No dia que hoje lembramos, neste dia em nos é dever dizer Obrigado, relembremos que a Liberdade jamais está garantida, que a Revolução é um processo permanente de equação sobre nós mesmos. Abril começa hoje.
Obrigado Otelo, porque ainda vale a pena!
domingo, 25 de abril de 2010
Abril começa hoje!
No dia que hoje lembramos, neste dia em nos é dever dizer Obrigado, relembremos que a Liberdade jamais está garantida, que a Revolução é um processo permanente de equação sobre nós mesmos. Abril começa hoje.
Obrigado Otelo, porque ainda vale a pena!
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Corvo
Convento da Cartuxa
# 29
Chegará o tempo em que os anjos
lhe tocarão o corpo e lhe
fecharão os olhos num toque
misericordioso.
Borboletas orientais virão.
E. Ele
lhes sorrirá voando
cego e em despedida
aos dias curtos que durante
vidas
abraçou.
# 30
Nem uma palavra. Disse-
-lhe o mestre depois da oração.
Ficou só, no templo
, silencioso e concentrado
nos peixes-pintados-nas-paredes.
Reparou depois nas flores: o altar.
Sentiu as mãos fundirem-
-se uma
na outra e tentou levantar-se.
O corpo. Imobilizado não respondeu.
As flores e os peixes-pintados-nas-paredes
moviam-se. O templo movia-se!
Nem uma palavra!
# 31
– Por fim –
a sua pele transformou-se.
Primeiro, num tom avermelhado,
caracteres compondo palavras mágicas
apareceram inscritos nas asas.
.......Depois
, 1
triângulo radioso, verde e escuro,
desenhou-se na fronte.
Estava pronto para levitar
e ver do céu
– por fim –
a cidade onde morreria, um dia
.......feliz.
sábado, 3 de abril de 2010
Corvo
# 27
Nenhum objecto se olvidou de
cravar
os dedos na criança à beira do mar.
E então veio a lufada de orações
, como se abrisse portas no céu,
e a lua tudo penetrasse. As feridas.
Os desgostos. Nenhum
objecto se olvidou da criança à beira
do ar quando tudo começou.
# 28
E desejaria levantar-se.
Desejaria abrir as mãos tão devagar
sobre as paisagens
que se enchem de água que não
desse por nada e que as paisagens não
dessem por nada.
Desejaria um milagre natural
que fizesse a sua desordem
presidir a um pensamento
de amor interior:
Fazer a melancolia chover.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Corvo
# 25
Duas cortinas azuis esboçam um
movimento
ligeiro, imperceptível.
Durante meses via-se pela janela
o correr ruidoso do Inverno.
Agora, deitado na cama, ele
repara de soslaio
no começo violento da Primavera.
O que desejam, flores, serem amantes
delicadas dos dias mais longos?
# 26
Serão verdadeiramente necessárias
tantas lágrimas? Serão verdad
iramente necessários tantos riscos
? Não estaremos
já
suficientemente gastos para morrer
tantas
, tantas,
vezes?
quinta-feira, 18 de março de 2010
Corvo
quarta-feira, 17 de março de 2010
Corvo
# 23
Pequena sombra de tempo
, coberta com uma manta de chuva,
porque me furtas a noite
e
me envolves a cabeça
com um turbante de memórias?
Coroada de rainha
, não podes
tu
devolver o odor fresco dos morangos?
terça-feira, 16 de março de 2010
Corvo
# 21
Quantos oceanos, correntes aladas
do passado
, invadindo praias
. É triste que os dentes
se cerrem às marés. Mas
pior seria
se os pés deixassem de sentir
o calor brando da areia.
# 22
Mesmo enquanto caminhamos
sob um sol compassivo,
estamos inclinados para a morte.
Não é que a vida
hostil à caminhada
, simplesmente negamos a aventura
e, suspenso, o corpo afunda-se na Terra.
domingo, 14 de março de 2010
Corvo
# 20
A terra devassada que flui
faz o corvo pousar as asas.
Recorda-te!
Tudo é rápido na indiferença.
Como monge desse convento de estrelas
podes ao menos partir
em
penitência?
sábado, 13 de março de 2010
Corvo
# 19
Fizemos tudo para lhe esconder
o
rosto. Fizemos a memória recuar
ao primeiro vocábulo da humani
da
de.
Os anjos são agora a única testemunha.
Um dia proferimos a
palavra
amor!
sábado, 6 de março de 2010
Corvo
# 18
É a paisagem soando a tiros,
o entardecer do momento
em que a Primavera amadurece.
Retrato súbito onde o nosso rosto
aparece
como
um fantasma assustado na
direcção
de uma outra vida.
Corvo
# 17
Uma romã púrpura entre arbustos
que um céu perfeito, alinhado
, recebe vigoroso. E atento. Para sempre.
Tudo exalta a vida do futuro
que será igual à de outrora:
o redondo descanso da flor redonda.
