segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Satã - Poemas Portugueses - Texto final
30.
7 de Abril – Satã – Poemas Portugueses - Fim
Afrontando de soslaio o corpulento envelope com os Poemas Portugueses, Satã, verificou que na realidade não tinha um nome. Ele era SATÃ, não se chamava Satã, como um PRÍNCIPE não se chama Príncipe... nem sempre
... tinha sido assim. Num análogo tempo, num local deleitoso e com o odor de ser deleitável, Alguém numa cerimónia breve, tinha-o baptizado.... ¿mas que memória pode ter um anjo do seu baptismo? Satã tinha redigido e anunciado o intacto Evangelho. Findado o ofício, e só por falta de lembrança, o Seu nome não poderia ser pronunciado.
®
Satã
29.
Antes de ler os poemas que tinha assinalado,
Satã inaugurou os olhos para Livro-a-Livro
percorrer o quadriculado de notas.
¿«Seriam poemas que se entendessem»?
Aquietou-se, pois algures neste uni-verso
o Príncipe-Caído tinha redigido um Evangelho.
®
terça-feira, 5 de abril de 2011
Satã
28.
Suponho que foi por ter passado excessivos
anos a obrigar o desenho em mim, que sequei
a força do coração e a nitidez da mente.
Desenhei sempre com o ânimo de quem está para falecer
e quem risca pensando, consome-se numa vida
imutável com as mãos-mortas. É por isso que só escrevo
quando morro e tão liberto morro para escrever.
®
segunda-feira, 4 de abril de 2011
satã
27.
¿Que anseios terão por realizar
os Santos e os Homens de riqueza flamante
? ¿Esculpir bustos de árvores ou
cristalizar ondas marinhas? ¿Experimentar o
sabor da poeira estelar? ¿Escrever romances?
(... novelas de amor perpétuo a jactos cor-de-ruborizo J)
¿Ou para um Santo nada há já para apetecer?
Só se... Talvez... voltar atrás e escolher dormir...
domingo, 3 de abril de 2011
Satã
26.
Há quem goste delas. Há quem nem no
derradeiro aspiro renuncie à expectativa
de que algo parecido exista no outro mundo.
Ao contrário, há quem, como eu, chegado
o silêncio hórrido das alvas de Domingo,
se sinta castigado por todas as pragas da alma
e em pavor corra despido de haveres
rumo às arcas-de-Noé da nossa modernidade
: as escuras, porém coloridas, igrejas de bairro.
®
Satã
![]() |
| Manuscrito de Teixeira de Pascoaes |
25.
Os meus versos não são versos.
São as folhas-de-rosto de tudo o que os
meus sentidos comunicam e eu
não sei dizer. Se os meus versos fossem o
verso, e estivesse à ré daquilo que redijo,
seria porque tinha dado um passo em fronte
e tudo o que sei alcançara o fim da leitura.
®
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Satã
24.
Se S. João está certo –
¿e porque não havia de estar?
... foi amante do Nazareno
, testemunha do Santo-Corpo...
–, o Apocalipse que nos anuncia,
não despacha para um destino adiado o
efectivo fim-das-contas: invasão da Terra
por esqueletos excitados em dia de juízo-final
ou o rasgar do último selo de compromisso com o divino.
Saí do metropolitano na estação de São Sebastião,
ocorreu-me as setas que lhe trespassam o torso.
Ouvi com os olhos da evidência,
a última trombeta desta era.
®
quinta-feira, 31 de março de 2011
Satã
23.
Garantem os cristãos que no princípio
era o Verbo e o Sopro era Deus. Transmitem que tudo
era escuro e não havia ainda estrelas,
nem planetas com nomes gregos. Proferem
que num espaço que não era ainda espaço, a íntegra
majestade da Luz se fez soprando. Esta noite,
atrapado de treva, socorri-me aflito de um círio.
Cego, tateando, dei com o pavio
e sussurrei mentalmente: «acende-te sésamo!»...
®
quarta-feira, 30 de março de 2011
Satã
22.
