quarta-feira, 21 de novembro de 2007
segunda-feira, 19 de novembro de 2007
sábado, 17 de novembro de 2007
sexta-feira, 16 de novembro de 2007
domingo, 11 de novembro de 2007
Íntima Fracção

«às vezes você quer ir a um lugar onde todos saibam o seu nome». assim começava a canção de abertura do programa televisivo «aquele bar»
como quem cumprimenta toda a gente, volto a encontrar-me «rumo ao sul» no espaço esotérico entre a virtualidade do computador e o sonho do éter_
como quem procura o amplexo da telefonia reencontro a «íntima» na fracção da noite – francisco amaral – pouco para dizer, muito para escutar, tudo para sentir.
daqui ouço o murmúrio de uma legião de ouvintes rumo à amada rádio. a sétima legião da beleza – logo a seguir…
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XXXIX a XL
XXXIX
serão precisos muitos meses, talvez
anos, para saber o que está a matar
as abelhas _ os apicultores não sabem […]
[…] ninguém sabe _ mas dizem as escrituras
sagradas que quando as abelhas e as
andorinhas
nos abandonarem é porque nos céus se iniciou
.....a grande revelação:
XL
kohan_
o mestre declarou ter chegado o momento
do pequeno aprendiz partir sozinho.
já lhe tinha dado todos os ensinamentos e revelado
todas as práticas. _ . «agora tu» _ agora eu _ «não me
deves pedir mais conselhos. nem te deves lembrar de mim.
pensa como se me tivesses assassinado, e, se for necessário,
não hesites, mata-me já»
.....passou-lhe para a mão um bastão, uma adaga e mergulhou:
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XXXII a XXXVIII
XXXII
xerazade aos quarenta anos, só
aos quarenta anos leio as noites
da arábia _ mil e uma _ simbade
numa barca bate-me à porta e pede
suave
.....um lugar com limos para dormir:
XXXIII
sê livre como uma pincelada japonesa.
ocupa de negro o lugar do falecido
..........irmão
..........cristo
verás como todas as flores
.....brotarão
.....na tua campa:
XXXIV
a sua santidade o brilho, o décimo quarto
brilho da minha janela _ eu presto homenagem.
a sua santidade o vidro, o segundo
da terceira janela _ eu presto homenagem.
a sua santidade sua santidade, primeira
sua santidade do meu brilho vitrio , eu
.....presto homenagem:
XXXV
se agora me dissessem ser eu o autor
d’a «a voz humana», palavra de honra que acreditava.
acreditava da mesma maneira que acredito,
quando me dizem,
que foi jean cocteau a escrevê-la.
..........fosse eu ou j+c
..........pela linha desse terrível telefone
.....soaria o mesmo disparo inevitável:
XXXVI
o teu nome é jaguar e és um búfalo
[sobrevivente entre a multidão, sem dúvida
mas um búfalo] _ dono de um jornal de província,
excluído da manada, tentando insistentemente
escrever romances. o que não seria tarefa difícil
assim conseguisses pegar com as patas a tua minúscula
.....montblanc:
XXXVII
não sei como hei-de responder à amabilidade
da senhora que serve
aqui
às mesas.
é gentil e encontrar gentileza nas pessoas que
servem às mesas dos cafés é tão raro… coisa
digna de uma gratidão a que não sei
..................................responder.
atrás dela
no balcão
.....reluz um prato de queijadas:
XXXVIII
como sempre existiu, o corpo policial existe
e com as mesmas características com que existia
no tempo em que sabíamos que ele existia.
estamos à sua mercê _ não falo de policias
de
giro
desses que envergam fatos de sopeira _ há uns
outros, os ratos, os que erguem espadas ao céu
para que os anjos sejam impedidos de passar.
mas os anjos, os meus, lutam
sem tréguas e ganham
.....empunhando espadas flamejantes:
sexta-feira, 9 de novembro de 2007
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XXVI a XXXI
XXVI
tinha dois macacos voadores,_dois pisa-papéis
..........(comiam aveia antes de adormecer),
tinha um vaso com trevos de oito folhas;
o cão que vinha ao meu chamado,
[…]tinha canetas e desenhos em mente[,,,]
agora estas coisas ficaram depositadas
.....na memória do jardim:
XXVII
o segredo está no sapato _ na paz final
nas farpas. palavras. palavras. palavras.