Corvo
# 16
Eis-nos diante de um fogo extinto.
O tempo não levou a
, dentro das nossas mãos, nascer
como crianças
um tesouro.
Os nossos olhos estão postos em altares
onde antiquíssimos frutos eram
dados sorrindo,
como crísticas oferendas.
quinta-feira, 4 de março de 2010
Corvo
# 15
É triste que os olhos se abram
depois
do sono. Nesse tempo de paz
é brilhante
um encanto feroz
, um desejo secreto e sublime.
quarta-feira, 3 de março de 2010
terça-feira, 2 de março de 2010
Corvo
# 13
Como nos desenhos dos teus ramos
existe tudo o que nos resta
, assim na terra
há caminhos distraídos
e um deus pequeno
ancorado a uma pedra.
segunda-feira, 1 de março de 2010
domingo, 28 de fevereiro de 2010
O Corvo
# 11
Recebeu as oferendas
com um longo e terno abraço.
Duas rochas javanesas.
Nessa noite adormeceu
segurando-as entre
os dedos. Sonhos bizarros
o assaltaram.
Ao acordar ainda sentia
o calor espesso
do abraço.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Rosas
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Walden
«Não falaria tanto de mim mesmo se houvesse outra pessoa que eu conhecesse tão bem»
H. D. Thoreau
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Corvo
# 4
O corvo observou. Sentiu-se
sereno por ser mal
dito. Voava! Na
cidade
os que caminhavam em afazeres
i
nadiáveis, seriam
capazes de o matar com olhares
, mas seria ele, negro-solitário, o
que depois da última respiração
tinha tentado ver
além das próprias asas.
# 5
Sentado no café enquanto
o dono lavava o chão ladrilhado de
azul e vermelho
, H pensou em escrever um poema.
Desenhou caracteres no papel
como um mecânico
ajusta a direcção de um automóvel.
Terminou 20
minutos
depois.
Nada do que tinha escrito parecia dele.
Como o carro onde o mecânico opera não é dele.
Saiu e guiou o «seu» poema.
Pela primeira vez sentiu
as faces do rosto corar de orgulho e
coragem. O automóvel… o seu
gigante
poema.
# 6
Um rei e uma rainha,
exaustos de dormir
em tantos
diversos
quartos Reais, de
tantos
diversos
palácios Reais
: sentaram-se, por fim,
observando abelhas à espera do vento.
# 7
Manuel Teixeira Gomes
Curvou-se perante
................a
estátua do poema.
Os pescadores rumavam a Ocidente.
Ajoelhado depôs flores
: Portimão.
# 8
À frente, lá
estava
o muro. Era ali que tinham
morrido os voos, o vento
; ali tinha parado a respiração.
Sentia que tinha de nascer
e nascer, nasceu, por fim,
um ovo.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Corvo
#3
Ulisses – o gato.
Preto
, branco. Quase azul, quase alto,
dorme
aos pés da cama de L. E
e um lago de mármore onde
, entronado, buda está sentado.
L
e o
gato
vêem estrelas no telhado. Movem-se
cansados
, como no céu os supremos astros.
Corvo
#2
O monge-cego veste-se.
[enquanto] Peixes voadores
bebem na fonte do claustro, o
monge procura dentro de si
: alfinetes
; botões
; asas-de-anjo para o colarinho.
Já na igreja – o templo efémero –
1 sinfonia de luzes espera-O. Ele,
cego, entrega-se ao concerto das velas.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Lhasa de Sela deixou-nos aos 37 anos
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Corvo #1
#1
d’Inverno, os corvos.
O homem caminha sob a chuva
ouve os Corvos – o Inverno e
desliza na alvura da Neve
imaginada onde
,onde pegadas de sombras
a-rriscam voos oblíquos.
Corvos e homem sentem [finalmente]
o Inverno dentro da pele.
Não há morte – Não há noite
: só neve, luz intensa, céu intenso.
domingo, 13 de setembro de 2009
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Contos.20
Finalmente
sócrates
deitou-se na Terra
Platão deitou-se com ele e
ouviu
num silêncio amante
o Testamento do Mestre:
«Um dia virão a mim
todos os corvos da terra»
Pama Inácio, Felizmente há L.U.A.R.
Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca
José Afonso
OBRIGADO CAMARADA!