O que incomoda nas moscas é que voam
e assim não permitem uma visão objectiva
da sua arquitectura, nem a percepção cuidadosa
da cor que carregam aos ombros.
O colorido de uma mosca é um preto tão vasto
que até verdes parecem louvar as asas gigantes e
translúcidas com que prometem ovos quando pousam.
®
terça-feira, 29 de março de 2011
Satã
21.
ao adormecer Li uns versos em alemão
e, porque não sei alemão, tudo me constou certo
, amplo, verdadeiramente amplo,
verdadeiramente certo.
Aqueles versos fluíram-me pelas veias
no clamor adorável de cada sentença.
Aventuro agora dizer que encetei bem o dia,
pois que nutri, lendo versos em alemão, é
exactamente a ignorância que desejo aos
que lêem os meus versos portugueses.
®
segunda-feira, 28 de março de 2011
Satã
20.
¿Se te fui dedicado? sim, sou. Mas no hiato
entre uma melancolia e outra, caí. ¿Confreires?
¿Nós?
Pensar isto molestou-me as recordações, encarcerou
o dormir e fez-me acordar antes do Sol-Novo.
É primavera, bem sabes, e os equinócios
são entes duvidosos, assombrados com a
florescência divina. Brumosas cobrem as certezas
e nascem dúvidas como espinhas entre os dentes.
®
domingo, 27 de março de 2011
Satã
19.
A luz de um cair-da-tarde no fim de Março
traz uma representação de desesperança
que nem o sono alivia no cansaço.
Com a insolência distinta dos pombos,
os céus tornam-se sonorosos, verdes-escuro,
apartando os anjos das almas que os refletem.
Pior seria ter de andar pelo campo,
respirar fedores de terra e sementes de trigo,
ver bois ao longe com medo de estarem perto,
ou ser tentado a colher uma réstia de flor como
acto de contrição por todo o mal de ter nascido.
Antes a cidade e a luz eléctrica: iluminação
pública, semáforos.
Antes passeadouros a imitar canais venezianos.
®
sábado, 26 de março de 2011
Satã
18.
Não posso garantir, mas creio
que as fibras da face já não me atendem...
Nada de físico sustenta este credo. E por isso É um credo.
¿Terão alguma vez estes músculos
sido obedientes à minha firmeza?¿Que raio é a vontade?
Julguei que quando «mentalmente» aspirava ao esboço
de um sorriso, numa mecânica síncrona, os lábios se
verticalizavam em amostra inequívoca de aprazer...
¿Como posso ter pensado que aquilo que na «mente»
se articula como «sorriso», nos lábios coincide? ¿ Acaso
a reputação de um sorriso «mental» pode corresponder
ao sentido de sorriso que os lábios têm?
Tantos equívocos. E hoje, agora, não posso garantir,
mas creio,
que as energias da face não me atendem.
®
sexta-feira, 25 de março de 2011
Satã
17.
Na morte do Prof. Eduardo Chitas
Era filosofista,
nunca tinha deixado o costume das
camisas quadriculadas dos pescadores
de Vila-Franca –, estalinista sem maneiras,
Morreu, chamava-se Eduardo
e ninguém o reclamou em voz alta.
«...Que sofria do coração...» –,
¿quem não sofre?
,– «...Que já se tinha reformado...» –,
Sim. Foi a maior alegria
da sua vida mundana de professor.
«...Que estava ultrapassado... Que questões,
agora... depois do muro... ¿Deus sem Homem,
Homem sem Deus?... que disparates...»–,
Os filosofistas estão sempre ultrapassados.
É por estarem superados que, vencidos,
não deixam de regressar ao
currículo olímpico da sabedoria.
Não são filósofos, ¿percebem?
É no «ismo» que constroem a conduta.
Na semana passada, Eduardo Chitas,
nosso camarada, deixou a Terra
onde, todos os dias, duvidava.
®
quinta-feira, 24 de março de 2011
Satã
16.