como em hamlet, sob um sol prateado,
estendida e morta flutuando nas águas da comporta
.....brilham grisalhos os cabelos de Virginia Woolf:
XXVIII
deixaram secar a fonte d’onde corriam peixes
deixaram secar os peixes
já não há asas nos convés dos navios
perguntam-me _ ¿ porquê e não lhes sei
...........(aos meninos)
...........dizer
.....uma palavra:
XXIX
hoje é o último dia em que posso
estar num café e escrever, hoje é
o último dia
de dinheiro para o café, para os poemas
é o dia infeliz que por mim, só por mim
.....adiava:
XXX
nunca mais quero dormir _ nunca mais
nunca mais quero dormir, ¿hã, não torno a repetir
quero sono
sono imenso daquele de que ninguém desperta
e ter um nome belo e lapidar
flores em volta e o choro de alguém à noite
numa cidade que eu não conhecesse
.....mas se chamasse paris:
XXXI
quando, às vezes _ em noites muito escuras,
ou muito claras [não as sei distinguir] _ me
sinto um cordeirinho e vou chorar para uma
cama com lençóis muito lavados e a cheirar a óleo de lavanda,
passa-me o todo o medo, sinto
.....uma roda de anjos e sou feliz:
segunda-feira, 5 de novembro de 2007
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XXIII a XXV
XXIII
o casal soube do meu sacerdócio.
como quem compreende tudo pediram-
-me que os baptizasse. como quem com
preende tudo, baptizei-os. «as
palavras do ritual diziam tudo»_ pensei
«reverendo, esqueceu-se da parte das alianças»
.....disseram à saída:
XXIV
um pássaro. um
pássaro com três cores. 3 riscas verticais,.,
do bico à cauda. cauda sim!
.....na minha cabeça pousou um tibetano alado:
XXV
ou a folha de papel é
branca e a tinta é da china
ou me engano muito.
.....só um pincel japonês pode desfazer esta dúvida:
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XXI a XXII
XXI
tentei acertar o relógio.
vezes sem
...................conta
e ele parado. sem conserto possível
não sei porquê
mas tenho ganho um amor especial
a esta máquina
.....que marca a hora exacta duas vezes por dia:
XXII
revoltaram-se as águas
a terra. caiu tudo, pássaros
gatos, pequenos rouxinóis re
voltaram-se os ares
.....caiu tudo, pequenas asas:
terça-feira, 30 de outubro de 2007
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XIII a XX
XVIII
o dragão entrou. fez disto
a casa dele. como um morcego
a quem ninguém liga bateu com
a cabeça nas paredes até que
o candeeiro
o encandeeirou
.....«coisas de dragão sem mãe»
.....gritou o meu pai:
XIX
um monge um leão uma caveira uma vela
a pena e o papel_
são jerónimo enfim numa re
produçãozinha a branco e azul
.....são jerónimo inteiro numa
.....reprodução mínima a branco e azul:
XX
querida lâmpada_
venho por este meio, dizer-te que
a luz foi cortada. já não há
dinheiro nem nos cofres da mamã
– de resto a mamã nunca teve
dinheiro nos cofres
a mamã tinha era cofres –
.....com cordiais saudações, teu:
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XIII a XX
XVIII
o dragão entrou. fez disto
a casa dele. como um morcego
a quem ninguém liga bateu com
a cabeça nas paredes até que
o candeeiro
o encandeeirou
.....«coisas de dragão sem mãe»
.....gritou o meu pai:
XIX
um monge um leão uma caveira uma vela
a pena e o papel_
são jerónimo enfim numa re
produçãozinha a branco e azul
.....são jerónimo inteiro numa
.....reprodução mínima a branco e azul:
XX
querida lâmpada_
venho por este meio, dizer-te que
a luz foi cortada. já não há
dinheiro nem nos cofres da mamã
– de resto a mamã nunca teve
dinheiro nos cofres
a mamã tinha era cofres –
.....com cordiais saudações, teu:
domingo, 28 de outubro de 2007
gotas caem, dispersam-se sozinhas - XII a XVII
XII
não é um gato. não é um peixe.