FELIZMENTE HÁ L.U.A.R.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Contos.19
Longe de olhares profanos
juntam-se os lobos
que esperam
o brilho das lanternas
A última árvore do claustro
será o sinal
o Vento a testemunha
Volte ao Fogo o que é do Fogo
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Contos.18
Para Luíza
Ele tem sonhado com a Senhora-do-Lago
Ele acorda com ela
Ele imagina-lhe os olhos
Ele pega-lhe nas mãos
Ele sabe
que é a única estrela que lhe trará vida
Quando Ela lhe fala
soam mantras num esperanto ainda
não inventado Mas ele lê-a
e conhece-lhe os movimentos
Como todas as feiticeiras Ela
mergulha no espelho da floresta
As árvores dizem-lhe tudo
a Ele resta-lhe o Lago
terça-feira, 30 de junho de 2009
Contos.17
Nuvens nos olhos, semeador
Caiu chuva sobre o teu caderno
Acordes baixos
no coração
fechado numa harpa
Nivelado no céu
, do meio-dia à meia-noite,
acácias confrontam-se
Sol e Lua numa sombra
quarta-feira, 10 de junho de 2009
segunda-feira, 8 de junho de 2009
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Contos.16
pela sua palavra
, seu riso – preso
no verde tão claro do poço
Em voz baixa
avançou mais um pouco
Tão longo e estreito nado
Respirou e teve tempo:
«Amo o teu a-
braço»
quarta-feira, 27 de maio de 2009
quinta-feira, 21 de maio de 2009
JOÃO BÉNARD DA COSTA
domingo, 17 de maio de 2009
Contos.15
mal consegue vestir o pijama
– Já não sofre por isso Em
tempos pediu aos seus amantes
que o amassem… «está uma noite gelada»
Um maio-inverno e ele mel
Em jovem
, dizem,
escreveu poemas e banhou-se em
águas quentes de perfume Já
não sofre Tem vinte e cinco anos
e um único e secreto desejo
: «esta noite, vestir, sozinho, o meu pijama lavado»
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Contos.14
Para L.
Platão rasgou o envelope e leu entre aspas
: «Do perfeito coração
os teus dedos diriam:
“voz grave, inquieta, Amo-
rosa”
Dos teus dedos o Coração pararia
e… em mim
, de pedra,
tudo se talharia: Poemas-Cantaria! –
Meu piano
,minha pele que se desprendia»
sábado, 25 de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Contos.13
13.
ele soube – o seu sangue soube
quando a sentiu O sangue voltou
a correr
, os olhos voltaram a brilhar
mesmo de noite
, passaram-lhe as dores do abandono
Ele soube
e
deu-lhe – um dia – pela – primeira
vez a mão
tremendo por fora Voltara a
sentir a compulsão de beijar
, beber chá, ouvir incenso,
morrer para todas as outras coisas
Agora, só, relembra
os sor
risos
, as lágrimas, e, apesar de uma distância
que lhe parece intransponível
, platão voltou a adormecer
domingo, 5 de abril de 2009
Contos.12
No cimo do moinho – lá
onde reina a roda e a mó
, passeavam patos E ele
, assustado, curvou-se perante eles
numa vénia trémula Os patos
suspenderam a respiração e
ignorando a vénia atacaram-no
sem um grito Conseguiu fugir, sim,
conseguiu Correu pelo campo em volta
tentou esconder-se escondeu-se
finalmente repousou
Após alguns momentos de paz lembrou-se
, lembrou-se:
no moinho, lá junto à roda e à mó
, à guarda dos patos,
tinham ficado os óculos
Os seus únicos óculos
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Contos.11
Pela primeira vez em muitos dias
, platão levantou-se com alguma energia
e com a respiração normalizada
No entanto, o peso que sentia sobre si
não
diminuira
Andou apesar de sentir frio
, um frio que já vinha de trás
e que o sol não dissolvia
Andou
ainda
envolto na angústia
Parou, por fim, quando já sem sangue
se viu obrigado a sentar-se à beira de um pinheiro
domingo, 22 de março de 2009
Contos.10
Enquanto os espíritos o ouviam
, sócrates desenhava um redondo-redondo-redondo
círculo
,a vermelho
na parede Platão era a sua mão
e o giz
:mel e raiz
enquanto as palavras o contradiziam Os
espíritos ouviam-ouviam-ouviam
Sócrates morreu pouco depois
deitado num chão baixo
Sobre o corpo, platão tomou o seu rosto
e alto
, recto
deu-lhe a mão num imenso-imenso-imenso
desgosto
sexta-feira, 20 de março de 2009
Contos.9
E o tempo sempre a passar sempre a horas-sestas
, os carros
, as bandeiras –
os cravos
, as cidreiras
tudo olhando o homem estacado na cadeira
, ele já é a própria madeira
.
ao longe (vê-se pela janela) correm gatos
e fardas e crânios decorados
O homem chora e chora sentado
No céu formam-se letras,
uma a uma contam-se celestes canetas
quinta-feira, 12 de março de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
«Uma Poeira Azul Espalha-se»
Com este livro de Frederico Mira George com um desenho de João Lemos, «Uma Poeira Azul Espalha-se», nasce uma nova chancela editorial. A chancela «Fora de Mercado - Editores» publicará exclusivamente poemas para que circulem gratuitamente de mão em mão.