Projecto numas folhas de pequeno papel amarelo,
o início e o fim das inumeráveis narrativas que nunca irei escrever.
Estou tão certo de que nunca as irei escrever, como estou certo
da existência de folhas de pequeno papel amarelo.
¿Mas... se lhes conheço a entrada e o acabamento,
não será como se já as tivesse escrito?
¿Viverão essas narrativas, que acredito nunca irei escrever,
numa entrepausa entre mim e o duvidar, fazendo-me ignorar
que num espaço oculto da matéria visível, já escrevi
e li, o que só por dor não soube escrever?
®
quarta-feira, 23 de março de 2011
Satã
15.
Ainda não era noite, quando, na forja
do café, ardi um dedo no que de mais digital
o confecciona. Adivinhei, como não sabia que se podia adivinhar,
o torrão externo do tacto. E sobrou ter a minha pele agarrada
àquela grelha invisivelmente ardente, para
, pela primeira vez, Ver a impressão do que me toca
invés da habitual intuição de tocar. Tocar
pele e ter tocada a pele, são duas substâncias tão distintas
e removidas da realidade nuclear dos sentidos,
que se torna insuportável pensar que não
se sabe, nem por estimação, daquilo que experimenta o que nos toca, a menos que, por um segundo, o fogo-real-que-queima
, nos acenda... um dedo
, que seja.
®
terça-feira, 22 de março de 2011
Satã
14.
Vi um psicotécnico a correr junto a uma autoestrada.
Vestido, evidentemente. Usava uns calções, muito azuis,
uns collants muito pretos, um gorro muito castanho e
uma camisola sem mangas seriamente justa. Ali,
acelerando em collants, circulava na via pública toda a psicologia diplomada das universidades, todo
o pensamento analítico-sintético das escolas primárias
e, como suplemento, o emblema majestático do futebol: O
Clube do Porto. O psicologista que passava, e tossia, do fumo
largado em escape pelos automóveis, demonstrou-me
, cientificamente, como é justo, que numa manhã de chuva, podia
ser de Sol, a lógica da psique tosse enquanto corre e usa
gorros muito castanhos, só para mostrar quão saudável é
na apreciação cuidada da mente aberta do alcatrão.
®
segunda-feira, 21 de março de 2011
Satã
13.
Quem vê nos astros roteiros da vida futura
; quem cata em búzios outra coisa de divinatório
que no búzio não seja o som do mar; OU
, ainda, quem,
em lâminas de papelão supõe algo
mais legível do que os títeres estáticos nelas impresso; OU
, ainda, quem,
meneia a cabeça em nãos e sins ao solavancar de um pêndulo... poderá julgar tudo, querer tudo para as suas cubagens
extra-humanas mas mais não deixa de ser que
uma porteira citadina à fala com as comadres, fazendo da esfregona e das chinelas um oráculo rubro da sua mal-decência.
Não desconfio da existência influente de feiticeiros, magos, lamas
, padres, damas-de-companhia, nem mesmo de Deus quando
se obriga a trazer Luz aonde governa a cerração. Pois, para que arriscasse vacilar, teria de provar que não viviam. Na realidade,
até já me atravessei com Deus e com Damas-de Companhia.
Mas... com franco sortilégio, só me prostro perante uma utopia
: a daqueles sábios que suportando acesa uma fogueira,
julgam que é ela mesma o Sol oriente.
®
domingo, 20 de março de 2011
Satã
12.
Ocupar uma Só divisão no fogo, implica conceder
a cada parede uma janela extensíssima,
por onde passe vento, a luz... quando há luz, o
som dos gritos na rua... quando há gritos na rua,
e fruir uma cama que se compare a uma nuvem
onde se consiga distinguir a humanidade inteira
e de onde tudo possa ser apetecido tão alto
se está do que mundano é
no dia-a-dia rústico das Cidades Colonizadas.
Conseguido, a divisão confinada dessa casa,
transforma-se num inflamar de olhos e peito
fazendo «Abril» para sempre uma Lua, Cheia-de-Março.
®
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