expostos no local durante a tarde do 1º dia do ano, das 16h às 19h. O Centro Mário Dionísio encontra-se ainda em fase de instalação mas entendeu que era possível fazer esta iniciativa sem esperar pela sua abertura regular ao público, em dois dias mais livres do que outros. Valerá a pena recordar o valor que Mário Dionísio – escritor, pintor, crítico de arte, professor e pedagogo – atribuía às actividades artísticas na educação – de pequenos e grandes. A propósito de uma grande exposição de arte infantil «Lisboa vista pelas suas crianças», realizada há 60 anos – tempos sombrios – afirmou: A necessidade da prática da arte como elemento fundamental da educação mostra-se aqui com uma evidência irrecusável. (…) Esta bela exposição (…) marca, creio eu, ou poderia marcar, uma data importante na história do nosso conhecimento do homem e da arte, o que quer sempre dizer: rumos de verdadeira educação, de libertação, de felicidade.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Contos.2

Platão deitava-se Insone Olhos postos no tecto pelo corpo só os indispensáveis movimentos À sua direita uma telefonia e cigarros acumulados num mínimo cinzeiro Platão ficava noites seguidas assim: a ouvir, concentrado, os ruídos da rua : homens do lixo : cães ladrando ao longe : um ou outro gato rosnando em briga Por vezes , uma vizinha gritava com o marido Não Para platão as noites nunca eram iguais simplesmente nunca tinha sido ensinado a adormecer No telheiro da janela quando uma família de pombos despertava, platão sabia que chegara o momento de se erguer apanhado na emboscada de um sol que nasce de uma lua que se deixa apagar Já levantado seguia para mais um dia Dias de coração demasiado lento preso à vontade de à noite voltar e insone se deitar

sábado, 20 de dezembro de 2008

Contos.1

quando metia a chave à porta e recebia no rosto a chuva da escuridão de um vento de espaço vazio Platão sentia uma tontura vinda dos pés até lhe tomar a cabeça (assim como na guerra o inimigo toma em prisão o amigo desconhecido) Com medo Sem coragem platão avançava Primeiro com o pé esquerdo, depois, arrastando a perna , o direito, fazendo bater os calcanhares Ficava em esquadro já dentro do apartamento Fechada a porta demorava-se uns segundos no escuro Afinal era a magia possível para os seus dias Então acendia a vela , via iluminar-se o corredor e voltava a si – só – e com cuidado pendurava o sobretudo num cabide idoso junto a um relógio de pêndulo

O Livro dos Peixes

frederico.'., dez.2008 (águarela e tinta-da-china sobre papel)