Impressos em papel de jornal, com formato de bolso, cada exemplar deve ser lido e passado a outro. Não estarão em livrarias, em supermercados... nada. Podem encontrá-los em cafés, teatros, no bolso de um amigo... enfim, em todo o lado menos nos habituais templos do mercado livreiro.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
Mestre Lagoa Henriques, Choremos, Choremos Choremos
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Contos.8
... tinha-se deixado aninhar entre os cobertores
chegou mesmo
a sonhar – adormeceu portanto –
quando acordou tinha os lábios húmidos
e gretados Uma das pálpebras
mexia-se nervosamente Nem uma lágrima
Levantou-se e caminhou contra
o vento
Devagar conquistou o espaço à
sua frente
era livre de se afundar naquela tempestade
Foi aí que teve a visão
: num ponto do horizonte, um cavalo
parado olhava-o com ternura
sábado, 7 de fevereiro de 2009
Contos.7
numa cadeira de baloiço
sentia nas mãos o cheiro da despedida e
forças malignas, sangrentas
, a flutuarem-lhe no cérebro
Quase já sem vista
pousou nos joelhos os pesados
volumes árabes à procura de encanto: «mil
e uma
noites» percorrendo-lhe a face quente
Um dia tinha sido dom quixote
mas agora
, sem espada – perdida num último esforço –,
procurava em xerazade uma explicação para
os dias de febre Mil e 1
histórias que o salvassem
Reclinado para trás ousou pedir socorro
Caído
estava oficialmente vivo e soterrado
domingo, 25 de janeiro de 2009
Contos.6
tinham-se sentado numa laje
de pedra
viram
num céu escuro
as cores de um efémero arco e
receberam chuva nos cabelos
e beijaram-se e
pelo chão talvez tivessem caído
lágrimas De
seguida a escada íngreme
da despedida
Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca
a orquídea azul daquele dia
Todas as tardes olha o céu quando está escuro
Pelo chão lágrimas abraçam-se
Contos.6
tinham-se sentado numa laje
de pedra
viram
num céu escuro
as cores de um efémero arco e
receberam chuva nos cabelos
e beijaram-se e
pelo chão talvez tivessem caído
lágrimas De
seguida a escada íngreme
da despedida
Hoje, platão olha para uma jarra e observa seca
a orquídea azul daquele dia
Todas as tardes olha o céu quando está escuro
Pelo chão lágrimas abraçam-se
sábado, 17 de janeiro de 2009
fora-de-mercado - editores
morta que está a poesia vive e ressoa como acto e facto de resistência o poema Em cada caractere fluem antiquíssimos toques de sino vindos das torres mais altas lugares aonde só as aves nidificam e tudo vêem como um olho gigante no centro de um triângulo de ouro Cada face do triângulo é uma afiada lâmina de combate se o olho tudo vê cada ângulo cada vértice corta-nos as horas em finas passagens de medo e sobressalto Aí onde ninguém chega nem mesmo aqueles que sendo humanos voam esconde-se o poema e do poema nascem as águias reais que só alguns vencedores podem ver Nas noites fundas o poema ressurge como um relâmpago seco sem som mas com uma intensa e profícua vibração de odores sabores olhares tactos e paladares Dá-se então o encontro inefável com tudo o que está para além da vida dos vivos e da morte dos mortos Em cada caractere o sol brilha no seu meridiano somos então meninos doces envoltos numa tristeza que só a infância conhece Imaginam-se histórias contos romances encantados reais e proféticos O poema torna-se um sangue escuro junto à terra perto do mar sob o céu ao levar do vento De todos os ventos Uma rosa crucificada Sim o poema é o acto e facto de ainda se poder ser resistente e vitorioso Vêm-me agora à memória humanos de amor que em cadeia nos ligam a um infindável caminho in-verso hélder fiama cesariny caeiro de outras eras viegas só no seu único nome mário camões perdido num oceano alheio num poema atlântico e salomão o velho e cansado elefante que um dia um rei português decidiu oferecer a outro rei de um país frio caminhando em passos curtos de amarradas patas por correntes De outros cantos mário dionísio eduarda em antes que a noite venha álvaro lapa de pinturas escritas post-mortem carlos de oliveira sophia al berto variações de antónio Lá nas torres sineiras as águias nidificam os poemas que hão-de entregar quando o dia nascer Godard de vivre sa vie visconti de uma morte de cal em veneza Antes da palavra final estaremos vivos Caídos por terra sim mas vivos resistindo e vencendo Todos nós que viemos de longe Que vamos para longe aí onde nos vamos encontrar.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Contos.5
longe longe longe
muito longe
: o frio – platão de sobre
tudo
trancado à cama dormiu
longa longa longa
mente
Platão dormiu e a meio do sonho mais duro
uma gaivota do tejo
, aproximada aos vidros da janela,
batia com o bico nos vidros
enquanto uivava – frio frio frio
platão não acordava
e ainda assim a gaivota uivava
Só de noite –
mal despertou –
platão reparou que na transparência
da janela um fio de sangue secara
A gaivota?