mas arde.......quando
.....olha:
XIII
kohan_
como o olho do velho santo e sábio mestre
vejo-me para o passado como
, a «pincelada única» de shitao
que nunca
.....serei:
XIV
um tritão negro, rebuçados de mentol (…
o cigarro cai-me da boca enquanto
..................o
pincel marca a folha branca…), um círculo
vermelho é desenhado com compasso_no
centro uma mosca de magníficos
.....olhos roxos, cai:
XV
coitado do canário – com tanta fome prendeu
a cabeça
entre as grades da gaiola estando
a alpista mesmo ali em frente
do outro lado da prisão numa alpisteira d’ouro
«destino cruel o dos canários humanos!»
poderia ter dito gil vicente:
XVI
porque me olhas
..........................¿faca
sabes que não me podes matar. eu
sei que não te poderei matar,,,
.....¿porque simulas enfrentar-me:
XVII
resignada salamandra venenosa. bebeu
a água que lhe foi dada e não a q
eu preci
sava. bebeu e depois chorou
.....desejou com ardência ser mulher…
_____… inverter o jogo:
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
domingo, 21 de outubro de 2007
gotas caem, dispersam-se sozinhas - I a XI
I
a seta disparou-se sozinha. caí
em alto mar tudo é único e
.....gigante:
II
afogo-me. afogo-me. afogo-me.
a
fogo
.....me:
III
ruído. escuro. sente-se o dia.
há
um plano subaquático para me despertar. pa
ra me
.....desapertar:
IV
as asas apareceram-me no sonho.
o cão dormia na minha cama.
o cágado, o cágado estava longe, mas...
_____...são raphael no sol nocturno:
V
tigre. no
ataque senti rasgões na pele.
.....um tigre amoroso:
VI
quando a abelha caiu no aquário, o
meu primeiro impulso foi sal
vá-la na morte. mas parei
dentro d’água o peixe e a abelha
desenharam círculos, coreografados,
como se todos
os dias fosse comum a essa abelha e
a esse peixe (vermelho) dançarem
.....no aquário:
VII
as asas que me esperam no espaço do
coração são pequenas rosas azuis
pequenas rosas azuis
pequenas rosas azuis
.....pequenas
.....rosas
.....azuis:
VIII
talvez não goste de escrever. talvez
não
goste de desenhar. talvez não goste de pintar
talvez goste. talvez goste.
.....talvez o poema. é tão difícil explicar:
IX
abriu-se uma janela e o frio entrou.
trovoada
pedras coloridas chovendo em todas
as
direcções
marcou-se assim um dia feliz:
X
vejam aqui está! o primeiro anjo.
vejam como ele toca a cabeça
............................da
mãe do mundo com o seu anel de ónix
.....negro... negro:
XI
de novo a seta
.....agora em chamas:
sábado, 20 de outubro de 2007
começa aqui um novo espaço de SAUDADES DE ANTERO

DE PÉ (Saudação a Antero)
José Mário Branco
Força é reconhecer
Que a morte, quando escolhida
É uma espécie de antever
A vida dentro da vida
É parecida
Só parecida
Com a vida por viver
Num jardim quadrangular
À vista do oceano
Pode perder-se o olhar
Na praia do desengano
É humano
Sobre-humano
É ter um canto p'ra salvar
De pé meu canto não te rendas
Saúda o mestre das oferendas
Canta, canta, coração
Que o poeta só te dá o que lhe dão
De pé memória do futuro
Há sempre luz ao fim do escuro
Numa ilha só morre o que lá está
O que conta no que foi, é o que será
É bem pobre condição
Render-se ao desespero
E ler só morte na mão
Direita de Antero
O que eu quero
Porque quero
É negar a negação
Há uma ausência feroz
Que veste a nossa mágoa
E esquecemos que é por nós
Que a fonte deita água
Mas eu trago-a
Mas eu trago-a
É a razão da minha voz
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