Sócrates?
domingo, 4 de janeiro de 2009
Contos.4
dançaram
leves e de olhos postos
em pequenos objectos do palácio
Foram subindo escadas
numa conversa secreta e
de vez
em
quando
dando as mão sustendo a vontade
de dançar mais alto:
lá, no tecto esculpido, onde espíritos
dormem Sim
, naquele palácio são os espíritos que
guiam Espíritos com vozes claríssimas
E
, no centro da dança,
na sala do toucador real
lá estava Ela a Rainha enlouquecida
de que ninguém cuidou Foi
quando pararam de dançar
, se juntaram de ombro a ombro
e a felicidade daquele momento
ficou guardada no relicário dourado
onde já ninguém
entra
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Contos.3
24 de Dezembro de 2008
ainda lhe suavam
as mãos de subir ofegante a escada do prédio
quando descobriu que um grande gato amarelo
tinha, sorrateiro, entrado pela porta a cozinha
Travou-se ali,
então,
uma longa conversa entre
platão e o gato Platão
, assustado, pedia ao animal
que abandonasse a casa
o animal pedia a platão estadia
Levaram uns quinze minutos nisto
até que pelo cansaço o gato desistiu
e saiu
, agora rapidamente,
pela frincha aberta por onde tinha entrado
Á tarde
platão tentou dormir
mas aqueles felinos olhos cinzentos assombravam-lhe
as horas de descanso – afinal podia ter ficado
com ele, ao menos esta noite
Voltou à porta
podia ser que sócrates ainda por lá estivesse
mas não, nem um rasto nas escadas traseiras
Voltado à cama
platão sentiu um frio de remorso
Acendeu a luz da mesa-de-cabeceira
e pôs-se a escrever
contando o encontro que tinha desprezado
Finalmente um ser tinha vindo ao seu encontro
e ele por impulso recusou-o
Porquê?
Porquê
Desenhou um gato no caderno
e pôs-lhe cores e patas grandes
Desolado
, numa última linha,
escreveu:
«hoje, nesta minha casa encontrei-me com sócrates
com medo afugentei-o Nada a fazer»
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Centro Mário Dionísio - Ano Novo Vida Nova
A Associação Casa da Achada – Centro Mário Dionísio oferece às crianças da zona em que está sediada – e a todas as outras que queiram aparecer – papéis e lápis, no dia 31 de Dezembro às 16h, para pensarem a cores no Ano Novo Vida Nova durante a tarde do último dia do ano.
A sessão, que terá lugar na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, actualmente em obras, na Rua da Achada 11B, em Lisboa, será orientada por Regina Guimarães, escritora, cineasta e uma das sócias fundadoras da Associação. Os desenhos ficarão expostos no local durante a tarde do 1º dia do ano, das 16h às 19h.
O Centro Mário Dionísio encontra-se ainda em fase de instalação mas entendeu que era possível fazer esta iniciativa sem esperar pela sua abertura regular ao público, em dois dias mais livres do que outros.
Valerá a pena recordar o valor que Mário Dionísio – escritor, pintor, crítico de arte, professor e pedagogo – atribuía às actividades artísticas na educação – de pequenos e grandes. A propósito de uma grande exposição de arte infantil «Lisboa vista pelas suas crianças», realizada há 60 anos – tempos sombrios – afirmou:
A necessidade da prática da arte como elemento fundamental da educação mostra-se aqui com uma evidência irrecusável. (…) Esta bela exposição (…) marca, creio eu, ou poderia marcar, uma data importante na história do nosso conhecimento do homem e da arte, o que quer sempre dizer: rumos de verdadeira educação, de libertação, de felicidade.
domingo, 21 de dezembro de 2008
Contos.2
Platão deitava-se
Insone
Olhos postos no tecto
pelo corpo só os indispensáveis movimentos À
sua direita uma telefonia
e cigarros acumulados num mínimo cinzeiro
Platão ficava noites seguidas assim:
a ouvir, concentrado, os ruídos da rua
: homens do lixo
: cães ladrando ao longe
: um ou outro gato rosnando em briga
Por vezes
, uma vizinha gritava com o marido
Não
Para platão as noites nunca eram iguais
simplesmente nunca tinha sido ensinado a adormecer
No telheiro da janela
quando uma família de pombos
despertava, platão sabia
que chegara o momento de se erguer
apanhado na emboscada de um sol que nasce
de uma lua que se deixa apagar
Já levantado seguia para mais um dia
Dias de coração demasiado lento
preso à vontade de à noite voltar
e
insone
se deitar
sábado, 20 de dezembro de 2008
Contos.1
quando metia a chave à porta
e recebia no rosto a
chuva
da escuridão de um vento de espaço vazio
Platão sentia uma tontura
vinda dos pés até lhe tomar a cabeça
(assim como na guerra o inimigo toma em prisão
o amigo desconhecido)
Com medo
Sem coragem
platão avançava Primeiro
com o pé esquerdo, depois,
arrastando a perna
, o direito, fazendo bater
os
calcanhares Ficava em esquadro já dentro do apartamento
Fechada a porta demorava-se
uns
segundos no escuro Afinal era a magia
possível para os seus dias
Então acendia a vela
, via iluminar-se o corredor
e voltava a si – só –
e com cuidado pendurava o sobretudo
num cabide idoso junto a um relógio de pêndulo
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
poemas dispersos
presta atenção aos teus passos
sente como as mãos te podem salvar
olha uma última vez o sol no seu meridiano
escolhe uma planta que te acompanhe
Escreve
, Escreve muito
– Escreve tanto
...........quanto
................puderes
e depois dorme um silêncio profundo
acolhedor e maternal
sentindo a terra a percorrer-te a pele
quando acordares verás a lua a ocidente
crescente e alva Abraça-a
se o fizeres repararás como ela é pequena
e carente: um corpo inanimado reflectindo a luz
Uma Vez Mais Presta Atenção Aos Teus Passos
observa como há tanto tempo caminhas em círculo
dá agora um passo ao lado na tua marcha
saído do redondo caminhar Abre a porta
para outro teu encantar
Nada há a perder Nada para encontrar
só Luz e
, talvez, por sorte, por desígnio
um pássaro para te guiar
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
poemas dispersos
uma súbita face
Branca
no reflexo de um espelho oval
– eis a minha aparência
depois
da invocação Proibida –
: a Boca distorcida – Saliva escura
: Olhos semi-
........-abertos
, Mãos crispadas: um punhal!
Com um único sopro cerrei
três velas negras
. já na Treva profunda recitei:
«venite»
«lux»
«venite»
«lux»
«venite»
«lux»
e a Noite morreu em lua nova
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
poemas dispersos
27 de novembro de 2008
doce, Sentado
sobre A pedra
da cor dos goivos
e dos colares de cleópatra, Romeu
ouviu o Tiro As pernas
tremeram
como ossos desprendendo-
-se da carne
Sem chegar a sentir dor ou ferida
aberta. asfixiado. caiu
Romeu
no trono
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
poemas dispersos
primeiro o sol depois
devagar
as flores – as aves – o canto
sobre a mesa a caneta imóvel
o papel sem curvas nem marcas
? o sol
sim
a percorrer-me os olhos e a cegá-los
: ver como um cego
: ouvir como um cego
: tocar como um cego
sobre a mesa a caneta imóvel e
uma romã aberta
uma seiva púrpura – o sol?
sim! que fazia reflectir os frutos
juntos na forma de coração
único de uma romã
ao fim de um tempo um fio-de-dor
percorreu-me os cabelos
, a testa, os polegares –
aqui estou vivo-inerte a percorrer campos
numa estreita ala de convento
terça-feira, 18 de novembro de 2008
luz!
que desejamos para ti
Irmão?
luz!
sob a grandiosa estrela d’alva
cem anos fizeram o caminho
… quantos pedreiros no centro da rosa?
cruzes iluminadas
brancos lenços sobre as pernas
e na garganta um sinal de ordem
luz!
é o que desejamos para ti
Irmão
mas tantas vezes a treva se entrepõe
. névoa que invade o ar que atravessa o templo
no nevoeiro,
de que serve
o avental com que te revestes?
é luz
que queremos para ti
Irmão
que os três embates de malhete
te relembrem que progrides aprendiz
e quando levantares a espada incendiada
, invocando a grande arquitectura universal,
nada te espante que só tens um dever:
proteger
aqueles que como frágeis fios de luz
preenchem as colunas
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
poemas dispersos
a toda a largura da mesa
as flores e o inverno que elas trazem
. chove
há em mim um zumbido ansioso
que me afasta da janela
. recolho-me
enfrento as cores e as folhas das flores
e tenho medo
da largura da mesa
posso não voltar a ouvir flores
nem ver zumbidos
só sei que chove
e nesta minha cadeira nada muda
– acaba o dia não mais que isso –
imagino a meu lado esta tarde
uma grande lareira acesa onde dormisse
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
poemas dispersos
margem esquerda
vê-se o mar – torres com bandeiras
nos dedos contorcem-se teclas de piano
vindas de fora num desencantamento
de almas: margem direita
estreitos veios de navegação cega
mar e rio deambulando entre
as margens quando um caixão se levanta
trazendo dentro corpos de pedras
e à noite
pescadores musicais pescam ao som
desenfreado das âncoras soando
guitarras no extremo das canas
segunda-feira, 27 de outubro de 2008
sábado, 25 de outubro de 2008
poemas dispersos
ele viu o Rio e
os peixes
contorcendo-se em curvas
estreitas de Terra
Pousou os cotovelos num
imaginado colo maternal
: Ele mesmo um peixe atormentado
de marés fluviais....ou
talvez
uma rocha em sólida e precisa rota
domingo, 12 de outubro de 2008
poemas dispersos
caiu aos meus pés
a
âncora de um mínimo
navio onde marinheiros nus
rogavam pela salvação
da terra e
imploravam
na aspereza do convés
a devolução ao mar
às águas que tinham conhecido
Marinheiros nus implorando
aos meus pés
: solo indiano sem história –
a minha coragem
nada fiz – corpo inerte –
com o meu fato negro
apenas deixei cair a espada
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
poemas dispersos
da terra para o fogo
da sepultura para a luz
da treva para o globo solar
.........deus viu
e viu que era boa
a obra criada
levantou-se a criatura
e andou Nas
ruas foi visto e muito amado
até que voou e já sem
força nos membros caiu
: vasto areal de cidades
........deus viu
e viu que era boa
a obra A cova trabalhada
terça-feira, 7 de outubro de 2008
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
poemas dispersos
onde nasce a tua fonte?
Cava Cava Cava
um lençol de água
e sobre a tua capa
desliza e passa
o caracol sentado
que te esmaga
Vê depois os rios (que também são belos)
E as flores (que não são menos)
imagina pastores cheios de flautas
Cava Cava Cava
e sobre a Terra serás asa
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
poemas dispersos
olhos vermelhos Água
quente
de novo aquela Água
quente
: mãos coladas ao cabelo
(um cofre numa ilha)
olhos vermelhos engolindo letras
; palavras muito usadas
e a noite aberta aos
sons meticulosos dos cigarros
Num lago de olhos vermelhos
aquela Água quente
como um cofre solitário
ou dedos colados ao rosto
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
poemas dispersos
e desci
ouvindo vozes Comentários ferozes
e janelas a abrirem-se
Os meus pés enrolaram-se
nas mãos
e por dentro das mãos
um calor externo
um lâmpada Houve
quem dissesse que eram
o
s
meus gritos
vindos
de uma garganta
ausente Ardente
Na retorta de deus: évora o athanor
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
poemas dispersos
nem olhos nem boca
nem fogo nem sopro
nem terra nem lágrima
nem ouro
nem poema nem cristo
nem poeta nem pele
nem sal nem marés –
no coração do sutra perfeito
só o amor rarefeito
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
poemas dispersos
resta-nos abrir a porta
festejar os obreiros do céu
sentir o corpo
a
de-
com-
pôr-se
como um vento árabe
e olhar a derrocada dos dias
como se os dias pudessem ser olhados
e os olhos capazes
de olhar
terça-feira, 16 de setembro de 2008
poemas dispersos
e as chuvas não lavam
as flores e os frutos entre os
muros
da cidade
na lonjura das estrelas
o abrigo das vozes
maternais
expandindo-se sobre os filhos
areias devastadoras e nelas as
pegadas salientes
dos santos e iluminados
pregadores
as chuvas não respondem
aos chamados dos feiticeiros animais
e num grito último
fogem para a inexistente floresta
os gatos de um antiquíssimo egipto
domingo, 7 de setembro de 2008
poemas dispersos
talvez fosse uma gaivota…
… era uma gaivota fazendo
movimentos de gato por cima
da
cama
num sono curto o mar
a recordação dos comboios
acendida a luz
nada – paredes lisas si –
lêncio
sem sono
pela janela
um grito felino de gaivota
domingo, 17 de agosto de 2008
poemas dispersos
curvado a esta luz
oiço e sinto
gotas de relento caindo
lá longe Nas cavernas
dos suplícios Sei
do que são feitas essas gotas
mas calo
não caberia a mim
– profeta cego para o divino –
levantar-me e correr e salvar do sacrifício
aqueles que pelo choro
da escrita nessa torre se encontram
a Correntados
estou frio
miraculosamente, velho de menos
andar é para mim um esforço maior do que cair
Com a graça de deus
(depois destas linhas terminadas e
apoiado numa cana)
acenarei em cruz ao arcanjo s. miguel
lerei o jornal – isto já no café –
e toda a memória do que ainda há momentos tinha
invocado se dissipará em leite e pão
praia das maçãs, agosto de 2008
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
poemas dispersos
ainda trago um fio de sangue na roupa
, limões num saco Ligeiro corte
na podagem Acreditei que a luz do sol
me ajudaria a enxergar os veios dos ramos
o local certo da incisão
Ao contrário
ofuscou-me o grito do astro
e caí com letra no papel
já no chão vi um gato no céu
em forma de nuvem
e na terra muitos espinhos de rosa que
apesar de cravados
não me magoaram Conseguia levantar-me
estava bem
mas desejei estar melhor e ali fiquei
caído
ferido
mas deslumbrado com um céu imenso
escarlate de nuvens azuis e limões espalhados
ao redor da cabeça – amarelos
um amarelo definitivo
só Agora me ergui e depois de ter
recolhido os limões regresso a casa
vejo-me ao espelho estou mais leve
a cara cortada de chicote
fez-me despertar os olhos
o sangue caligrafou um olho na camisa
tudo está certo e maravilhosamente perfeito
praia das maças, agosto de 2008-09-14
segunda-feira, 4 de agosto de 2008
poemas dispersos
dE noite ainda se ouvia o mar
ou talvez fossem os pinheiros
na memória
ossoS
:um crânio com um esplêndido orifício
durante o sono surgiram imagens
de areia e sapatos
junto Às flores a infante sepultura
do teu nome
praia das maçãs, agosto de 2008
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
poemas dispersos
depois de uma palavra
um gesto subtil de uma suposta
carícia
nem rosas
se revelaram
na noite de chuva
nada de verdadeiro
já na rua procuro a tabacaria
o tabaco desfazendo-se em fumo
acalma as cores agressivas
à volta tudo falso – salva-se o silêncio:
o cansaço das horas seguintes
ouvindo poemas
– na noite sonho confuso
com um barco sem tripulação
implacável
navegando
sábado, 26 de julho de 2008
poemas dispersos
quase agosto
um dia de chuva
bastou
: dois corvos pousaram tranquilos
sobre as torres da fábrica
dois-grandes-corvos-quase-violeta
os operários saíram num ensejo
sonhador de os ver – ¿há
quantas décadas os corvos
não se aproximavam da cidade?
quase meio-dia… à hora certa
as sirenes gritaram
marcando a pausa para o almoço
mas a fábrica já estava vazia
no terreiro do estacionamento
três centenas de operários
tinham antecipado a pausa
para saudarem dois
corvos quase violeta
sexta-feira, 18 de julho de 2008
poemas dispersos
lia romances – extensos romances
lia
lia romances – extensos romances
em fundo azul
letras verticais e
oblíquas frases em erupção
depois dormia
deixando acesa uma suave luz amarela
e um gato a cobrir-lhe os pés
nos sonhos lia
relembrava
os romances
transformando-os em versos
delicados momentos de voo
no centro da noite
lia
lia romances – extensos romances
domingo, 6 de julho de 2008
poemas dispersos
viu-se de relâmpago e era negra
e como se uma chave fosse
uma chave foi
abrindo a porta do grande
palácio das buganvílias e dos loendros
lá dentro
sobre um pavimento de mosaicos
brancos e negros
duas colunas
suportavam sem esforço um globo celeste
e outro terrestre
duas esferas romãs
abertas e expostas à sua multitude
era uma espada de ferro quente
ondulada
: flamejante – a invocadora de todos os sortilégios
entre colunas –
onde reinava o silêncio
,soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui
não haverá espaço para a defesa porque
não haverá espaço para o ataque»
nisto uma bicéfala águia branca pousou
sobre a coroa do trono
e no tecto do palácio se escreveu
num ouro muito azul: «ordo ab chao»
poemas dispersos
pelas ruas caminham ainda
Gaivotas
e outros animais de nome desconhecidos:
¿gente perdida? –
numa montra um vestido Branco
perfeito – luminoso
pelas ruas caminham ainda
Flores
silvestres odores ignorados
jardins sem rosto
lagos sem rosto
paisagens distorcidas
pelas ruas caminha ainda
um vestido Branco
perfeito – luminoso
poemas dispersos
um dia – se me tornar mesmo
peregrino – encontrarei as tuas pegadas
junto ao rio que escolheste
e aí ficarei a contemplá-las
parado
ouvindo as águas
respirando o oxigénio das ár
vores gigantes
:os corvos
domingo, 22 de junho de 2008
poemas dispersos
procurem nas montanhas as pegadas
dos cavalos brancos e humanos
do grande apocalipse
procurem no deserto as águas frescas
dos oceanos que ascenderam aos céus
procurem as pedras preciosas
ocultas no centro da terra –
e quando estiverem deslumbrados
sintam-se perdidos e desiludidos
pois tudo o que encontraram mais
não foi que desgosto e iludida alegria
terça-feira, 10 de junho de 2008
poemas dispersos
mar e príncipes-perfeitos
a falésia – pináculo de catedral
ouvem-se as vozes do coro
Requiem
para sempre um Requiem
de ondas e cardos
:a leve brisa a que chamam primavera
quando É primavera
ou outono quando É outono
mar e princesas descalças
no pinhal do outeiro
muda-se a roupa ergue-se a voz
a mesma que ainda agora se ouvia
lá atrás
no coro da igreja nua
e a toda a volta a cauda de uma Sereia
sábado, 7 de junho de 2008
poemas dispersos
vinham e falavam crioulo
manchavam a terra
e sabiam enterrado o esposo
havia crianças e laços na cabeça
prematuras esperanças
e pelo meio um louco
deitavam cartas e olhos verdes
gritavam um hino vermelho
vomitando a gaguez
e de cada vez é de vez
vêm
às dúzias num comboio
há crianças uma a uma
de-cada-vez
deitam cartas e olhos verdes
vomitando a palidez
na carruagem cantam um hino
vermelho para dentro de um aparelho
português
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